Perfil: Elvécio Guimarães completa 80 anos e se mantém dedicado à arte de interpretar

Talento, informação e emoção fazem parte da vida do ator, diretor e professor

por Jefferson da Fonseca Coutinho 21/04/2013 08:00

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Jair Amaral/EM/D.A. Press
(foto: Jair Amaral/EM/D.A. Press)
Quem já esteve na plateia, nas salas de aula ou na cena com ele sabe da presença que emociona, ensina e faz diferença. Elvécio Queiroz Guimarães, que acaba de completar 80 anos, coleciona mais de mil personagens em 66 anos de carreira. Quase tudo arquivado e bem organizado em cômodo de fundos, com duas estantes de aço e uma dúzia de prateleiras, no apartamento em que vive, sozinho, no Bairro São Lucas, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte. Reunidas, dezenas de pastas azuis, de espessuras variadas, guardam boa parte da história das artes cênicas e da televisão brasileiras. Mineiro da capital, o ator diz ter perdido a conta de a quantas histórias emprestou a vida – seja no rádio, na TV, no teatro ou no cinema. O ator também traz na história contribuições na gestão pública da cultura, com passagens pela direção do Teatro Francisco Nunes, presidência da Fundação Clóvis Salgado e como secretário de estado da Cultura. Apaixonado pelo que faz, sobrevivente de dois acidentes vasculares cerebrais, sem sequelas, Elvécio segue a rotina de trabalho que o consagrou: além de dar assistência a profissionais da TV Alterosa, escreve, dirige e atua em Nelson sem pecado – espetáculo autoral em homenagem ao dramaturgo Nelson Rodrigues, com estreia prevista para agosto no Palácio das Artes.

Tanto a dizer, com a experiência de quem começou no rádio cedo, aos 14 anos, Elvécio Guimarães foi parar nas salas de aula. No fim dos anos 1980, ajudou a fundar o Centro de Formação Artística (Cefar) da Fundação Clóvis Salgado – escola de arte das mais importantes do país –, onde o mestre passou a ensinar interpretação. Nos salões de ensaio, dividiu opiniões: foi ídolo de muitos e ignorado por outros tantos.
 
“Alguns diziam que eu era do ‘teatrão’”, diverte-se. Alheio aos mais críticos, arrebatou gerações. Formou novos professores e fez amigos para toda a vida. Muitos com os quais dividiu a cena em diversas ocasiões. Generoso, sempre fez questão de dar oportunidades de trabalho aos ex-alunos. “Meu método de ensinar é o meu método de interpretar. Nunca me imaginei professor. Em sala de aula, estava dividindo experiência. Gosto de compartilhar”, diz.
 
Professor aposentado do Cefar, Elvécio revela ter sistematizado método de interpretação. “Rasguei. Deixei de lado”, porém. Contudo, com a emoção de quem também nasceu para o ensino, em fração de segundo, transforma a sala de visita e entrevista em laboratório e dá aula aos visitantes. “Talento sem preparo técnico não vale nada. Vira furor. Técnica sem talento produz atores com alguma competência, mas que, em geral, não comovem.
 
O ator, antes e acima de tudo, precisa estar atento para a vida”, ensina. Ao estilo do polonês Jerzy Grotowski (1933-1999) de ensinar, Elvécio deixa a caneta cair, naturalmente, para exemplificar lição: “Você viu o que ele fez? Ele olhou, viu, entendeu, compreendeu e reagiu. Pensou: a caneta do Elvécio caiu. Ele está velho, vai ter dificuldade em se abaixar para pegar. Vou pegar para ele. Pegou. Percebe a naturalidade da motivação?”.
 
Embora advogado de formação e ex-bancário, Elvécio destaca apenas a arte em sua linha do tempo. “Como artista fui muito amado. Termino os meus dias como sempre quis. Nunca quis ser famoso. Quis ser respeitado”, ressalta. O solo mineiro foi uma opção consciente do artista, encantado por Belo Horizonte. Não que não tenha tentado fazer carreira em outras praças. Nos primórdios da TV, nos idos de 1950 e 1960, o ator tentou o Rio de Janeiro por duas vezes. Fora, diz ter descoberto que os melhores profissionais do ramo estavam em Minas. Revela que a primeira grande paixão foi o rádio.
 
