Ferreira Gullar abre hoje em Belo Horizonte exposição de trabalhos em colagem

Poeta discorda da ideia de que a criação artística é produto do sofrimento e diz que um poeta escreve pensando em ser feliz, não em 'transformar a sociedade'

por Walter Sebastião 27/06/2015 09:56

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Ana Clara Brant/EM/D.A Press
O poeta Ferreira Gullar diz que a avaliação de sua obra como artista plástico é tarefa para os críticos de arte (foto: Ana Clara Brant/EM/D.A Press )

O escritor Ferreira Gullar, de 84 anos, é bem conhecido como poeta e crítico de arte. Hoje, a partir das 11h, ele mostra na Lemos de Sá Galeria de Arte outra face de sua obra: trabalhos de artes visuais. A mostra leva o título de A revelação do avesso e consiste numa série de colagens realizadas entre 2014 e 2015. Será lançada ainda uma edição limitada (90 exemplares) de uma caixa com a edição das colagens e um relevo em metal criado a partir delas (Aprazível Edições). “Não sou artista plástico”, avisa o poeta. Mas ele não esconde que anda feliz da vida com o sucesso da empreitada e em ver suas criações mostradas com capricho em galerias de arte.

Os trabalhos dessa mostra surgiram a partir do hobby de Gullar de pintar, desenhar e fazer colagens. Fazendo as últimas, encantou-se ao descobrir, por acaso, que o papel no qual trabalhava adquiria, no avesso, outra cor. E deu curso a trabalhos que jogam com a diferença entre frente e verso de cartões. Galeristas amigos dele viram o resultado e propuseram exposição das obras. Ele resistiu, mas acabou aceitando. Mas não gosta de discorrer sobre os trabalhos nem quer saber se eles têm influência do neoconcretismo, movimento abstrato geométrico dos anos 1950, cujo manifesto foi ele quem escreveu. “São questões para os críticos de arte”, justifica.

“Busquei ainda fazer algo bonito”, acrescenta, afirmando este aspecto, junto com o prazer, como elementos essenciais da arte. Ele aponta diferenças entre o trabalho com elementos visuais e com a escrita. “Ao escrever um poema, você trabalha com os significados explícitos das palavras”, diz, considerando que o trabalho com o texto permite mais consciência do que se está fazendo. “Mas toda criação artística é mistura de intuição e consciência, de acaso e necessidade. Você tem uma ideia, mas não sabe de antemão o que vai fazer. É o fazer, corrigir, refazer que transforma a ideia em arte”, defende Gullar.

Gullar diz que “a arte transforma banalidade em beleza” e se opõe à ideia de que a produção artística é produto do sofrimento. O poema, o quadro, a música, diz ele, mesmo partindo de um tema doloroso, são evidência de superação da dor. Voltando aos trabalhos, observa que a cor é elemento importante, mas não mais do que a forma. “Não há como separar as duas coisas. Se você muda a cor, a forma ganha outro significado.”

VOCAÇÃO
“Quando eu era garoto, queria pintar, achava que ia ser pintor. Mas ninguém decide o que vai ser. Ninguém decide ser artista, cineasta, craque de futebol. O cara nasce Pelé. Quando decide ser poeta, é porque já é poeta. A pessoa pode até não desenvolver as qualidades que tem, mas nasceu Pelé”, afirma. O que há, na opinião do escritor, na origem da decisão pelas artes “é o sentimento de que podemos fazer aquilo ao ouvir uma música, ler um poema, ver um quadro. “O que não quer dizer que seja uma pessoa superior nem que seja profissão melhor do que as outras. A vida é um mutirão, com cada um dando a sua contribuição com as qualidades que tem. E todos têm suas qualidades”, afirma.

O escritor não separa sua dedicação às artes de outras atividades, como jornalista, militante político – e até de marido, pai e avô. Já viveu um momento, recorda, em que usou a arte como instrumento político. “Às vezes dá certo; às vezes, não”, avalia. “Um poema político, tem de ser bom poema antes de ser político. Texto que é apenas pregação de uma ideia não presta. Um poema pode ter objetivo social, moral, político, mas só conteúdo não basta. O importante é a qualidade dele”, afirma. “O teatro de Brecht é político e de alta qualidade. Antes de mais nada, é teatro e tem um conteúdo político”, exemplifica.

Ferreira Gullar também relativiza a intenção de transformação que se atribui à arte. “Quando um poeta escreve, não está pensando em educar ou transformar a sociedade. Ele quer ser feliz naquele trabalho e partilhar o que fez.”

Pai do neoconcretismo

Ferreira Gullar é o pseudônimo de José Ribamar Ferreira. O artista nasceu em São Luís (MA) e, desde 2014, ocupa a cadeira de número 37 da Academia Brasileira de Letras. Morando no Rio de Janeiro, participa, em 1956, do movimento concreto, que defendia a abstração geométrica como caminho para a atualização da arte brasileira. Em 1959, junto com Lygia Clark, Hélio Oiticica e Amilcar de Castro, entre outros, cria o neoconcretismo, proposta que se opunha ao encaminhamento matemático dado à estética pelos integrantes paulistas do grupo. A experimentação neoconcreta, radicalizada e somada a outras referências, vai se tornar fundamento da arte contemporânea brasileira.

Com relação à produção dos artistas plásticos de sua geração (“a de Lygia Clark, Hélio Oiticica, Amilcar de Castro e Franz Weissmann”, especifica) ele diz que não havia preocupação em ser original. “O conhecimento da arte concreta levou cada um a ampliar as pesquisas que fazia, que acabaram indo além do que se fazia na arte europeia. Por isso chamei de neoconcreto. Mas tudo surgiu naturalmente, a partir dos trabalhos, da busca e do prazer de fazer as coisas”, conta. “A arte brasileira sempre teve grandes artistas”, afirma.

Com relação à produção recente, mantém opiniões bem conhecidas – e sempre discutíveis – tais como a de que “a arte contemporânea raramente produz algo que valha a pena”, mas anda fazendo concessões: “Desvio para o vermelho, de Cildo Meireles, é muito bonito. Não é pintura, não é escultura nem gravura, mas é criação do artista, tem humor, não é uma bobagem”, elogia.

A revelação do avesso
Exposição de colagens e lançamento de um múltiplo de Ferreira Gullar. Hoje, das 11h às 15h. Lemos de Sá Galeria de Arte, Avenida Canadá, 147, Jardim Canadá, (31) 3261-3993. Visita à mostra, de segunda a sexta, das 10h às 18h; sábado, das 11h às 14h. Até 17 de julho. Entrada franca.

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