Jeferson De filma na Zona da Mata mineira sobre dificuldade de ser negro no Brasil

Longa 'Correndo atrás' será uma comédia, gênero que alcança ''crítica profunda'', diz o diretor

por Mariana Peixoto 15/09/2016 20:03

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Jeferson De filma na Zona da Mata mineira comédia sobre a dificuldade de ser negro no Brasil. (foto: RACCORD/DIVULGAÇÃO)

 

Boa-praça, Ventania é o autêntico ''virador''. Já foi ambulante de sinal, animador de festas infantis. Negro e pobre, faz qualquer negócio para pagar as contas. Um dia resolve virar empresário de futebol. Seu cliente é Glanderson, um jovem igualmente negro e pobre.


Correndo atrás, novo filme do paulista Jeferson De (Bróder e O amuleto), conta essas duas histórias de vida. Ventania é homem feito; Glanderson, a despeito de uma deficiência física (não tem os dedos menores do pé direito), é bom de bola. Quer se tornar o novo Neymar.

Os dois vivem numa comunidade que pode ser a de qualquer grande centro. Mas que acabou se tornando Muriaé, na Zona da Mata. A equipe do filme passou o último mês na cidade mineira. Terminada esta fase (80% do longa será ambientado lá), está atualmente filmando no Rio. Encerra as filmagens no dia 24, em São Paulo.

Correndo atrás é inspirado no livro Vai na bola, Glanderson, do humorista Hélio de La Peña. O casseta assina o roteiro com Jeferson, e também faz uma participação no filme interpretando Berinjela, amigo de infância de Ventania.

''É um filme sobre a dificuldade do homem negro e pobre se situar na sociedade brasileira. Mas ele faz isso com alegria, e foi por isso que topei fazer o filme. Acho que ninguém consegue fazer uma crítica tão profunda como a comédia'', comenta Jeferson, que vê no personagem Ventania uma espécie de Dom Quixote.

ESTEREÓTIPO


Um dos mais ativos realizadores negros da atualidade, ele busca, em seu cinema, eliminar os estereótipos que costumam associar o negro à marginalidade. Em 2000, idealizou o chamado Dogma Feijoada, manifesto que propunha uma produção feita por negros.

Correndo atrás, de acordo com Jeferson, é o seu filme com a maior equipe negra até então. ''É um filme que contempla a palavra diversidade não só na frente, mas sobretudo atrás das câmeras e em lugares-chave. Quanta mulher, quanta gente de pele escura, quanta gente diversa'', afirma.

Ailton Graça vive seu primeiro protagonista no cinema como Ventania. O papel de Glanderson coube a Juan Paiva, que na novela Totalmente demais foi filho de Graça. O elenco ainda conta com Juliana Alves, Lázaro Ramos, Tonico Pereira, Rocco Pitanga, Antônio Pitanga, entre outros. BNegão é o diretor musical do longa.

A comunidade onde os protagonistas vivem não é identificada no filme. ''Correndo atrás é um filme todo de rua. E Muriaé teve uma participação grande. Filmamos na cidade inteira e todos os figurantes, foram 400, eram de lá. Utilizamos também catering (alimentação), motorista, marceneiro. Fizemos uma barbearia (Tonico Pereira é o barbeiro) no local onde havia uma barbearia mesmo'', conta o diretor.

Jeferson comenta que andou tanto pela cidade que conhece ''todas as quebradas, melhor do que os candidatos a prefeito e vereador''.

 

A previsão é de que Correndo atrás chegue aos cinemas no próximo ano. ''O momento (do lançamento) é sempre delicado. Às vezes você prepara com carinho uma estreia e lá vem um blockbuster americano.''

Seja como for, ele acredita que Correndo atrás dialoga com o Brasil de hoje. ''Nunca tivemos tantos jovens negros sendo mortos no país. O caso mais emblemático é o do Amarildo. A gente quis fazer uma comédia para mostrar a dureza de ser um homem negro no Brasil deste momento. E o filme mostra isso com alegria, com a possibilidade de viver a esperança de cada dia'', finaliza.

CHICA DA SILVA

Correndo atrás não é a única produção de Jeferson De a passar por Minas Gerais. O diretor está, há alguns anos, com o projeto de filmar um novo longa sobre Chica da Silva, com produção de Daniel Filho. A narrativa é inspirada no livro Chica da Silva e o contratador de diamantes, da historiadora Júnia Furtado. ''Já temos a primeira versão do roteiro'', conta Jeferson. Mas o filme ainda deve levar alguns anos para sair do papel. Depois de Correndo atrás, o diretor vai filmar Prisioneiro da liberdade, uma parceria de sua produtora, Buda Filmes, com a Paranoid, de Heitor Dhalia.

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