Sobra atitude, mas falta conforto nos cinemas de rua de BH

Com programação criativa, salas pecam na infraestrutura. Entrada gratuita é um chamariz para assistir filmes que fogem do comercial

por Mariana Peixoto 21/10/2016 08:35

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Os cinemas Belas Artes, 104, Humberto Mauro e MIS Santa Tereza são bravos resistentes em meio aos multiplex que dominam o cenário de Belo Horizonte. Na próxima semana, vão ganhar um companheiro: o Cine-Theatro Brasil Vallourec abrirá a sua sala, que vai funcionar eventualmente.

Enquanto o Belas Artes é a única sala comercial, o 104 é um espaço mais alternativo. O quase histórico Humberto Mauro, do governo estadual, fica dentro do maior complexo cultural da cidade, o Palácio das Artes. Caçula da turma e inaugurado há seis meses, o MIS Santa Tereza pertencente à prefeitura, mostra que cinema de bairro pode ser viável ainda hoje.

Conforme a reportagem comprovou, eles têm outros pontos em comum. Todos estão em regiões centrais e acessíveis ao bolso (quando não são gratuitos). Mas há alguns poréns. Há salas que precisam – para ontem – de reforma. O Belas Artes é o caso mais urgente.

Mesmo com exibições no sistema mais atualizado (o chamado DCP), o espectador pode sofrer no quesito conforto. As salas têm poltronas medianas, com pouca inclinação. Há o que melhorar, os responsáveis pelas salas sabem disso. O (bom) cinema agradece.
Leandro Couri/EM/D.A Press
Cine Belas Artes tem projeto de expansão (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

>> Cinemas Belas Artes
Rua Gonçalves Dias, 1.581, Lourdes,
(31) 3273-3229
Fundação: Agosto de 1992
Três salas: 1 (138 lugares); 2 (123 lugares);
3 (76 lugares) Tem café e livraria
Ingressos: Segunda, terça e quinta: R$ 18 e R$ 9 (meia); quarta: R$ 16 e R$ 8 (meia); sexta a
domingo e feriado: R$ 22 e R$ 11 (meia). Meia para estudantes, maiores de 60, assinantes do Estado de Minas (de segunda a sexta, exceto
feriado). Vendas na bilheteria e pelo site  www.ingresso.com. Aos sábados, às 11h,
sessão gratuita para professores (escolanocinema.com.br)

Vinte e quatro anos depois de sua inauguração, o Cine Belas Artes mantém a proposta inicial. É um cinema comercial, mas busca passar ao largo – quase sempre – das programações que dominam os multiplex.

Por um lado, isso é muito bom: programação diversa, com filmes de nicho, e produções tanto de nomes consagrados quanto de novatos. Também tem localização nobre, ao lado da Praça da Liberdade e de todos os prédios e instituições que formam o Circuito Cultural, além de contar com bons café e livraria.

Porém, quase um quarto de século depois de sua inauguração, o Belas Artes, enquanto estrutura, é basicamente o mesmo. Sim, houve reformas ao longo desses anos – a mais recente delas há dois, quando foi trocado o sistema de projeção: hoje totalmente digitalizado, com o chamado DCP (Digital Cinema Package).

No entanto... As poltronas já viveram dias melhores. Há pouquíssima inclinação entre elas. E o ar-condicionado fica longe de ser exemplo de bom funcionamento. Atual proprietário da casa, Adhemar Oliveira, exibidor e distribuidor responsável por 114 salas em nove estados, admite: o Belas Artes necessita de uma reforma urgente.

Quando assumiu o cinema, em janeiro de 2014, ele já chegou com a intenção de fazer uma grande reforma. A revitalização incluiria – nas três salas – a troca das telas, das poltronas, do revestimento e da iluminação. A mudança ainda abarcaria a digitalização do cinema (os ingressos teriam lugar marcado), além de novos banheiros e programação visual.

Há um projeto ainda mais ousado de ampliação do Belas. A casa ao lado do cinema já foi alugada por Oliveira. “Serão mais duas salas. Assim, teríamos, em vez de 300 lugares, 500”, prevê. A conta é que é o complicado. Pelo orçamento previsto, seriam R$ 300 mil para reformar as salas já existentes, mais R$ 300 mil para o banheiro e o saguão e outros R$ 3 milhões para a parte nova.