Conta, menino, aos 7 anos, ter ouvido a voz de Rodolfo Meyer (1910-1985), numa radionovela. “Disse para minha mãe: ‘Mãe, mãe! É isso que eu quero ser. É isso’, e apontei para o rádio. Estava tocando Niccolo Paganini (1782-1840), o ‘violinista do diabo’. Aí, ela me levou para estudar violino”, sorri. Logo depois, a família, morando no Rio de Janeiro, entendeu que o moleque sonhador queria ser radioator. Ainda de calças curtas, Elvécio foi conhecer os estúdios de uma emissora e ficou “enlouquecido”.
 
Finalmente, a oportunidade. Aos 13 anos, de volta a Belo Horizonte com o pai, comerciante, Elvécio foi até a Rádio Inconfidência – “O gigante do ar!” – para batalhar uma chance. “Vicente Prates precisava de um radioator juvenil. Seixas Costa fez um ensaio comigo, me ensinou algumas inflexões, gostaram da minha voz e fui contratado”, conta. Desde então, não parou mais. Aos 18 anos, experiente, Elvécio viu a cidade “ficar pequena” para tanta vontade de trabalhar. De volta ao Rio de Janeiro, mais uma vez, não conseguiu nada que o desafiasse. Na Rádio Mayrink Veiga, esteve ao lado de nomes como Chico Anysio, Paulo Goulart e Nicete Bruno.
 
Entretanto, não se ajustou à realidade carioca. Em 1955, a convite do diretor Fernando Barroca Marinho, da TV Itacolomi, o ator, ainda mais tarimbado como profissional de rádio e TV, retornou à sua terra natal. A história com o Rio de Janeiro ganhou novo capítulo no início dos anos 1960, com a TV Continental.
 
Em 1963, trouxe a família – mulher e filha –, definitivamente, para Belo Horizonte. “Na cara e na coragem, bati na porta da TV Itacolomi e disse ‘voltei’. Não tinha lugar para mim. Ainda assim, me contrataram como assistente do Demerval Costa Lima”, relembra. Os anos seguintes, com o fim do teleteatro, foram de paixão ainda maior pelos palcos. Elvécio não sabe dizer em quantos espetáculos atuou como ator ou diretor.
 
Tomado de entusiasmo ainda maior, fala de Shakespeare, Steinbeck, Tchekhov, Álvaro Apocalypse, Jota D’Ângelo, Nelson Rodrigues, Beckett, Brecht, Harold Pinter, Cunha de Leilaradella, Mauro Alvim e Breno Milagres, entre outros tantos “parceiros” que o marcaram como artista. Destaca o bardo inglês como o “Beethoven do teatro”. Rememora 'Romeu e Julieta', 'Otelo', 'Júlio César', todos textos de Shakespeare, guardados no peito. À peça 'Rei Lear' – também do dramaturgo universal –, refere-se como o sonho que ainda não realizou.

Orgulho e sabedoria
No escritório, os vários troféus rascunham a carreira de sucesso de Elvécio Guimarães. Entre os muitos, um, em particular, reforça o amor do artista pelo rádio. “Este aqui é da Rádio Inconfidência. Pelos 70 anos”, orgulha-se. Nas mãos, um microfone esculpido no palito de fósforo sobre base caprichosa e de bom gosto.
 
No apartamento localizado na parte alta do Bairro São Lucas, chamam a atenção as paredes cobertas por obras assinadas, entre outros, por Helio Faria, Petrônio Bax, Álvaro Apocalypse, Selma Weissmann e Cristiano Rennó. Sobre a mesa, bem próximo à cadeira de leitura, Operação Hurricane – um juiz no olho do furacão, do desembargador José Eduardo Carreira Alvim. De volta à sala de aula, Elvécio critíca os estudantes de teatro sem leitura. “O que mais me irrita em sala de aula é o sujeito sem informação querer ser ator. Não é possível. O ator de verdade é aquele que procura saber de tudo”, garante.
 
A arte e a vida pessoal de Elvécio Guimarães se confundem. O ator faz uso de poesia ou de histórias que o envolveram para falar de particularidades. “Tive as mulheres que quis, na cama que escolhi”, sorri, fazendo graça com Manuel Bandeira, autor de “Vou-me embora pra Passárgada”.
 
Diz ter namorado muito, profundamente, e conta dois casamentos com alegria. “Por elas, tive amor. Todo o meu amor.” Fala com doçura da filha Karen, morta aos 22 anos, em 1982. “Era diabética. Fazia uso de muita insulina. Não suportou a doença”, emociona-se. Das lembranças mais carinhosas, cita a paixão de Karen pelo teatro. “Não queria que ela estudasse teatro. Queria que fosse dentista. Aí, ela me desobedeceu e foi estudar arte com o Otávio Cardoso. Infelizmente, não deu tempo de ela ser atriz”, lamenta. 

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