Inspirado em T2 Trainspotting, EM volta ao dia 23 de março das últimas duas décadas

Assim como o filme, que resgata personagens de 1996 após 20 anos, fizemos uma viagem no tempo através dos acontecimento na cultura da cidade

por Márcia Maria Cruz 05/04/2017 08:00
Auremar de Castro/E.M/D.A.Press - 18/5/07
Há 21 anos, Cia de Dança Deborah Colker apresentava a coreografia Alpinismo em BH (foto: Auremar de Castro/E.M/D.A.Press - 18/5/07)
Vinte anos depois, Mark Renton volta a Edimburgo para reencontrar os amigos Spud, Sick Boy e Begbie com quem viveu momentos eletrizantes nos subúrbios da Escócia. Vivido por Ewan McGregor, Henton integra uma turma de amigos viciados em heroína. Contada no cult Trainspotting – Sem limites em 1996, a saga volta aos cinemas. Com o mesmo diretor e parte do elenco, foi lançado o T2 Trainspotting. Danny Boyle propõe o deslocamento temporal de 20 anos na ficção – 21 na realidade – ao ano de 1996. Naquele ano, a obra causou grande impacto por sua linguagem com cortes rápidos que se aproximava do videoclipe, sequências em fastmotion, pelo uso de uma trilha sonora de peso, incluindo música eletrônica, e ainda pela visão crítica a respeito da cultura britânica. T2 Trainspotting está em cartaz no Cineart do Ponteio Lar Shopping (confira os horários).


O Estado de Minas fez o mesmo deslocamento proposto pelo filme para ver o que mudou no mundo e no Brasil nesse tempo. O marco adotado pela reportagem é o 23 de março, dia em que T2 começou a ser exibido no país. Por meio do acervo da Gerência de Documentação (Gedoc) dos Diários Associados, foram revisitadas matérias desse mesmo dia desde 1996, com foco principalmente na cultura.

Trainspotting trouxe para a narrativa uma espécie de ressaca vivida no período posterior à política de austeridade implementada pela Dama de Ferro, Margareth Thatcher, primeira-ministra do Reino Unido entre 1979 e 1990. O lançamento de T2 também vem num período que se segue a mudança significativa na política britânica, com o processo de desligamento do Reino Unido da União Europeia chamado Brexit.

Danny Boyle tem dito que não houve, por parte dele, a intenção de reeditar o sucesso do primeiro filme, uma adaptação do romance do mesmo nome do romancista e roteirista escocês Irvine Welch, lançado em 1993. O segundo filme se baseia em outra obra do escocês, Pornô (2002). O retorno ao passado pelo diretor não é nostalgia. Ao contrário, torna-se uma divertida possibilidade de perceber como os personagens se transformaram ao longo do tempo e, com isso, sua visão sobre passado. Como era o Brasil daquele ano?

No ano de 1996, chegava ao fim, de maneira trágica, o estrondoso sucesso dos Mamonas Assassinas. Todos os integrantes da banda morreram em um acidente aéreo. Foi naquele ano que Michael Jackson subiu o Morro Dona Marta para gravar o clipe They don’t care about us. Na política, o presidente Fernando Henrique Cardoso assumiu a Presidência depois do governo transitório de Itamar Franco, que assumiu após o impeachment do presidente Fernando Collor. Foi naquele ano que o tesoureiro de Collor, PC Farias, foi assassinado.

Em 23 de março, o EM anunciava a primeira apresentação em Belo Horizonte da Companhia de Dança Deborah Colker. Chegava à capital, enfim, a coreografia Alpinismo (lançada em 1993 como parte do espetáculo Velox), em que os bailarinos-alpinistas testam a gravidade num balé aéreo. No mesmo dia, as artes plásticas se despediam do pintor, desenhista e gravador Wilde Lacerda.

A tecnologia, como nenhuma outra área, mostra que as transformações foram radicais em duas décadas.  Se um adolescente de hoje voltasse a 1996, teria que se contentar em gravar a trilha de Trainspotting numa fita cassete, que poderia ser ouvida no rádio portátil toca-fitas Lougar Walk WM 2N. A boa notícia é que custava apenas R$ 22,90.

Se na viagem no tempo o ponto de desembarque for 23 de março de 1997, no lugar dos avançados jogos de 2017 – com imagens em 3D próximas da realidade, em que os jogadores assumem avatares para uma imersão no ambiente digital –, o que conquistava mentes e corações do jovens era o Super Mario, da Nitendo. Sucesso na TV, a novela Xica da Silva levantava o debate sobre a reconstituição histórica feita pela extinta emissora Manchete. Embora Taís Araújo fosse protagonista, em seu primeiro papel de destaque, a discussão nem passava perto do atual  estágio sobre empoderamento feminino e da questão racial.

