'Jobs', cinebiografia do criador da Apple tem estreia nacional nesta sexta-feira

O filme apresenta retrato crítico do homem que mudou a história da tecnologia contemporânea

por Carolina Braga 06/09/2013 07:40

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PlayArte/Divulgação
Mesmo com o nome contestado a princípio, Ashton Kutcher interpreta um polêmico Steve Jobs no filme de Joshua Michael Stern (foto: PlayArte/Divulgação)
No corredor apertado, a câmera acompanha os passos desajeitados do senhor de calça jeans e blusa preta de gola alta. O mundo sabe que esse era o figurino preferido por Steve Jobs para apresentar seus feitos. Lá estava ele, em 2001, diante dos flashes. O discurso sobre estilo de vida na ponta da língua e, no bolso, o primeiro aparelho de uma leva que surgiria para transformar a rotina de muita gente. Era o iPod. “Quando você toca o coração de alguém, isso não tem limites”, pronunciou.

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É com a frase carregada de significados que começa 'Jobs', a primeira cinebiografia do fundador da Apple, que morreu em outubro de 2011. O filme protagonizado por Ashton Kutcher estreia hoje nos cinemas brasileiros com vocação para dividir a plateia. Eis um personagem capaz de encantar e desencantar quase na mesma proporção.

Mesmo para quem conhece a biografia de Steve Jobs, é inevitável entrar na sala de cinema com a expectativa de descobrir o que está por trás na vida de um dos personagens mais importantes da história da tecnologia. Afinal, concentrando-se somente nos feitos da empresa criada por ele, a Apple, a curiosidade é mesmo grande em saber mais sobre a mente de onde saíram invenções como o iPod, iPhone, iPad. “Coisinhas” que marcaram um novo estilo de vida nos anos 2000.


Mas 'Jobs', o longa dirigido por Joshua Michael Stern, não chega perto disso. Desde que o projeto foi anunciado, sabia-se que se tratava de filme sobre a juventude de Steve. A resistência em cursar uma faculdade, as aulas de caligrafia, o primeiro jogo desenvolvido para a Atari. Ainda que superficialmente, está tudo lá. As dificuldades de relacionamento também.

O grande dilema do roteiro escrito pelo estreante Matt Whiteley é que ele não define que caminho seguir. De um lado está posto o mito. Do outro, o sujeito de temperamento difícil e ética duvidosa. Ao mesmo tempo em que 'Jobs' repassa a história do homem que protagonizou mudanças tecnológicas significativas, escancara – inclusive com certo julgamento – o comportamento controverso de Steve Jobs.

Nada aparece romantizado na tela. Steve Jobs não tem insights brilhantes, aparece muito mais como um provocador do que realizador, sem falar das constantes grosserias e humilhações por que faz passar seus funcionários e parceiros. O filme apresenta um Steve Jobs mais marqueteiro, performático, do que gênio do Vale do Silício.

O mito endeusado, em 'Jobs', era vingativo, egoísta e dono de outras características que condizem mais com os vilões no cinema. A indefinição do longa também aparece nesse ponto. Ao mesmo tempo em que não alivia no retrato que produz do personagem, a cada conquista ele é apresentado com trilha sonora pomposa. É como se legendasse: “Olha como ele era sensacional”.

A escolha de Ashton Kutcher para viver o papel-título também gerou bafafá. O tipo físico do ator passa longe das características franzinas de Steve Jobs. Kutcher se apoiou no jeito de falar do biografado, com a boca mais fechada, e também recriando seus gestos e maneira de caminhar. Nesse ponto até exagerou, ficando próximo da caricatura. No elenco de apoio destacam-se Josh Gad, como Steve Wozniak, que era quem de fato colocava a mão na massa para realizar os projetos que Jobs vendia.

Applemaníacos na expectativa

Não há dúvidas de que o os applemaníacos estão ávidos por conhecer mais sobre a juventude do homem que mudou a história da tecnologia. “O Steve Jobs é um cara que modernizou nossa TI (tecnologia da informação). Um grande empreendedor que passou por todas as crises do mercado e hoje realiza sonhos. Se a gente fosse analisar a maluquice do Steve Jobs, há 20 anos ninguém imaginaria que poderíamos estar tão ativamente conectados”, avalia Leonardo Speziali, presidente-executivo da Sociedade de Usuários de Informática e Telecomunicações em Minas Gerais (Sucesu).

O sujeito realizador de sonhos realmente aparece no filme, em cartaz em 11 salas de Belo Horizonte. A trama, no entanto, não gira em torno disso. 'Jobs' acompanha a trajetória de Steve desde a faculdade, passando pela criação do Apple I, II, a consolidação da empresa como projeto mais dedicado à personalidade de seu criador do que aos feitos tecnológicos propriamente ditos.

Apesar de consolidada na mente de quem vive dos inventos de Jobs, a imagem de herói passa longe da telona. “A gente esquece de uma coisa: antes de mais nada somos seres humanos. O Garrincha não era um gênio? Ele tinha problemas demais. Steve Jobs era um gênio? Era, e também tinha características e posturas de um ser humano comum”, ameniza o presidente da Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação de Minas Gerais (Assespro-MG), Geovann Teles. “Steve tinha uma vida conturbada, um gênio difícil, arrogância exacerbada. É ser humano”, defende.

Mesmo assim, para Geovane, foi uma figura que não passaria despercebida em qualquer lugar que estivesse. Pela personalidade, pelos valores, pela forma de trabalhar e se relacionar. “Ácido demais, mas com uma percepção de criatividade e inovação. Só mesmo um cara fora do normal, muito fora da curva, faria o que ele fez”, continua Teles. A questão é que 'Jobs', o filme, não chega a desprezar o que ele fez, mas prioriza quem ele era. “Era um perfeccionista. Era endeusado, tinha uma aura. Parecia muito mais simpático do que era na verdade”, resume o consultor de tecnologia Erik de Britto.


A Rede Social

Sobre a criação e disputa em torno do Facebook. Bom roteiro de Aaron Sorkin e direção precisa de David Fincher valorizam a trama. A ganância costumeira no mundo da tecnologia é exposta sem julgamentos. O longa foi o indicado ao Oscar de melhor filme e foi ganhador nas categorias de roteiro, edição e trilha sonora.

Os Estagiários

Embora não seja exatamente sobre a criação do Google, a comédia brinca com o estilo de vida adotado na empresa, considerada uma das mais criativas e liberais do setor. Ainda em cartaz em BH, a trama tem como protagonistas dois quarentões que decidem se candidatar a uma vaga de estagiário na empresa.

Confira o trailer de 'Jobs':

Outro lado

Ao ressaltar o aspecto humano de um dos criadores da Apple, o filme de Joshua Michal Stern ofusca o brilho de Steve Jobs no campo profissional. A reação não demorou: vem nova cinebiografia por aí. Aaron Sorkin, o mesmo roteirista de 'A rede social', foi contratado pela Sony Pictures para escrever outro roteiro, desta vez baseado no livro de Walter Isaacson (lançado no Brasil pela Companhia das Letras). O biógrafo fez mais de 40 entrevistas com o fundador da Apple, além de ter conversado com familiares, amigos e competidores. Não há previsão de início da produção nem foi adiantado o nome do ator que vai estrelar o filme.

 

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