Documentário mostra que metade dos filmes em Hollywood era feita por mulheres até os anos 1920

Trabalho dirigido pelas irmãs francesas Clara e Julia Kuperberg tem primeira projeção brasileira marcada para o Festival do Rio, em outubro

por Estado de Minas 25/09/2016 07:58

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Divulgação
Imagem do longa Women who run Hollywood: desigualdade entre salários na indústria do cinema ainda é grande (foto: Divulgação)
A imagem que encerra o documentário Women who run Hollywood (Mulheres que fizeram Hollywood, em tradução livre) é antiga, de uma entrevista dada nos anos 1980 por Sherry Lansing, mas a resposta da executiva americana resume bem os desafios das mulheres na indústria do cinema até hoje. O jornalista, homem, perguntou como Sherry fazia para manter a ternura feminina por um lado e, por outro, agir com a dureza necessária ao cargo que ocupava. Então presidente da Fox, mais tarde presidente da Paramount, naquela ocasião Lansing respondeu: “O problema da sua pergunta é a suposição de que uma mulher não pode ser dura”.

O mais incrível do documentário, dirigido pelas irmãs francesas Clara e Julia Kuperberg, é que esse tipo de pergunta nem sempre foi feita, assim como os caminhos de Hollywood nem sempre foram nublados para as mulheres. Hoje, de acordo com as diretoras, apenas 8% de blockbusters e 20% de filmes independentes feitos nos Estados Unidos são dirigidos por mulheres. O que ninguém se lembra – ou talvez queira que seja lembrado – é que até 1925 simplesmente metade dos filmes eram de responsabilidade feminina.

Exibido neste ano no Festival de Cannes e com sua primeira projeção brasileira marcada para o Festival do Rio, em outubro, Women who run Hollywood explica justamente como e por que as mulheres foram perdendo espaço no cinema ao longo das décadas.

A codiretora Clara Kuperberg conta que ela e a irmã Julia trabalhavam em pesquisa para outro filme quando elas se depararam com a história. “Ficamos estarrecidas porque nunca tínhamos ouvido falar daquelas mulheres pioneiras. Nós estudamos bastante cinema, já dirigimos mais de 30 documentários sobre a Era de Ouro do cinema americano, mas era a primeira vez que ouvíamos os nomes de Frances Marion e Lois Weber, por exemplo”, afirma Clara. Juntas, as diretoras já lançaram documentários como This is Orson Welles e John Ford et Monument Valley.

Frances Marion foi a primeira mulher a ganhar um Oscar de roteiro, por O presídio (1930) – ela repetiu o feito dois anos depois, por O campeão, um bicampeonato que até então nenhum roteirista homem havia conseguido. Lois Weber foi uma das diretoras mais bem-sucedidas dos primórdios de Hollywood, com mais de 130 produções no currículo, entre eles o polêmico Hyprocrites (1915), que mostrou cenas de um então inédito nu frontal feminino. Lois também foi a primeira produtora a ter um estúdio com seu nome.

Pickford

O documentário das irmãs Kuperberg destaca uma série de diretoras, roteiristas, produtoras e atrizes que ajudaram a dar cara a Hollywood. Certamente a mais famosa do grupo, Mary Pickford se juntou, em 1919, a D. W. Griffith, Charlie Chaplin e Douglas Fairbanks, para fundar a United Artists, um dos mais celebrados estúdios de todos os tempos.

Já Mabel Normand dirigiu Chaplin em filmes como Carlitos no hotel (1914) e Carlitos banca o tirano (1914). Anita Loos foi a primeira roteirista, entre homens e mulheres, a figurar na folha de pagamento regular de um estúdio, ainda na década de 1910 – anos mais tarde, ela se tornou conhecidíssima pelo roteiro de Os homens preferem as louras (1953), com Marilyn Monroe.

“Antes de 1925, as mulheres eram mais bem pagas do que os homens”, diz Clara, acrescentando que, hoje, as melhorias só são perceptíveis “graças a atrizes como Jennifer Lawrence e Angelina Jolie, que reclamam quando não recebem salários equivalentes aos dos homens”. “Estamos longe de vencer essa batalha da igualdade, mas ao menos o problema está colocado melhor do que há alguns anos.” (André Miranda/Agência Globo)

 

AFP Photo
Clara e Julia Kuperberg posam para fotos no Festival do Filme Americano de Deauville, na França (foto: AFP Photo)

Desigualdade cresceu quando virou negócio

De acordo com o documentário, a própria formação de Hollywood explica a presença feminina até 1925 e a ausência nas décadas seguintes. Women who run Hollywood mostra que, nos primórdios, o cinema não era levado a sério como negócio. Os homens queriam ser contadores, advogados, engenheiros ou médicos, nunca cineastas. Numa época em que o preconceito de gênero era grande, a falta de competição masculina permitiu, então, que as mulheres tivessem seu espaço nos filmes. O mesmo ocorreu com os imigrantes judeus que chegavam da Europa e, também por preconceito, não eram bem acolhidos em ocupações ditas “sérias”. Assim, Hollywood, naquelas primeiras décadas, foi um negócio de mulheres e judeus.

