Existem cidades brasileiras que carregam um fenômeno geológico raro dentro do próprio território. Na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, a menos de duas horas da capital, um município reúne a maior lagoa hipersalina do mundo, uma orla com réplicas de obras de Oscar Niemeyer e salinas centenárias associadas a lagoas com águas rosadas. Também virou destino oficial do kitesurf fluminense há apenas dois anos.
Como uma cidade da Região dos Lagos virou a Capital do Kitesurf do Rio de Janeiro?
Araruama fica no coração da Região dos Lagos, a cerca de 100 km do Rio de Janeiro. A cidade tem pouco mais de 135 mil habitantes e é a segunda mais populosa da região. O grande diferencial fica por conta dos ventos constantes de nordeste, que sopram sobre a laguna e formam uma arena natural para esportes náuticos.
Segundo o portal oficial da Prefeitura Municipal de Araruama, a cidade recebeu em novembro de 2024 o título oficial de Capital do Kitesurf do Estado do Rio de Janeiro, sancionado pela Lei Estadual nº 10.567. O reconhecimento formalizou o que já era realidade nas margens da laguna. Em setembro de 2025, o Desafio Brasileiro de Kitesurf reuniu 120 atletas de todo o país na Pontinha do Outeiro, considerado o principal ponto do esporte na cidade, com águas rasas e vento previsível.

Por que a Lagoa de Araruama é a maior hipersalina do mundo?
A Lagoa de Araruama é, tecnicamente, uma laguna. Diferentemente de uma lagoa isolada, ela se conecta ao mar pelo Canal do Itajuru, em Cabo Frio. Ocupa 200 km² de espelho d’água e banha seis municípios: Araruama, Iguaba Grande, São Pedro da Aldeia, Saquarema, Cabo Frio e Arraial do Cabo.
A alta salinidade tem explicação no clima semiárido, raro no litoral fluminense. A evaporação anual supera a precipitação, com chuvas entre 750 e 900 mm por ano. Dois rios permanentes abastecem a laguna, mas não compensam o que o sol e o vento retiram da superfície. O resultado é uma salinidade média de 52 gramas por litro, cerca de uma vez e meia acima da média do oceano, conforme dados do Geoparque Costões e Lagunas do Rio de Janeiro. Os tons azulados e esverdeados variam conforme a luz do dia. Um processo de recuperação ambiental devolveu vida à laguna, e os cavalos-marinhos voltaram a se reproduzir nas áreas mais preservadas.

O que ver na Orla Oscar Niemeyer com 10 km de calçadão?
A Orla Oscar Niemeyer é o principal cartão-postal urbano. Tem 10.827 metros de calçadão, o que a torna a segunda maior orla urbanizada do estado do Rio de Janeiro. Ao longo do percurso, oito réplicas de obras do arquiteto se distribuem em pontos estratégicos para a contemplação.
O nome não é apenas uma homenagem. Oscar Niemeyer tinha casa de veraneio no bairro Coqueiral, o que aproxima o arquiteto da história da cidade. A orla inclui ciclovia, quadras de vôlei de praia, quiosques, aparelhos de ginástica e decks para observação da laguna. O trecho da Praia dos Amores é um dos preferidos para o pôr do sol, com deck sobre a água e vista aberta do horizonte. O calçadão se conecta a bairros como Praia do Hospício, Praia do Náutico e Praia da Pontinha, cada uma com estrutura própria de bares e restaurantes à beira-lagoa.
Como as salinas de Praia Seca preservam uma tradição centenária?
A extração de sal é parte fundamental da história local. O brasão oficial da cidade, criado em 1859, traz um moinho de vento e um monte de sal como símbolos centrais, o que revela a importância da atividade no imaginário e na economia. A extração se dava principalmente em salinas artesanais, alimentadas pela evaporação natural das lagoas costeiras.
Na Restinga de Massambaba, entre a laguna e o oceano, ficam as chamadas Salinas de Praia Seca. Estão associadas às lagoas hipersalinas Vermelha, Pitanguinha e Pernambuca. A paisagem inclui moinhos de vento, capelas e armazéns de sal antigos. Hoje, a Salina Carvalho é uma das poucas em atividade, e a mineração de conchas na laguna foi suspensa nas décadas de 1990 e 2000 para preservação do ecossistema. A Lagoa Vermelha ganhou fama pelas águas de tonalidade rosada, causadas por microrganismos que vivem em ambiente extremamente salgado.
Que atrações históricas complementam o roteiro?
Além da laguna e da orla, o município conserva patrimônios que ampliam a experiência do visitante. Confira abaixo os destaques:
- Museu Arqueológico de Araruama: fundado em abril de 2006, funciona na sede da Fazenda Aurora, prédio neoclássico de 1862 tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC).
- Sítios arqueológicos: cerca de 20 áreas catalogadas no município, testemunhos das populações pré-coloniais que habitaram a região.
- Praia da Pontinha do Outeiro: banco de areia que avança lagoa adentro, principal palco do Desafio Brasileiro de Kitesurf.
- Lagoa Vermelha: laguna interna com águas rosadas e salinas em funcionamento.
- Restinga de Massambaba: importante ecossistema costeiro com trilhas guiadas.
- Praia Seca: bairro tradicional com casarões antigos, moinhos e armazéns de sal.
- Mirantes da orla: pontos elevados para observação da laguna e do pôr do sol.
Este vídeo do canal Vidas por aí, com 24 mil visualizações, apresenta um guia surpreendente sobre Araruama (Rio de Janeiro), revelando belezas naturais, praias de lagoa e ótimas opções de lazer na Região dos Lagos.
Como é o clima em Araruama?
A cidade tem clima semiárido raro para o litoral fluminense, com pouca chuva o ano inteiro. Confira abaixo as médias por estação:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Araruama?
A cidade fica a cerca de 100 km do Rio de Janeiro, com acesso principal pela Via Lagos (RJ-124). O trajeto de carro leva em média uma hora e meia partindo da capital fluminense, com pedágios ao longo do caminho. Também é possível chegar por Niterói ou São Gonçalo pela BR-101.
O Aeroporto Internacional Tom Jobim, no Rio de Janeiro, é o mais próximo com voos regulares das principais capitais brasileiras. O Aeroporto Internacional de Cabo Frio, a 30 km, também atende quem chega diretamente à Região dos Lagos. Linhas regulares de ônibus intermunicipais partem do Rio de Janeiro. A cidade permite roteiros combinados com Cabo Frio, Arraial do Cabo, Búzios e São Pedro da Aldeia.
Uma cidade onde a maior laguna hipersalina do mundo dividiu o mesmo endereço com Oscar Niemeyer
Poucos endereços do Brasil conseguem juntar em pouco espaço a maior laguna hipersalina do planeta, um calçadão de 10 km com réplicas de um dos maiores arquitetos do país, salinas centenárias que ainda produzem sal como no século XIX e o título oficial de Capital do Kitesurf por lei estadual. A combinação faz de Araruama um destino sensorial e completo na Região dos Lagos, com camadas que atravessam da geologia pré-histórica ao ritmo contemporâneo dos esportes náuticos.

