Homenageada pela Mostra de Tiradentes, a atriz Leandra Leal estreia como diretora

Artista apresentou o documentário 'Divinas divas' sobre a primeira geração de travestis do Brasil

por Ana Clara Brant 22/01/2017 20:03
Tiradentes – Entre A ostra e o vento (1997), de Walter Lima Jr., em que viveu Marcela, uma menina apaixonada pelo vento, e Bingo – O rei das manhãs, de Daniel Rezende, com estreia prevista para agosto, no qual interpreta Lúcia, a diretora do programa de TV estrelado pelo palhaço, passaram-se 20 anos. A trajetória de Leandra Leal, de 34, no cinema é marcada por grandes personagens e uma feliz coincidência: sua estreia na telona corresponde ao início da Mostra de Cinema de Tiradentes, que a homenageou nessa sua 20ª edição, iniciada na última sexta.
LEO LARA/Universo produções
Leandra assistiu ao seu filme ao lado da mãe, a atriz Ângela Leal e da filha, Julia (foto: LEO LARA/Universo produções)

“Inicialmente, fiquei bem surpresa com esse tributo, porque me acho nova, ainda mais ao lado de uma figura como a Helena Ignez ( atriz, diretora e produtora baiana que é a outra homenageada em 2017). Mas, depois, fiquei pensando nessa coisa de A ostra e o vento ter começado aqui, meu primeiro filme, na primeira Mostra e não deixa de ser uma oportunidade para comemorar os meus 20 anos de cinema aqui. É uma oportunidade que a Mostra está me dando. É um ciclo bonito. Chegar aqui hoje como homenageada e ainda com o filme que marca a minha estreia como diretora é muito bacana”, afirma.

O longa em que Leandra se aventurou pela primeira vez atrás das câmeras é Divinas divas, que celebra a primeira geração de travestis brasileiros, como Rogéria, Jane Di Castro e Eloína dos Leopardos. Não deixa de ser também um mergulho na própria história de Leandra Leal. já que boa parte do documentário foi rodado no Rival, teatro criado por seu avô Américo Leal e que foi o primeiro no Brasil, em 1966, a abrir as portas para shows de artistas travestis.

ABERTURA A produção foi exibida na abertura da 20ª Mostra de Tiradentes, na noite de sexta. “O Divinas me despertou essa vontade. Só eu poderia fazer, não só pela historia e a minha relação com os artistas, mas pela proximidade e intimidade com aquele lugar com o qual eu convivo desde criança. É um filme que fala muito sobre mim, a minha família, o teatro. Mas fala muito sobre o amor, que é um recorte que eu queria fazer. O coração do Divinas divas é a coragem, a possibilidade e a liberdade de você ser quem você é”, afirma.

O processo de produção do documentário levou sete anos. Para a diretora, tê-lo concluído já foi uma vitória. Mas após a exibição em festivais como o do Rio e o Aruanda, em João Pessoa (PB), ela percebeu que o filme emociona o público. “O Divinas tem um nicho, um público que eu já esperava, como simpatizantes e o público LGBT, mas acho que ele tem potencial para atrair novos espectadores. Queria mostrar a complexidade humana e criar uma proximidade com qualquer pessoa”, pontua.

Ela acredita que o longa, que tem estreia comercial prevista para junho, é fruto do seu olhar como atriz e diz que sempre soube que seria uma tarefa complexa e exaustiva dirigir. “É uma diferença brutal em relação a atuar. Você fica ali no centro, dependendo de muita gente. E a relação que você tem com a obra é diferente também. Como atriz, você compra um sonho de alguém, você faz esse sonho seu. Agora, como diretora, esse sonho é seu e você fica convencendo uma série de pessoas a acreditar nele também.”

Além de ter parte de suas filmografias exibidas na Mostra de Tiradentes, que vai até o próximo sábado, Leandra Leal e Helena Ignez participaram de um debate na tarde de sábado a respeito de suas trajetórias, ao lado de cineastas e críticos de cinema. Helena, que estreou no cinema no curta-metragem O pátio (1959), de Glauber Rocha, lembrou das dificuldades e do preconceito que encontrou quando decidiu ser diretora. “Nas décadas de 1960, 1970, praticamente não havia diretoras. A gente estar aqui hoje em Tiradentes falando sobre cinema e homenageando duas mulheres é motivo de festa. Não poderia estar mais feliz em rever a minha história e falar sobre todas essas conquistas”, afirmou.

