Diretor David O. Russell faz de 'Joy' o seu 'Oito e Meio'

Com 20 anos de carreira, críticos dizem que ele é o novo Federico Fellini

por Agência Estado 27/01/2016 11:17

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Hollywire/reprodução
Diretor David O. Russell e a atriz Jennifer Lawrence (foto: Hollywire/reprodução)
Já são mais de 20 anos de carreira - o primeiro longa, A Mão do Desejo, é de 1994 -, mas, quando se referem a David O. Russell, os críticos se concentram na fase que começa com O Vencedor, em 2010. Desde então, e principalmente desde que se associou a Jennifer Lawrence, Russell tem sido outro homem, e outro diretor. Seu desafio tem sido proporcionar papéis cada vez melhores a 'Jen', que virou estrela na série Jogos Vorazes. Ela ganhou o Oscar por O Lado Bom da Vida, foi indicada para melhor atriz por Inverno da Alma e coadjuvante por A Trapaça e, agora, de novo a melhor atriz, por Joy.

Russell adora heróis que vivem histórias conturbadas, em famílias desestruturadas, mas terminam chegando lá, não necessariamente à zona de conforto proporcionada pelo sucesso, tão decisivo na competitiva sociedade norte-americana, mas também. O garoto de A Mão do Desejo masturba-se, o de Procurando Encrenca parte em busca dos pais biológicos, o de O Vencedor consegue ser campeão malgrado o favoritismo da mãe pelo outro irmão. Mais que os demônios internos, os demônios em torno são o tormento dos heróis e heroínas de Russell. Por isso mesmo, seu melhor filme até hoje era Quatro Reis, de 1999, apesar dos problemas que teve com o astro George Clooney.

 

 

 

Era, porque agora o melhor passa a ser Joy, com o sugestivo subtítulo de O Nome do Sucesso. Pronto - não há dúvida de que a personagem de Jennifer Lawrence, que inventa um tipo de esfregão, vai realizar o sonho da avó, a única que confia nela, transformando-se em empresária bem-sucedida. Joy é a Cinderela mais estranha de Hollywood. O pai é seu inferno, mais que a madrasta, e o mais próximo do príncipe que vem salvá-la é o diretor de TV a quem ela precisa convencer que é boa, vendendo o que faz.

O sexo passa ao largo de sua história, mas há muito sexo na família. O pai casa-se de novo (e a madrasta é, sim, uma megera). A mãe, presa ao leito, descobre seu salvador. Joy vive na casa deteriorada e ainda abriga o ex. Nenhum homem vem salvá-la. Ela é quem se salva, apesar deles. Como se conta uma história dessas? Como se conta a de Quatro Reis, sobre um grupo de soldados, heróis improváveis, na Guerra do Iraque? Joy começa com o que parece uma paródia de telenovela, sobre uma heroína sofredora. O príncipe da mãe é um haitiano negro e pobre, mas bom de encanamentos e de cozinha. Joy não tem príncipe. Tem a si mesma, e a confiança da avó.

De tanto ouvir os críticos dos EUA dizerem que ele é o Federico Fellini de Hollywood, Russell terminou por acreditar e fez seu Oito e Meio, centrado não na figura de um diretor, mas na dessa mulher que transforma o espetáculo deplorável de sua vida no sucesso do título brasileiro. Realidade, memória, projeções do inconsciente. Russell desconstrói Joy e seu cenário, a casa, como o estúdio de TV. No final, (re)constrói tudo. Fellini é opcional, se você quiser fazer a ilação. O bom de Joy é seu elenco, e ‘Jen’, Gata Borralheira sem príncipe. Uma aloprada e divertida fábula feminista made in Hollywood.

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