Se formos para o mesmo dia em 1998, veríamos que Titanic era uma grande aposta de Hollywood. Ainda não se sabia que ele seria o campeão do Oscar, embora houvesse indícios. Naquele dia, só havia 14 indicações e avaliação dos críticos de que apenas Los Angeles, a cidade proibida poderia vencê-lo. Os brasileiros ainda sonhavam com o reconhecimento de O que é isso companheiro?, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

Uma notícia comemorava a chegada do telefone celular universal. Imagine só. Em 1998, os aparelhos portáteis não funcionavam em outros países que não o de onde o usuário tinha uma conta. Em 23 de março de 1999, o drama da família de Zezé di Camargo ocupava todas as manchetes com o sequestro de Wellington Camargo, irmão dos cantores. O caso foi desfechado com a polícia prendendo os sequestradores.

As manchetes de 23 de março de 2015 e 2016 mostram como a discussão sobre grupos minorizados ganhou visibilidade na esfera pública brasileira. Quem chegasse a Belo Horizonte naquela data teria que saber o que é a palavra queer para entender a mostra de artes cênicas A ocupação: arte viada no centro!, com a proposta de debater além do binarismo homem e mulher e discutir gênero e sexualidade. Em 2016, o debate da vez é a igualdade de gêneros, apresentado pela filósofa Marcia Tiburi.

Assim como T2 faz um flashback sobre a vida dos personagens no filme cult dos anos 1990, a volta ao passado é capaz de apontar referências e mostrar a evolução dos fatos e ideias. A visão histórica tem a capacidade de dimensioná-los e estabelecer diálogos com o presente, assim, mais amplos e mais críticos.

• FLASHBACKS

» 1996
Estreia da companhia de Deborah Colker em Belo Horizonte. Falecimento de Wilde Lacerda.

» 1997
Tradição da encomendação das almas é apresentada em Jaboticatubas.

» 1998
Titanic é o preferido do Oscar com 14 indicações (acabaria levando 11 estatuetas).

» 1999
Os filmes Shakespeare apaixonado e O resgate do soldado Ryan disputam o Oscar.

» 2000
Lançamento de dois livros de Franz Krajcberg denuncia a destruição do meio ambiente.

» 2001
A lua luara, disco produzido por Juarez Moreira, reúne o jazzista filandês Heikki Sarmanto, letras de Fernando Brant e a voz de Cláudya

» 2002
O ator André Mattos faz sucesso com o personagem dom João VI na minissérie O quinto dos infernos.

» 2003
Em edição politizada, Oscar premia obras que tratam da violência, como Gangues de Nova York, de Martin Scorsese

» 2004
Ciranda das esculturas: obras, como a Mulher nua, são mudadas de lugar em BH sem os devidos cuidados

» 2005
Animadores de programas, Raul Gil e Gugu Liberato falam segredos para manter audiência de telespectadores

» 2006
Júlia Lemmertz apresenta peça em Festival de Teatro de Curitiba e anuncia novo filme, Mulheres sexo verdades mentiras (foto)

» 2007
A banda Capital Inicial lança em BH Eu nunca disse adeus, álbum com músicas inéditas

» 2008
Paixão pelo blues. Bandas e fãs em BH e no interior de Minas cultuam o blues

» 2009
Guto Muniz, o mais ativo fotógrafo das artes cênicas de MG, abre ao público na internet parte de seu acervo de mais de 40 mil imagens

» 2010
Religioso holandês Frei Cláudio van Balen lança seu 39º livro: Transbordar, espiritualidade da inserção

» 2011
Animação em 3D, Rio, dirigido por Carlos Saldanha, estreia no Brasil no mês seguinte. Lançamento contou com Anne Hathaway, Jesse Eisenberg, Jame Fox

» 2012
Uma viagem pelo Museu da Liturgia, que reúne acervo de 450 peças pertencentes à Matriz de Santo Antônio

» 2013
Depois de 17 anos longe do Giramundo, Madu Vivacqua criou o Chapeleiro Maluco para As aventuras de Alice no país das maravilhas

» 2014
Obra de Paulo César Pinheiro, autor de mais de 2 mil canções, vai ser tema de documentário.

» 2015
Abertura da mostra A ocupação: arte viada no centro!

» 2016
A filósofa Marcia Tiburi discute os elos entre literatura, política e feminismo

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