Biografia ressalta os contrastes do ex-presidente do Uruguai José 'Pepe' Mujica

Político se destacou pelo comportamento anárquico, o idealismo e o culto à simplicidade

14/11/2015 08:00

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Marcos Miras/AFP
(foto: Marcos Miras/AFP)
*por Lourenço Cazarré
 
José Mujica Cordano, presidente do Uruguai entre 2010 e 2015, passou a ser conhecido fora de seu país quando, na mídia internacional, começaram a se multiplicar reportagens de texto e imagens sobre “o presidente mais pobre do mundo”.

De repente, o planeta descobriu que num pequeno país da América do Sul o mandatário em exercício entregava 70% do seu salário para um programa de construção de moradias populares. E que vivia com os 30% restantes em uma chácara, digamos, bem rústica na periferia da capital, com a mulher (uma senadora), 10 cachorros e uma batelada de gatos. E que de vez em quando, burlando seus seguranças, saía a bordo de um destrambelhado Fusca azul-piscina para visitar amigos ou tomar umas num boteco. E que se recusava, terminantemente, a pendurar uma gravata no gogó.

Esquisitices e birras tomam mais da metade das 260 páginas de Uma ovelha negra no poder – Confissões e intimidades de Pepe Mujica, de Andres Danza e Ernesto Tulbovitz (Editora Bertrand Brasil, 261 páginas, R$ 32), mas a verdade é que o homem que existe por trás dos incontáveis lances histriônicos tem café no bule.

Mujica não é um boneco de ventríloquo como a maioria dos políticos de todo o mundo. Ele fala o que quer, enquanto seus colegas preferem repetir frases feitas e chavões elaborados por marqueteiros. “Terão que fazer um monumento para mim porque sou a única pessoa da política uruguaia que fala o que pensa”, disse certa vez.

Dom Pepe fala exatamente o que pensa. E o que ele pensa vai contra o lero-lero demagógico das ideologias dominantes, de direita ou esquerda. Seus conceitos, sempre instigantes, sobre vida, amor, política, trabalho, velhice e consumo foram amadurecidos em 15 duros anos de cárcere.

Já antes de chegar à Presidência de seu país, o segundo menor do continente depois do Suriname, Pepe Mujica era bem conhecido como esquisitão, mas também como um político astucioso, verdadeira raposa.

Presidente improvável, já ao tomar posse mostrou suas credenciais de ranzinza empedernido. Recusou-se a tomar as medidas para a confecção de uma faixa presidencial, Sugeriu que seu antecessor no cargo, Tabaré Vasquez, lhe emprestasse a sua. Em pânico, seus amigos se mobilizaram secretamente e fizeram aparecer, no dia da posse, uma faixa que chegava aos joelhos do novo presidente.

Faina rural


Esse fato gerou a primeira de muitas de fotos bizarras. Uma das mais conhecidas é aquela em que dom Pepe aparece com sapatos desbeiçados entre as elegantérrimas Dilma Rousseff e Cristina Kirchner numa reunião do Mercosul em Brasília. Para as duas “presidentas” encantadas com os borzeguins de mendigo, o velho do bigodinho explicou que ao sair de sua chácara para viajar ao Brasil, apressado, se esquecera de tirar os calçados que usava na sua faina rural.

Implicâncias com os rituais protocolares da Presidência da República uruguaia geraram incontáveis incidentes relatados em Uma ovelha negra no poder. O sempre descabelado Mujica foi o primeiro homem a entrar sem gravata no palácio real da Bélgica. Em outro palácio, na Suécia, ao esquecer sobre a mesa um presente que deveria entregar ao rei, desencadeou uma paranoica operação com um formidável esquadrão antibombas sendo convocado para abrir o misterioso embrulho.

Mas as casmurrices contra o cerimonial são o menos importantes em se tratando de Jose Mujica, um político diferenciado. Ele é absolutamente probo em um continente em que campeia a cleptocracia. Exerceu seu mandato com isenção republicana numa região onde os dirigentes – quase sempre tiranetes ou larápios, ou duplamente dotados de ganância e sede de poder – adoram favorecer empresários mui amigos, correligionários ou parentes.

Da década e meia que passou em cana, durante sete anos não leu um só livro. Mas refletiu muito. Define-se com um escritor falante. Seus pensamentos, assegura, vão se formando nas conversas que tem o tempo inteiro com os interlocutores mais variados. “Gosto de pensar em voz alta”, diz.

Anarquista, graças a Deus

Nos seus pronunciamentos, Mujica sempre se afirma anarquista. Porém, se levadas em conta as definições dos compêndios de ciência política, ele não é. É, isso sim, um sujeito de comportamento anárquico, meio riponga, paz e amor, isso sim.

O anarquismo prega que a sociedade existe independentemente do poder do Estado, que deve ser combatido e destruído. O anarquismo também é contra o capitalismo e a propriedade privada. E a panaceia que defende para o bom funcionamento da vida econômica é a autogestão, em que os trabalhadores – presumivelmente, cordiais e bem-intencionados – dividem pacificamente o comando do empreendimento e a trabalheira.

Surpreendentemente, Mujica declara-se admirador de duas instituições milenares que são as mais odiadas pelos anarquistas de qualquer tempo e quadrante: a Igreja Católica e as Forças Armadas. Ateu confesso, considera a Igreja Católica o mais antigo partido político e com maiores seguidores graças à sua organização piramidal perfeita.

Prisioneiro de uma ditadura militar – “não tenho ódio dos milicos” –, dom Pepe vê nas Forças Armadas a origem da civilização. “Como foi construído o império inca? E o romano e o chinês? O Exército vem antes até mesmo do Estado.”

Energia criadora

O “irreverente nato” também não se mostra um grande adversário do capitalismo. Pelo contrário, elogia abertamente alguns ricaços que levaram adiante empreendimentos bem-sucedidos no Uruguai, criando empregos e riqueza.

Certamente, fez os esqueletos de Bakunin e Proudhon se revolverem inquietos em suas tumbas ao declarar: “Os capitalistas são a energia criadora do mundo”. Praticamente todas as falas de Mujica – sobre qualquer assunto – são pontilhadas por sonoros palavrões e arrematadas por um recorrente bordão: “É brutal!”.

Hoje, com 80 anos, dom Pepe já entrou para a história. Pelas suas bizarrices, sim, mas principalmente pelo seu legado político – verdadeiramente significativo, até revolucionário – concentrado em três medidas desassombradas: regulamentou o plantio de maconha, descriminalizou o aborto e legalizou o casamento de pessoas do mesmo sexo. Isso não é pouco num continente dominado pela Igreja Católica, que só agora começa a perder seu poderio diante do avanço vertiginoso de congregações ainda mais conservadoras.

Segundo dom Pepe, ao legalizar o plantio e o comércio de marijuana, o Estado deixa os narcotraficantes sem mercado. Mata-os à míngua. Tudo o que Mujica conseguiu na sua Presidência – e que não foi pouco – certamente só foi possível porque o povo uruguaio é um dos mais educados do continente e aquele país é um dos menos corruptos da América Latina, ao lado do Chile.

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