“Hoje, estamos sobrevivendo apertados, garantindo ocupação, mas está difícil. Quando entrei aqui, já tinha tudo planejado, com o desenho. Aprovei o projeto (da reforma), estou costurando umas conversas... Mas sei que tenho que ter paciência de cão, esperar a economia engrenar novamente. Estou pagando para ver, literalmente, pois houve até uma oferta para abrir um restaurante (na casa ao lado). Não abro mão do meu projeto”, conclui Oliveira.

Rodrigo Clemente/EM/D.APress
Pufes do Cine 104 (foto: Rodrigo Clemente/EM/D.APress)
 

>> Cine 104
Praça Ruy Barbosa, 104, Centro, (31) 3222-6457
Fundação: Outubro de 2012Uma sala: 90 lugares
Tem café, biblioteca e espaço multimídia
Ingressos: R$ 12 e R$ 6 (meia). O cinema não abre às segundas-feiras.

Qualquer belo-horizontino conhece o Centro e Quatro. Se não como espaço cultural, pelo menos sua edificação, galpão que integra a paisagem arquitetônica da região da Praça da Estação há mais de um século (foi inaugurado em 1908).

Cento e um anos mais tarde, a antiga fábrica de tecidos deu lugar a um centro cultural com café/restaurante e espaço multimídia. Pode receber de exposições a palestras, shows etc.

Há apenas quatro anos o espaço ganhou uma sala de cinema. Dos cinemas de rua, pode-se dizer que é o mais alternativo. Tem três sessões diárias (não abre às segundas) e busca exibir filmes que tenham “dificuldade de encontrar espaço”, explica o programador Daniel Queiroz. Pelo menos metade é de produção nacional.

O ingresso é comprado no café que fica logo na entrada. A sala, ao fundo, é pequena, mas confortável. Os banheiros estão do lado de fora, em frente. Para muitos frequentadores, o fetiche do Cine 104 são os pufes que ficam na parte da frente, antes da primeira fila de poltronas. Bom para namorar, mas pra ver filme não é exatamente o ideal.

As poltronas (do antigo Ponteio, reformadas) ficam em nove filas. Ainda que a inclinação seja pequena – as quatro primeiras filas estão no mesmo plano –, a visão da tela é boa, colocada bem alta. No ano passado, o 104 foi digitalizado, com a projeção em DCP.

Os lugares são livres e assim ficarão. “Não curtimos lugar marcado”, afirma Queiroz. Como espaço aberto para o cinema autoral, o 104 ainda tem sessões especiais gratuitas. Participa ainda de mostras da cidade. A Mostra Cine BH, que começou ontem, por exemplo, terá sessões na sala.

Rodrigo Clemente/EM/D.APress
MIS Santa Tereza foi inaugurado há seis meses (foto: Rodrigo Clemente/EM/D.APress)
 

>> MIS Santa Tereza
Rua Estrela do Sul, 89, Santa Tereza,
(31) 3277-4699
Fundação: Abril de 2016
Uma sala: 122 lugares
Tem biblioteca e espaço para exposições
Entrada franca (senhas deverão ser retiradas meia hora antes das sessões)

Um pipoqueiro na porta, fachada art decô, uma praça em frente. A sensação, ao entrar no MIS Santa Tereza, é de volta ao passado. Mas ela passa rapidamente. Afinal, ainda que a fachada pertença ao prédio onde funcionou, de 1944 a 1980, um dos vários cinemas de bairro que BH teve no século passado, a sala, inaugurada há seis meses, não tem nada a ver com a original.

É tudo novo: tela e cadeiras (apertadas, de médio conforto). Há a projeção em DCP e agora estão terminando de montar um projetor em 35mm. Pequena, a sala fica na parte de cima do prédio (um elevador dá acesso a cadeirantes; há banheiro tanto na parte de cima quanto na de baixo). Para quem odeia gente comendo no cinema, a boa notícia é que no MIS não se pode levar comida ou bebida para a sala (pipoca, só na entrada mesmo). E, mesmo assim, por ora não há muito o que consumir.

No pequeno foyer, há área já pronta para receber um café. Como o MIS é espaço público, uma licitação (que terminou na terça-feira) foi aberta para a ocupação. Outra iniciativa que deve ficar pronta até o ano que vem é a própria entrada. “Vamos criar um ambiente de convivência, com objetos e móveis que resgatem elementos da arquitetura art decô”, afirma Ana Amélia Lage Martins, gestora do MIS.

