Filmes de terror colocam crianças como agentes de atos bárbaros

A partir de comportamentos grotescos e violentos, os pequerruchos espalham o terror nas telas de cinema, em filmes como 'A bruxa' e 'Boa noite, mamãe'

por Ricardo Daehn 10/03/2016 14:11

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Play Arte / Divulgação
Na calada do dia ou da noite, os protagonistas do filme austríaco 'Boa noite, mamãe' não dão descanso à mecânica violência reservada à mãe deles (foto: Play Arte / Divulgação)
Há um momento no filme de terror Boa noite, mamãe, em que dois irmãos gêmeos parecem protagonizar um transe infernal. Não poupam nem a mãe, numa escalada de atrocidades que até justificaria a arcaica expressão de “criança endiabrada”. Selecionado para o Festival de Veneza, o longa austríaco, assinado por Severin Fiala e Veronika Franz testa limites do bom gosto, à medida que os personagens Lukas e Elias investem em agressões pesadas contra a mãe interpretada por Susanne Wuest.

Com uso de máscaras em cena, as crianças parecem ter carta branca para apresentar nova personalidade, depois de, isoladas numa casa de campo, sofrerem bullying materno. Boa noite, mamãe é daqueles filmes de impacto (chegou a ser pré-selecionado para o Oscar), que despertam discussões sobre limites para as crianças — muitas vezes retratadas, sem piedade, nas obras de cinema.

Nascidos no mesmo país do violento cinema de Michael Haneke (A fita branca e Funny games), Lukas e Elias fazem as maiores porcarias infantis: criam besouros agigantados, “velam”, em casa, um gato morto, desafiam limites em sessões de tapas na cara, mas, igualmente, superam expectativas: queimam o rosto da mãe que ainda tem a boca colada por ambos.

Também na linha de construção de personagens com identidades postas à prova, o terror A bruxa se multiplica pelo mundo (a renda já ultrapassou US$ 21 milhões) os US$ 3,5 milhões de investimentos na fita, rodada no Canadá e coproduzida pelo brasileiro Rodrigo Teixeira (de O cheiro do ralo). Um berço vazio, diante do sumiço de um bebê; uma família em frangalhos, que tem entre os integrantes a filha de nome Piedade, e o acúmulo de infortúnios, entre sessões de rezas sobrepostas e lamúrias, são alguns dos elementos da fita de terror em que as crianças são responsabilizadas por desgraças. Quem assina o filme é Robert Eggers, premiado pela melhor direção no Festival de Sundance.

Não é recomendável a exposição de crianças a situações de violência de qualquer ordem. Primeiramente, porque as crianças não conseguem elaborar adequadamente as emoções que sentem ao presenciar situações raras”
Abdon Sardinha, psicólogo

 

 

 

 

Crítica // A bruxa ****

Em cena do novo filme de Robert Eggers, a mãe (interpretada por Kate Dickie), sem a menor cerimônia, dispara para a filha: “Você fede a maldade”. O ápice da hostilidade entre parentes demarca o beco sem saída para o qual caminha A bruxa, fita independente, ambientada no século 17, e que revela uma família ruindo, em meio à floresta, com direito a natureza revoltosa, crianças gêmeas sinistras e um bode preto batizado de Black Phillip.

Com “maldade” no coração, o menino Caleb (o promissor Harvey Scrimshaw), filho dos sofridos agricultores expulsos de vilarejo, terá as crenças consumidas, à medida que acompanha ritualístico destino dos quatro irmãos — um deles, ainda bebê, roubado por uma figura doentia que macera carne humana. Falsas crenças avolumadas e pessoas contorcidas são elementos centrais de A bruxa, que se vale da perplexidade visual e dos sustos bem distribuídos, na edição esperta a cargo de Louise Ford (lembrada por A família Savage).

Com isso, quem cria o climão (que remete ao clássico de Bergman A fonte da donzela) são os atores Ralph Ineson, brilha como o pai desesperado, diante do parco sustento da família, enquanto Anya Taylor-Joy mais do que convence como a vitimizada Thomasin, a filha com carga gigantesca no enredo.

 

 

 

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