No fim dos anos 1920, contudo, o desequilíbrio de outras profissões chegou ao cinema. A partir da estreia de O cantor de jazz (1927), o primeiro filme falado da história, os Estados Unidos perceberam que Hollywood poderia ser um mercado extremamente lucrativo, e os olhos masculinos cresceram para cima das vagas até ali ocupadas por mulheres. A coisa piorou com a Crise de 1929, quando aqueles homens que queriam ser contadores, advogados, engenheiros ou médicos foram perdendo seus empregos e tiveram que diversificar. Muitos foram para a Costa Oeste, buscar no cinema uma alternativa.

Lutas


O documentário também traça um panorama das lutas dos anos seguintes. Na década de 1930, por exemplo, Dorothy Azner foi a única mulher de Hollywood a dirigir filmes, como Felicidade de mentira (1937). No início dos anos 1950, as reuniões do Sindicato de Diretores era aberta por um apresentador com a frase “Boa noite, senhores e senhora Lupino”, porque Ida Lupino, de O bígamo (1953), era a única diretora presente.

Das mulheres, Hollywood tinha apenas papéis para atrizes, e ainda assim com salários menores. Assistindo-se a Women who run Hollywood, percebe-se como foi árdua a luta até que Kathryn Bigelow recebesse o primeiro Oscar de direção para uma mulher, em 2010, por Guerra ao terror. “Essa diferença de salários e oportunidades foi mais forte nos Estados Unidos por causa do sistema dos estúdios. Na França nós temos mais mulheres como diretoras, porque nossos filmes têm o tamanho dos filmes independentes americanos. Há mais liberdade e se pode oferecer mais pontos de vista”, afirma Clara. (AM/AG)

 

Divulgação
Mateus Solano posa para o projeto Monólogos de gênero, de Diana Blok (foto: Divulgação)
 

Inversão de papéis

A instalação Monólogos de gênero, em cartaz no Oi Futuro do Rio de Janeiro, tem proposta ousada que aborda as questões do feminino e masculino de maneira a provocar reflexãoe, claro, boas risadas. O trabalho da artista Diana Blok, uruguaia radicada há mais de 40 anos em Amsterdã, antecipa a programação do Tempo Festival, evento de artes cênicas que será realizado de 9 a 18 de outubro.

Diana convidou seis atores para interpretar personagens do sexo oposto, para os quais teriam pouca possibilidade de serem escalados. Além de Solano, integram o trabalho Matheus Nachtergaele, que escolheu viver sua mãe, Maria Cecilia Nachtergaele; Grace Passô, no papel do ativista americano Martin Luther King Jr.; e Dani Barros, como o poeta e dramaturgo francês Antonin Artaud. A obra tem ainda a participação de dois holandeses: o veterano Cas Enklaar e a jovem Abke Haring. Enklaar vive Liuba Andrêievna, personagem de O jardim das cerejeiras, de Tchekhov; Abke, Hamlet, de Shakespeare.

Desigualdade

Diana defende a importância de poder se identificar com o outro gênero e incorporar essa compreensão do outro dentro de nós. “A desigualdade é enorme no trabalho, na política, na vida cotidiana. Na Holanda, essa consciência sobre gênero e igualdade de gênero está mais avançada, mas em lugares como o Brasil a mulher está numa posição ainda muito inferior”, relata.

Na videoinstalação de Diana, os textos que confrontam o visitante com essa questão foram alinhavados por Glauber Coradesqui, dramaturgo e professor de teatro na Universidade de Brasília, a partir do desejo de fala de cada ator. A exceção é o de Nachtergaele, que criou o seu a partir do espetáculo Conscerto do desejo. Como ele, cada um teve uma motivação particular em sua escolha. Grace Passô, por exemplo, faz uma transposição do mítico discurso I have a dream (1963) para uma situação contemporânea de preconceito racial e violência. Já Abke pediu para fazer Hamlet quase como forma de se reconciliar com o personagem.

Solano, depois de pensar em algumas opções, como a bíblica Eva, decidiu-se pela história de Cinderela, jovem martirizada pela madrasta que encontra sua salvação no príncipe encantado. “Fiquei com a Cinderela porque minha relação com o lúdico é forte, e os contos de fadas fazem parte da minha construção”, afirma o ator. “E, dentro dessa pegada de feminismo, a Cinderela é a mulher contra a qual a gente está lutando: a mulher-princesa, à procura de um príncipe que vai transformar a sua vida. Também queria algo que tivesse humor, e busquei um tom ácido para interpretá-la.”

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