Por que só 12% do dinheiro de investimento vai para empresas de mulheres?

Enquanto elas enfrentam mais recusa de crédito e ganham menos, especialistas apontam um caminho possível: profissionalizar a gestão do negócio

Você sabia que os maiores fundos de venture capital do Brasil investem só 12% dos seus recursos em startups lideradas por mulheres? O dado da plataforma Startups ajuda a explicar por que as mulheres ainda têm tanta dificuldade de crescimento no mercado, mesmo que empreendam cada vez mais.

Outros dados comprovam esse cenário. Os pedidos de 42% das empreendedoras são negados no crédito tradicional. Já o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) indica que elas ganham 24% menos do que os homens, impactando o reinvestimento no próprio negócio.

Poucas mulheres chegam ao topo

O reflexo desse cenário aparece nos cargos de comando. O Panorama Mulheres 2025, elaborado pela Talenses com o Insper, evidencia que somente 17,4% das empresas pesquisadas são presididas por mulheres. O número comprova que fundar um negócio é uma etapa, mas atingir o topo com relevância econômica é completamente diferente, e o capital tem uma relação direta com essa conquista (ou a falta dela).

Mas por que isso acontece?

A resposta passa por vieses já reconhecidos pelo mercado. Mas a forma como bancos e investidores avaliam o risco é outro fator relevante, ainda que pouco discutido. As instituições financeiras olham para previsibilidade de receita, organização financeira, processos bem definidos e o quanto o negócio depende só da fundadora para funcionar.

O problema é que todos esses aspectos levam tempo para estruturar, e as empreendedoras não têm margem para isso. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) afirma que as mulheres dedicam 21,3 horas por semana a afazeres domésticos e cuidados, contra 11,7 horas dos homens. O resultado é que há menos tempo estratégico, o que faz o negócio estar menos estruturado na análise de crédito, e essa situação é encarada como um risco, sem importar o nível de competência da empreendedora.

Esse ciclo é difícil de quebrar, porque consiste em menos capital, que gera menos estrutura, aumenta o risco percebido, e leva a menos capital de novo. Mas a saída desse cenário é a gestão do negócio, algo que está nas mãos da empreendedora.

A aposta da Work In

É aí que entra a Work In, empresa fundada pela empresária Anndrêa Franco com o intuito de formar a próxima geração de mulheres CEOs do Brasil. A companhia utiliza a inteligência artificial como infraestrutura de gestão, não só como ferramenta de conteúdo. Portanto, serve para documentar processos, organizar as finanças, estruturar o funil de vendas e apoiar decisões com dados. É exatamente esses pontos que bancos e investidores olham na avaliação de risco.

“O que se nega, na maioria das vezes, não é a empreendedora. É a ausência de estrutura que traduza o negócio em números. Quando a gestão vira dado, quando existe previsibilidade, processo e histórico organizado, a conversa com banco e investidor muda de patamar”, explica Andreza Costa, partnership da Work In e cofundadora do Movimento Elas no Comando.

Como funciona na prática

Aplicado em imersões online gratuitas, programas presenciais, formações e treinamentos in company, o método começa com uma reorganização estratégica para tirar o negócio da dependência total da fundadora, dar previsibilidade para a área comercial e transformar rotina informal em processo documentado. Todas essas etapas são aceleradas pela inteligência artificial, sem aumento de time ou investimento na mesma proporção.

“Não se trata de pedir que as mulheres provem mais do que já provam. Trata-se de construir empresas que os números consigam enxergar. Estrutura de gestão não é vaidade, é condição de acesso a capital e de poder econômico”, diz a fundadora.

O que isso pode mudar

O mercado pode fazer uma leitura dupla desse contexto. No curto prazo, a gestão profissionalizada pode melhorar as condições de crédito e investimento para negócios liderados por mulheres, mesmo que ainda sejam deixados em segundo plano, atualmente. No médio prazo, pode diminuir a distância entre a base, onde as mulheres já empreendem em peso, e o topo, local em que elas ainda são minoria. No fim das contas, se o problema também é de estrutura, a solução exige mais do que promessa, é preciso investir em gestão que dá para medir de verdade.