Comédia de Jaco van Dormael põe o Todo-Poderoso em apuros

Por obra de Jesus, garota avisa a todos os cidadãos, por e-mail, a data em que vão morrer. Filme ficou fora do Oscar

por Estado de Minas 04/02/2016 07:56

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Imovision/divulgação
O ator belga Benoit Poelvoorde faz o papel de Deus, sujeito irascível cuja autoridade é contestada pelos cristãos (foto: Imovision/divulgação)
Jaco van Dormael admite que ficou triste “uma hora ou duas” quando O Novíssimo Testamento, depois de ter sido pré-selecionado entre os nove finalistas, não ficou entre os cinco filmes que vão disputar o Oscar de língua estrangeira.

“Não se pode ter tudo”, afirmou o cineasta. “O filme já fez mais sucesso que pensava ou imaginava. Aliás, vou morrer sem entender por que certos filmes estouram e outros não. Fiz filmes dos quais gostava muito e que não provocaram tanta sensação.”

O Novíssimo Testamento é ótimo. Van Dormael trabalhava na montagem quando houve o ataque ao jornal Charlie Hebdo, em Paris, no começo do ano passado. Embora seu longa não seja sobre religião, ele afirma, durante a entrevista, por telefone: “Poderia não estar falando com você se, em vez de começar com a fala ‘meu pai é Deus e mora em Bruxelas’, fizesse a garota dizer ‘meu pai é Alá e mora em Teerã’. Já me teriam executado”.

A Igreja Católica da Bélgica não só foi tolerante como elogiou o conteúdo antimaterialista do filme. O Novíssimo Testamento nasceu como uma provocação. “O conceito de Deus não me interessa do ponto de vista religioso, ou teológico. Mas Deus como encarnação de um poder masculino e patriarcal, isso sim, me interessa contestar. A Bíblia é machista”, diz o diretor.

COMPUTADOR Na ficção de O Novíssimo Testamento, Deus (papel de Benoit Poelvoorde) rege o mundo a partir de seu computador, instalado numa sala à qual nem a filha nem a mulher têm acesso. “Conhecemos o filho de Deus, mas a mulher e a filha me pareceram uma novidade muito interessante. A filha é rebelde e a mulher, submissa. A partir daí, começam as dificuldades do Todo-Poderoso”, ele avalia.

A garota (Pili Groyne), que não aguenta mais a autoridade do pai, foge de casa, mas, aconselhada pelo irmão, JC (Jesus Cristo), entra na internet e... cria um pandemônio. O mundo, tal como o conhecemos, entra em colapso, o que obriga Deus a sair de casa e cair no mundo, onde sua autoridade é contestada.

“O humor é a polidez do desespero”, diz Van Dormael. Foi dessa maneira, como um antídoto do desespero, que ele concebeu o tom de seu filme. A filha, a conselho do irmão Jesus, acrescenta seis apóstolos aos 12 conhecidos. Ela os seleciona na internet e parte atrás deles. Um desses novos apóstolos – que escreverão o Novíssimo Testamento do título – é mulher, casada e insatisfeita. Catherine Deneuve faz o papel. Cata um garoto na rua para fazer sexo, mas o prazer e a segurança ela encontra nos braços de um gorila. Van Dormael define seus apóstolos: “Se a felicidade é uma casa, eles vivem na sala de espera”.

EPISÓDIOS O grande achado de O Novíssimo Testamento é a estrutura narrativa em episódios. “Se tivesse adotado a clássica narrativa em três atos, teria de ter personagens e um desfecho mais definido. Queria brincar com tudo e todos”, explicou o diretor.

Brincar significa, no caso, atribuir um papel à mulher de Deus, interpretada por Yolande Moreau. “Acho que um homem pode fazer um filme feminista, e fiz. Yolande vai além da filha e redesenha o mundo à imagem do seu matriarcado. Fica muito melhor”, diz Van Dormael.

Foi difícil convencer Deneuve a fazer o filme? “Ela aderiu com entusiasmo. Catherine não tem medo de nada. Nosso gorila era um boneco dentro do qual havia um acrobata espanhol. Como não falo espanhol, ela se divertia muito dirigindo-o por mim. Seu domínio da língua é herança da parceria com (Luís) Buñuel, com quem fez aqueles grandes filmes (A bela da tarde e Tristana)”, conclui o diretor de O Novíssimo Testamento. (Estadão Conteúdo)

O NOVÍSSIMO TESTAMENTO
(Bélgica/França/Luxemburgo, 2014, 112min). Classificação: 14 anos. Em cartaz no Belas 1, às 19h40. Cópia legendada.

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