Outra questão que deve ser resolvida ainda este mês diz respeito à divulgação da programação. O MIS funciona diariamente (à exceção das segundas-feiras), com média de duas sessões diárias (sempre gratuitas, com distribuição de senhas). A agenda é bastante eclética. Existem a curadoria da própria casa e também iniciativas de terceiros.

O MIS vai receber sessões da Mostra Cine BH, assim como exibiu, no primeiro semestre, a Mostra Varilux. “É ainda um espaço para difusão. Temos realizado muitos lançamentos de produções locais e regionais”, afirma Ana Amélia.

Difícil é saber o que está passando ali. A programação está disponível no site BH faz cultura (bhfacultura.pbh.gov.br), que apresenta todos os espaços municipais da capital. A navegação é “bem complicada”, como afirma a própria Ana Amélia. Existe a página do MIS no Facebook, mas, devido à lei eleitoral, ela foi suspensa em julho (ou seja, voltará em novembro).

Por ora, no próprio cinema, é possível colocar o e-mail num caderno. Daí, a programação mensal será enviada – e funciona, conforme a reportagem comprovou. Ou, então, pode-se pegar a programação em papel disponível na entrada do cinema. É old school, mas a cara do MIS.

Gladyston Rodrigues/EM/D.APress
Cine Humberto Mauro só tem sessões gratuitas (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.APress)
 

>> Cine Humberto Mauro
Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro,
(31) 3236-7400
Fundação: Outubro de 1978
Uma sala: 129 lugares
O Palácio das Artes conta também com café, galerias de arte e teatros
Entrada franca (senhas deverão ser retiradas meia hora antes das sessões)


A criação do Cine Humberto Mauro foi uma resposta à demanda cineclubista, que no final da década de 1970 tinha dificuldades para sobreviver. A sala surgiu também como um espaço onde se poderia refletir sobre a sétima arte. A premissa se mantém, quase 40 anos depois da inauguração. A programação é mais pautada por mostras temáticas do que propriamente pelo que está em cartaz nas outras salas.

Como espaço para exibição, o Humberto Mauro não tem mais a precariedade técnica dos primeiros anos. Na reforma mais recente, em 2012, foi reestruturado o sistema de projeção. Hoje, a sala tem um projetor em DCP, dois de 35mm e um em 16mm. Houve também a troca recente de poltronas – o que não quer dizer que sejam o supra-sumo do conforto.

O problema maior é a mínima inclinação da sala. Dependendo do colega da frente, pode atrapalhar e muito a sessão. O banheiro, que já viu dias melhores, fica do lado de fora.

O gerente Philipe Ratton sabe destes poréns. Mas admite: não há muito a ser feito. “A gente poderia até ter outro tipo de poltrona, mais larga, mas perderia espaço na sala (que já é pequena). Quanto à inclinação, também é uma questão estrutural. Não tem como mexer.”

Para um futuro próximo Ratton afirma que existe a intenção de mudar o sistema de ingressos, que terão lugares marcados. “Estamos estudando a melhor forma de implantar isso, pois gera uma pequena reforma na iluminação para que a numeração esteja visível.”

Com a política de cobrar ingressos apenas para mostras de terceiros, este ano o Humberto Mauro conseguiu exibir 100% de sessões gratuitas. Um alívio em tempos bicudos. Só gera, dependendo da sessão, muita fila (como ocorreu na recente mostra dedicada à obra de Quentin Tarantino, a de maior sucesso em 2016). E a distribuição é democrática. Um ingresso por pessoa.  

 

De volta
Um dos mais conhecidos cinemas de rua de BH, o Cine Brasil volta a funcionar na próxima semana. Originalmente, ele ficava onde hoje está o Grande Teatro do Cine Theatro Brasil Vallourec, que tem capacidade para 1 mil pessoas.

O teatro de câmara, que já abrigou bingo e restaurante popular, tem 200 lugares e recebeu investimento de R$ 400 mil para poder ser utilizado como sala de exibição.

O funcionamento será apenas esporádico. De 26 deste mês a 4 de novembro, serão exibidos filmes que fizeram história na década de 1980. Entre eles estão Scarface, E.T. e a trilogia De volta para o futuro. Ingressos: R$ 10 e R$ 5.

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