"Brasil vive tensão entre avanço e retrocesso", diz atriz de 'Olmo e a gaivota'

Olivia Corsini afirma ver no país uma contradição entre "artistas audazes" de um lado, e "uma realidade tão retrógrada" de outro

por Silvana Arantes 17/11/2015 08:00

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PANDORA FILMES/DIVULGAÇÃO
(foto: PANDORA FILMES/DIVULGAÇÃO)
No filme Olmo e a gaivota, em cartaz em Belo Horizonte, as cineastas Petra Costa e Lea Glob conseguiram a pequena façanha de condensar todas as mulheres do mundo em uma só. Ou melhor, em duas, já que, no longa, a atriz Olivia Corsini interpreta a mulher Olivia Corsini no período da gestação de seu primeiro filho.


Os atritos com o marido, a insegurança sobre a própria capacidade de se tornar uma boa mãe, a insatisfação com as restrições que a gravidez impõe ao seu espírito aventureiro, a tendência a rever decisões do passado (como a troca de uma paixão arrebatadora por um amor tranquilo) e projetar situações futuras (o esvanecimento do poder de sedução próprio da juventude) são aspectos com que Olivia lida, em meio às transformações físicas e emocionais da gravidez.

Se nada do que é humano (e particularmente feminino) é estranho à protagonista de Olmo e a gaivota, o filme em si pertence à espécie das avis rara do cinema, que inserem aquilo que o crítico Ismail Xavier classifica como a “astúcia da representação” no campo do documentário, a exemplo do que Eduardo Coutinho fez em Jogo de cena (2007).

Na entrevista a seguir, Olivia Corsini, italiana radicada em Paris, fala sobre o filme e a vida.

Como surgiu o projeto do filme?
(A diretora) Petra (Costa) e eu tínhamos vontade de trabalhar juntas e começamos a falar sobre um projeto. Logo descobri que estava grávida. Petra vem do documentário e tem essa capacidade de trabalhar de maneira côncava e aberta para receber a realidade, o presente. O projeto, que falaria de um dia na vida de uma mulher, se converteu nos nove meses de uma mulher. Não me fiz muitas perguntas sobre as razões, a utilidade e o sentido político que poderia haver num trabalho em torno de uma gravidez. Simplesmente, mergulhei nesta piscina, neste desafio de narrar a mim mesma, de abrir minha memória e meus pensamentos para ela.

Você e seu marido, Serge Nicolaï, aparecem nos créditos como coautores. De que modo elaboraram o roteiro?
Filmamos em dois momentos. O primeiro momento foi uma espécie de coleção de pensamentos, de palavras, de momentos roubados de um modo documental, com as câmeras espalhadas aqui em casa. Eram momentos importantes, como meu primeiro ultrassom.
Quando já tínhamos bastante desse tipo de material, Petra, Lea e a montadora começaram a ver o que era preciso para que aquilo se convertesse num verdadeiro roteiro de cinema,  onde faltava um momento de tensão, o conflito, por exemplo. Aí começamos a parte mais divertida, que é a parte, digamos, de ficção – em que atuamos novamente coisas que haviam ocorrido ou em que criamos situações que nunca existiram ou que aconteceram, mas não daquela forma.

A cena em que seu marido pergunta como foi seu dia e você responde “hoje terminei as orelhas, acho que fiz os cílios e concluí o fígado, o que me consumiu muita energia” provoca reação ruidosa de mulheres na plateia das sessões do filme. Você tinha consciência do impacto que essa frase teria?
Essa fala foi totalmente improvisada. Referia-se ao que eu estava sentindo naquele momento. Provavelmente, as mulheres reagem a ela porque cada mãe sentiu, durante a gravidez, que trabalhava muito sem que ninguém se desse conta do tanto que ela trabalhava.
Graças, entre aspas, ao problema que tive durante a gravidez e que me obrigou a estar em casa (de repouso, por recomendação médica), tive tempo (para se concentrar na gravidez). Hoje, acho que meu filho me impôs esse tempo para que eu me desse conta da importância do que estava ocorrendo. Quando você está presa em casa e parece não estar fazendo nada o dia todo, acaba tendo a consciência de que aquilo que está fazendo é enorme.

A diretora Petra Costa surpreende você com uma pergunta sobre infidelidade. Nesse momento ela avançou um sinal?
Petra sabe de mim muito mais do que se mostra no filme. Quando começamos a trabalhar juntas, falamos sobre a vida, os sonhos, o trabalho, o futuro, o amor, os filhos – falamos de tudo. Esse foi o começo do projeto. Começou de verdade quando nos demos conta de que poderíamos conversar como duas velhas amigas. Durante todo o processo não me fiz perguntas, não me censurei quase nunca, acho. Eu tinha confiança de que, se houvesse algo que não me agradasse, eu teria o direito de tirar do filme. Essa pergunta me surpreende na hora, porque tenho uma câmera ali, em cima de mim. Mas, na verdade, a gente está pouco ligando. Aquilo de que falamos nessa hora é maior e mais profundo.
Serge e eu nos conhecemos há 13 anos. Estamos juntos há 12. Vivemos muitas coisas, como todos os casais. Numa vida de amor, pode haver tempestades. Mas se os barcos forem benfeitos, eles podem atravessar as tempestades e acalmá-las. Essa pergunta não foi um grande problema, e ela não cruzou nenhuma fronteira.

Em algum outro ponto das filmagens a diretora tentou cruzar uma fronteira que você não estava disposta a permitir?
Sim, quando me pediu para assistir e gravar o parto. O parto é totalmente real e é algo que eu queria viver completamente, na minha intimidade, com meu marido e meu filho. Sei que no Brasil muitas mulheres gravam seus partos, mas não são atrizes. Tenho outra relação com a câmera. Nós, atores, quando temos uma câmera por perto, atuamos. Suponho que durante o parto eu não teria atuado, mas é um momento de real intimidade, que tive que proteger.

Você soube das reações agressivas de ativistas antiaborto ao discurso feminista de Petra Costa no Festival do Rio, ao receber o prêmio de melhor documentário segundo o júri popular?
Soube e me parece incrível como o Brasil está tão cheio de contradições. Aí há artistas tão audazes e, ao mesmo tempo, uma realidade tão retrógrada. Vivo na Europa desde que nasci. Passei sete meses morando entre o Brasil e a Argentina.Cheguei a achar que essa era uma parte do mundo na qual gostaria de viver. Mas a questão da liberdade me fez pensar que poderia ir aí de vez em quando, porque adoro esse lugar, mas nunca poderia viver aí, porque aí não há liberdade. O país está preso a um moralismo católico e fascista e a uma política corrupta. É um país que não conheço muito, mas que conheço mais que outros. A questão da liberdade é muito forte neste momento, em que há um embate entre quem luta pela ampliação dos direitos e quem nega o avanço. Há repressão de um lado e, de outro, gritos poderosos e audazes de liberdade.

Se o que conseguimos (com o filme) é tão forte politicamente, é porque as diretoras e eu pudemos trabalhar de maneira livre. Fui criada por uma mulher que lutou por sua liberdade a vida toda. (As cineastas) Petra Costa e Lea Glob também. Tentar dizer o que queremos, do modo mais próximo ao que somos, apesar de todas as tentativas de condicionamento do mundo que nos cerca, é um ato político cotidiano”

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