'Estive em Lisboa e lembrei de você' conta rito de passagem de brasileiro que emigra para Portugal

Diretor português radicado no Brasil José Barahona trabalha com elementos cênicos que conectam Cataguases e Portugal

por Carolina Braga 30/06/2016 08:00

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Fênix Filmes/divulgação
O ator Paulo Azevedo interpreta Sérgio, personagem criado pelo escritor Luiz Ruffato que ganha corpo nas telas (foto: Fênix Filmes/divulgação)

O ano de 2016 vai marcar a carreira do escritor Luiz Ruffato como aquele em que seus personagens saíram do domínio das páginas e foram para as telas. O primeiro a fazer a transição é Sérgio. Mineiro de Cataguases, funcionário da empresa de trens, fumante compulsivo, ele é o ingênuo sonhador de Estive em Lisboa e lembrei de você.

A história foi adaptada para o cinema pelo diretor português José Barahona. O ator mineiro Paulo Azevedo é quem tira Sérgio do papel. “Todas as coisas que derivam dos meus livros, considero como leituras. O livro é meu, mas a história é dele, a visão de mundo é dele pelo corpo do Paulo. Foi uma experiência muito interessante”, diz Luiz Ruffato.

Depois de cinco anos vivendo no Brasil, o diretor pegou o livro emprestado com um amigo. Até então Barahona era documentarista. A história do imigrante que foi para Lisboa ficou na cabeça. Cada vez que pensava na obra de Ruffato, lembrava o quanto a experiência dele e de Sérgio se conectavam. “É uma experiência subjetiva que não existe muita diferença do lugar que você emigra”, completa Ruffato. Mudar, seja de cidade ou de país, carrega a sensação de não pertencimento.

Estive em Lisboa e lembrei de você é um rito de passagem, viagem para dentro, estando fora. O filme se divide em duas partes. A rotina do personagem em Cataguases e depois em Lisboa, para onde se mudou com a esperança de poupar euros e garantir vida tranquila à família.

No paralelo entre Cataguases e a capital de Portugal, o diretor trabalha com três elementos cênicos que conectam os dois universos. São referências comuns às duas cidades: o trem, o rio e a ponte. “Foi uma analogia muito feliz porque de alguma forma o Serginho está vivenciando uma transposição”, comenta Ruffato. “São pequenos símbolos visuais que remetem à memória do personagem”, explica o cineasta.

A fotografia serve como elemento para criar o contraste da relação de Sérgio com as duas cidades. Usa cores mais quentes na parte brasileira, e frias, de tons azulados, ao registrar Sérgio no inverno às margens do Tejo. “Foi intencional, não só do ponto de vista estético. É símbolo do choque cultural”, explica o diretor.

A adaptação busca fazer com que o espectador seja confidente das transformações de Sérgio. Abatido pela experiência, na primeira sequência o ator olha para a câmera como se de outro lado houvesse alguém capaz de compreender seus conflitos, suas inseguranças e, por que não, suas coragens.

Estive em Lisboa e lembrei de você se sustenta no trabalho do ator Paulo Azevedo, preciso na criação de cada nuance da vida de Sérgio. Além dele, o elenco é formado por atores profissionais e amadores. A maior parte dos que participaram das filmagens em Portugal vive lá. “Trabalhamos com a questão da imigração e eles buscaram em si próprios as questões pessoais que os levaram a estar ali”, comenta Barahona.

O cineasta reconhece que transgrediu a literatura de Ruffato. “Cinema é um meio completamente diferente. Não subverti. Adaptei. Modifiquei muitas coisas, mas o importante é que o Ruffato reconhece a obra dele ali”. “Não tenho nenhum apego. Gostaria que cada pessoa lesse um livro diferente”, afirma o escritor.
Valerie Macon/AFP
(foto: Valerie Macon/AFP)

Três perguntas para...

Paulo Azevedo
ator

O que o Sérgio tem do Paulo e o que o Paulo emprestou ao Sérgio, além do corpo?

O Sérgio é uma construção: um personagem criado pelo autor (Luiz Ruffato), adaptado pelo realizador (José Barahona) e que agora toma forma pela minha interpretação. Ele não tem nada a ver comigo. Mas, desde o início, apostei naquilo que o movia: a vontade de pertencimento, de ser amado, de construir vínculos o torna um personagem muito cativante e universal. A partir disso, com muito ensaio e trabalho (aprendendo a conduzir moto, fumar, como funciona um restaurante etc), o Sérgio idealizado ganhou forma. E esse é o meu Sérgio, criado a partir da minha experiência e visão de mundo, junto com a equipe de artistas luso-brasileiros.

Como a sua formação teatral auxiliou no processo de criação para o cinema?


Este é o meu segundo protagonista no cinema (o 1º foi em Paixão e virtude, de Ricardo Miranda), depois de atuar em curtas e séries de TV. O teatro educou meu modo de olhar o mundo, perceber a pluralidade de pontos de vista numa situação. Isso acaba sendo uma base forte pra lidar com o ritmo ágil na linguagem audiovisual, em que a paciência é um pressuposto. Atuar sob a direção generosa e inteligente do Barahona, com certeza, foi uma das experiências mais intensas e interessantes da minha carreira.

Como você vê o filme inserido em temas que têm gerado debate na atualidade?


Filmamos em 2013-2014, e agora, deparamos com a triste constatação que temas do filme estão extremamente atuais, como a migração e o êxodo de brasileiros devido às consequências da atual crise ética e política no Brasil. Existe uma mudança de valores muito brusca e o filme aborda isso de forma poética, sem maniqueísmo. É muito interessante acompanhar as exibições do filme em Paris, Lisboa ou São Paulo e ver o quanto ele toca os espectadores e se torna um potente espelho do nosso tempo.

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