Mag Magrela expressa sua dor pela tragédia de Mariana em mural de 72 m²

Grafiteira paulista criou arte sob o viaduto Viaduto Gil Nogueira, na Pampulha, a convite do projeto Telas Urbanas

por Shirley Pacelli 18/11/2015 08:00

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Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
Mag Magrela, grafiteira de São Paulo, debaixo do viaduto Gil Nogueira, na avenida Pedro I (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Desconforto. Em tons de laranja, tal qual a lama que escoou da barragem rompida da mineradora Samarco e tingiu o Rio Doce, duas mulheres se sustentam em cima de pedras que se desmancham no ar. “A catástrofe de Mariana acabou com meu coração. Arranca pedaço da gente!”, afirma a grafiteira Mag Magrela, de São Paulo, enquanto desenha o painel descrito acima, que ocupará 72 metros quadrados no Viaduto Gil Nogueira, na Avenida Portugal, em Belo Horizonte.


Mag é uma das convidadas do projeto Telas Urbanas, iniciativa da Fundação Municipal de Cultura para promover a arte mural na região da Pampulha, que vai até o próximo dia 22. Entre buzinas, cantadas e pedidos por pintura de escudos de times mineiros, na tarde de anteontem, houve aqueles que passaram debaixo no viaduto e gritaram frases variadas para descrever o quão bonito estava o trabalho. “Colorido, né?”


Mas Mag não quer embelezar nada: “Meu trabalho mudou a partir do momento em que entendi a força que as ruas exercem diretamente nas pessoas. Quero passar uma mensagem. (Meu trabalho) carrega significado”, diz.


Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
Mãos de Mag após grafitar na Pampulha na tarde de anteontem (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Do bullying sofrido na escola veio o apelido que Carol Maciel, de 30 anos, levou para as ruas da capital paulista em 2007. Personagens sempre foram seu forte: antes infantis e até alguns masculinos brutos. Aos poucos, desenvolveu um trabalho cada vez mais autoral. “Procurando meu próprio estilo, cheguei ao meu autorretrato. Sinto-me mais representada”, afirma.

Mag passou a retratar em seus grafites situações com as quais lidava em seu cotidiano, como relações amorosas e o incômodo com atitudes machistas. A representação de vaginas, algumas disfarçadas em flores, é recorrente em seu traço. “É como se eu dissesse: é só isso que você quer de mim? Meu corpo e minha beleza?”, explica.


As cores laranja e azul vieram da memória afetiva do chão e do céu da infância feliz na Bahia. Já os azulejos, volta e meia presentes nas imagens que cria, são referência à mãe portuguesa e ao avô pedreiro. “Ele tinha ‘noia’ e colocava caquinho em tudo que é parte do chão. E são muito presentes também no cenário de São Paulo”, afirma.


São Paulo é a terra também da pichação, prática admirada pela artista. “Adoro pichação. Picho é marginalizado, porque as pessoas não entendem. Sempre me perguntei o porquê. E depois você vê que a sociedade é desse jeito. O cara mora na pqp, não tem estrutura no bairro, tem problema familiar… Ele coloca para fora. Os gringos piram na pichação. É como obra de arte. Faz a cidade pulsar, viva!”, avalia.

Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
Minas de Minas (Krol, Nica, Musa e Viber), que pintam mural com crítica ao consumismo (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
CONSUMISMO Com um mural com a proposta de criticar o consumismo exagerado, o grupo Minas de Minas, de BH, também participa como convidado do projeto. Formado pelas grafiteiras Lídia Soares (Viber), Carolina Jaued (Krol), Nayara Gessica (Nica) e Louise Líbero (Musa), o time foi formado em 2012.


“O consumismo mascara tudo à nossa volta. Estamos incomodadas com essa coisa de que ‘você precisa do melhor telefone que tiver’. Queremos lembrar que isso não é para ser normal. Somos manipulados”, opina Nica.
Enquanto Nica e Musa lançam mão da técnica de letras em 3D, somadas às reproduções de notas de dinheiro e referências às grandes marcas mundiais para passar seu recado, Krol representa com seus pincéis a mulher ideal das propagandas de beleza.


Já Viber, que está com exposição individual em cartaz na Urban Arts, grafita dois personagens da rua refletindo sobre o que é felicidade. “Esse projeto acaba sendo uma conquista para a gente. É o grafite sendo aceito por outras pessoas, que antes o tratavam como vandalismo”, avalia Viber.




Impulso à arte urbana

O edital do projeto Telas Urbanas foi lançado pela primeira vez em julho deste ano. Criticado por artistas da cena de grafite local, o texto foi cancelado, reescrito e relançado em outubro, com adequações diversas. Entre elas está o aumento dos cachês destinados aos participantes, a desburocratização no processo de inscrição e o fornecimento de equipamento de segurança.

Com execução do Museu de Arte da Pampulha, em parceria com a Associação Cultural dos Amigos do Museu de Arte da Pampulha (Amap), o projeto sofreu um corte de recursos e acabou sendo dividido em duas etapas – metade dos artistas selecionados só deve finalizar o trabalho depois do carnaval de 2016.


Ao todo, são 68 participantes. Entre eles estão Gabriel Dias, Iron, Biga, Mone e Celo, John, Priscila Amoni e Felipe Godoy. Outros 15 artistas foram convidados, sendo três paulistanos com trabalhos reconhecidos internacionalmente: Mag Magrela, Paulo Ito e Onesto. Todos os projetos inscritos passaram pela seleção de uma curadoria, que levou em conta a capacidade técnica, a experiência e a adequação ao tema “Cidade que vibra”.


“O projeto é importante para criar uma relação diferente das pessoas com os espaços públicos. Trazê-las para mais perto dos suportes da cidade e reativar alguns pontos que acabam ficando ‘mortos’. E tem também a importância de incentivar essa cena de arte urbana de BH, que carece demais”, afirma o artista Comum, curador do projeto, que atua desde 2004 na capital.

 

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