 *A repórter viajou a convite da Mostra de Tiradentes
 

 

Beto Staino/Universo produções
Leandra Leal e Helena Ignez são as homenageadas desta edição (foto: Beto Staino/Universo produções)
 

CURTAS

PEQUENA ESTRELA

Assim que chegou a Tiradentes, na sexta, Leandra Leal foi logo tirando uma selfie na porta da Matriz de Santo Antônio. Ontem, comprou lembrancinhas em lojas da cidade. Ela está acompanhada da mãe, a atriz Ângela Leal, e da filha Júlia, de 2 anos, sensação da noite de abertura, quando subiu ao palco ao lado da mãe.

SALVE, SIMPATIA
Camila Pitanga, que participa pela primeira vez da Mostra de Tiradentes, causou alvoroço na noite de sábado, quando o filme que dirigiu com Beto Brant, Pitanga, sobre seu pai, o ator Antonio Pitanga, foi exibido no Largo das Forras. Após a sessão, a atriz subiu ao palco para falar sobre o projeto, e uma multidão queria tirar fotos e chegar perto dela. Até grades tiveram que ser colocadas, tamanho o rebuliço. Mas com a sensatez e a simpatia de sempre, Camila pediu: “Vamos tirar as grades. Tenho certeza de que todos aqui vão ter calma, esperar a gente debater o filme e vão se sentar para podermos conversar.”

NEY MATOGROSSO
O cantor Ney Matogrosso chega hoje a Tiradentes, onde participa de uma roda de conversa, ao lado da atriz e cineasta Helena Ignez. O bate-papo tem como proposta promover o encontro entre público e realizadores de cinema, unindo música e poesia. Ney atuou no longa Ralé (2015), dirigido por Helena. Ele interpreta o protagonista Barão, ex-viciado em heroína que decide fundar uma seita ligada aos rituais com ayahuasca, o chá alucinógeno do Santo Daime.

TRÊS PERGUNTAS PARA...

MURILO SALLES, cineasta

Como se sente vendo Leandra Leal, que classifica Nome próprio como um de seus mais importantes filmes, sendo homenageada pela carreira?

Filmamos em 2006; a Leandra tinha 23 anos. Ela que selecionou o Nome próprio para ser exibido aqui nesta edição. Estou em Tiradentes por ela. Tenho um grande orgulho de fazer parte da carreira da Leandra, até porque foi ela quem me escolheu. Foi ela que me procurou e disse que queria muito fazer o Nome próprio. Ela se deu, colocou muito a paixão dela nesse trabalho, e isso me tocou profundamente, me transformou. Devo um amor eterno à Leandra, porque considero esse um dos meus melhores filmes.

Qual a importância de Nome próprio na sua filmografia?
É um filme que me tocou bastante nessa questão do feminino, que é um tema que está sendo discutido nesta Mostra aqui. E me fez pensar com muito cuidado e profundidade nessa questão. Até brinco que hoje me tornei a melhor Camila (personagem interpretada por Leandra Leal no filme). A gente se inspirou na Clara Averbuck (blogueira e escritora), mas fomos mais além. A gente queria fazer um filme de uma pessoa mais comprometida com a escrita. E acho que a Leandra pegou isso e foi minha parceirona no filme. O longa é a minha relação com ela; de uma câmera com um corpo, um personagem.

Leandra estreou na direção em documentários e você já fez alguns muito importantes. Esse gênero tem o espaço que merece?

A gente foi criando uma tradição de olhar para este país complexo, maluco e arrebatador que é o nosso. Hoje em dia, eu só tenho vontade e penso em fazer documentários. Cada vez mais, acho que o real me desafia mais do que a ficção. A ficção eu controlo; o real, não. Eu aprendo, cresço, fazendo documentário. Temos toda uma tradição que foi criada e valorizada com o (Eduardo) Coutinho, por exemplo. No momento, estou trabalhando em dois documentários – um sobre a Baía de Guanabara e outro sobre o pensamento do Brasil.

 

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