Ator-fetiche Louis Garrel estreia na direção de longas com 'Dois amigos'

Em seu primeiro longa-metragem como diretor, Garrel tematiza os triângulos amorosos e diz que "há um prazer muito grande em fazê-los funcionar no cinema", já que na vida real não dão certo

por Mariana Peixoto 03/12/2015 09:30

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IMOVISION/DIVULGAÇÃO
A atriz iraniana Golshifteh Farahani interpreta Mona, a mulher cujo amor é disputado por dois amigos no filme que estreia hoje. Louis Garrel, o diretor, vive um dos vértices do triângulo (foto: IMOVISION/DIVULGAÇÃO)
Louis Garrel surgiu para o mundo como Theo, jovem francês que divide com a irmã gêmea não só a paixão pelo cinema, mas também o amor. O triângulo formado pelos irmãos e o estudante americano Matthew na França no maio de 1968 fez de Os sonhadores (2003) o filme mais relevante de Bernardo Bertolucci neste século.

O ator retornaria ao tema outras vezes, de outras maneiras. Em Canções de amor (2007), de Christophe Honoré, o triângulo é com duas mulheres. Garrel é o jornalista Ismaël, que se divide entre Julie e Alice. Mais recentemente, houve um triângulo com outros homens. Ele interpretou na cinebiografia Saint Laurent (2014), de Bertrand Bonello, Jacques de Bascher, o grande amor do estilista Karl Lagerfeld por quem Yves Saint Laurent também se apaixonou.

Agora diretor, Garrel veio ao Brasil na última semana para lançar seu longa-metragem de estreia, Dois amigos, que chega hoje aos cinemas. A primeira pergunta, diante de tal histórico, não poderia deixar de ser outra. Por que (mais) um triângulo amoroso?

Garrel, que assume dupla função no filme – também interpreta um dos vértices do triângulo –, tem uma resposta bem simples: “Na vida real, os triângulos amorosos não funcionam. Há um prazer muito grande em fazê-los funcionar no cinema, já que permitem muita dramaticidade”.

Na história, criada em parceria com Honoré (que já o dirigiu em seis longas), o trio é formado por Mona (Golshifteh Farahani), Clément (Vincent Macaigne) e Abel (Garrel). Ela é atendente de um café na estação Gare du Nord, em Paris. Ator que vive de fazer figurações, Clément se apaixona por Mona no espaço de poucos dias. Não consegue entender por que a garota não pode ficar com ele. Pede ajuda ao amigo Abel, um escritor que paga as contas como frentista. Avisa de cara que Abel não deve mexer com Mona. Não precisa somar dois e dois para saber que o inevitável vai acontecer.

“Tantos diretores já trabalharam esse tema. O que eu queria era fazer um filme leve, com uma pitada de aventura, tanto que tomei como referência Uma mulher é uma mulher (1961) de Jean-Luc Godard, que também tem dois homens e uma mulher”, acrescenta Garrel.

Fe Pinheiro/Divulgação
Louis Garrel posa para fotografia em Cannes, onde apresentou seu primeiro longa como diretor, em maio deste ano (foto: Fe Pinheiro/Divulgação)
Exercício


A produção nasceu do curta La règle de trois (A regra de três, 2011), que tinha os mesmos atores. Filme despretensioso, representou para Garrel mais um exercício de como ele poderia trabalhar em duas frentes: dirigindo e atuando.

Acostumado a trabalhar com aqueles que lhe são próximos, convidou para a empreitada o amigo Macaigne e a namorada da época, Golshifteh Farahani. A atriz iraniana é um nome conhecido do mercado mainstream – participou do épico Êxodo: Deuses e reis (2014), de Ridley Scott. Depois de muita tensão com o país natal, há dois anos posou nua para o Le Figaro como forma de protesto. Banida do Irã, vive hoje na França.

 

Enfant (nada) terrible

Aos 32 anos, Garrel é o ator de sua geração mais celebrado na França. Carrega aquele je ne sais quoi digno de poucos. Seus papéis no cinema, de uma maneira geral, giram em torno de bon vivants que tentam se curar de um amor entrando de cabeça em outro. Ainda que tenha sido Os sonhadores sua carta de apresentação, a estreia na tela grande foi bem anterior ao longa de Bertolucci.

Tinha não mais do que seis anos quando encarou o cinema, numa estreia em que vida e arte se misturavam. Filho do cineasta Philippe Garrel e da atriz Brigitte Sy (seu avô paterno foi o ator Maurice Garrel), participou de Beijos de emergência (1989), filme dirigido pelo pai em que o próprio interpretava um cineasta em crise com a mulher (Brigitte) durante a produção de seu novo longa-metragem.

“Meu pai gosta dos atores”, responde Garrel quando perguntado sobre a opinião de Garrel pai a respeito de Dois amigos. “Quando você está começando, pode se tornar muito prolixo na maneira como conta a sua história. E a grande qualidade do meu pai como cineasta é a simplicidade. Ele veio até mim e disse para não ter medo de ser simples. Mas também deixou claro que esse é o jeito dele de fazer cinema”, acrescenta.

Seja como for, foi uma produção de Garrel pai que deu a Garrel filho o prêmio (até então) mais importante de sua carreira. Louis Garrel levou em 2006 o César (equivalente francês do Oscar) de melhor ator revelação por Amantes constantes. Na história, ambientada na efervescente Paris de 1968, ele interpreta um poeta apaixonado por uma escultora que sofre tanto com o fracasso da revolução quanto com o da própria relação. “Como cineasta, meu pai é como um pintor. Eu sou um ator em primeiro lugar, sei que não sou um pintor como meu pai”, admite.

E ele já tem um novo roteiro em mente, mas a direção vai demorar um pouco para se repetir – os próximos filmes de Garrel são uma adaptação de Nicole Garcia para a novela Mal di pietre, da escritora italiana Milena Agus, e uma participação em Planetarium, de Rebecca Zlotowski, drama com uma boa dose de fantasia estrelado por Natalie Portman.

“Se eu conseguir novamente dirigir e atuar, vai ser fantástico. Mas a verdade é que, para dirigir, você tem que estar por dentro de tudo – desde dinheiro até concepção de roteiro. Durante este longo período, se conseguir ainda atuar, tanto melhor.”

MODA

O cinema e o teatro tiveram que ceder espaço mais recentemente para a moda. Reticente com o universo fashion – “nunca me interessei por roupas” –, Garrel, no ano passado, cedeu aos apelos de Valentino. Tornou-se o garoto-propaganda do perfume Valentino Uomo. “Mudei minha opinião quando descobri que você tem que entender de cada tipo de movimento artístico quando faz filmes. Então você tem que entender também de roupas, além do mais, porque isso interessa aos jovens. Fiquei impressionado quando vi o quanto Pierpaolo Piccioli (diretor-criativo da grife italiana) é perfeccionista.”

Admite que a paixão por moda aumentou quando descobriu o universo de Saint Laurent. Afirma que seu personagem preferido foi Jacques de Bascher que fez para a cinebiografia de Bonello. “Quem é aquele cara? Gosto dele porque nunca o compreendi perfeitamente.” Com seu jeito de sedutor involuntário, acabou estampando uma série de capas de revistas.

Nesta segunda viagem ao Brasil – a primeira foi no ano passado, quando passou férias em Itacaré, Sul da Bahia – Garrel impressionou-se com a “graça dos brasileiros”. Na volta para casa, levou alguns deveres, dicas do amigo Vincent Cassel. “É uma vergonha, mas sei muito pouco do cinema de vocês. Claro que conheço Cidade de Deus, mas não vi Tropa de elite. E Vincent falou comigo como o ator Wagner Moura é ótimo.” Com bastante sotaque, conseguiu se lembrar do título do primeiro longa-metragem de Anita Rocha da Silveira, uma das produções independentes mais festejadas de 2015. “Mate-me por favor, não é? Quero muito ver este filme.”

Também na volta para casa, Garrel vai reencontrar sua França ainda se recuperando dos atentados de novembro. “Todos nós estamos em choque. Nunca vi uma arma na vida, a realidade está chegando para a minha geração como um trovão.” E o que a cultura tem a dizer em tempos tão difíceis? “Temos que manter na cabeça que fazer filmes, espetáculos e discos é coisa importante, ainda que possamos achar algo fútil em épocas como esta. Depois da Segunda Guerra, Rossellini e Jean Renoir fizeram filmes mostrando que o mundo estava cheio de amigos, não inimigos. A cultura tem essa função”, afirma.

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