Metamorfose cultural promove o renascimento do Mercado Novo de BH

Uma transformação silenciosa tomou conta do antigo prédio no Centro de BH. Após décadas de abandono em seus andares superiores, o mercado atrai empreendimentos gastronômicos e propõe uma revitalização do local

por Carlos Altman 19/07/2019 10:50
 
 Marcos Vieira/EM
Mercado Novo se renova com novos empreendimentos (foto: Marcos Vieira/EM)
Na semana passada, uma cena parou o trânsito na Avenida Olegário Maciel, em frente ao prédio de cobogós de cerâmica no Centro de Belo Horizonte. No local, acontecia de forma lúdica o casamento de Selma Zenilda Maria de Jesus, de 42 anos, e João Ramalho de Souza, de 38. O casal de moradores de rua foi abençoado em uma cerimônia comovente, que teve como convidados os comerciantes e os moradores da região. Com vestidinho branco, Lilica, a cachorrinha dos noivos, foi a dama de honra do casamento. Selma e João não poderiam ter escolhido local melhor: eles disseram o 'sim' diante do Mercado Novo, que após décadas de abandono renasce como templo da gastronomia e cultura na capital, que a cada ano ganha destaque nacional pela reocupação de espaços esquecidos. 
Jair Amaral/EM
casamento de Selma e João em frente ao novo "templo" do entretenimento de BhH (foto: Jair Amaral/EM)

Construído na década de 1960 como complemento do Mercado Municipal de BH, o chamado Mercado Novo nunca foi de fato inaugurado. Naquele ano, a construtora faliu e a obra não chegou a ser concluída. Quem entra pela rampa do estacionamento, depara-se com uma arquitetura em forma de caixote, com uma iluminação precária e, ao mesmo tempo, impressionante. O estilo modernista confere uma sensação de estar em cenário do filme Asas do desejo, de Wim Wenders. Em determinadas horas do dia, a luz difusa, ao entrar pelos cobogós de cerâmica, cria uma atmosfera surreal. A sensação é que veremos o embate dos anjos Damiel e Cassiel, personagens icônicos da obra-prima do cineasta alemão, abrindo as suas asas sobre os visitantes do local: uma moçada descolada, low profile, apaixonada pelos ambientes alternativos espalhados pela capital mineira.
 
Durante muito tempo, o local não conseguiu se firmar nos andares superiores como ponto comercial na cidade. Ficou conhecido como Mercado das Gráficas, que ocupavam nos dois primeiros andares mais de 65 estabelecimentos do tipo. Nas últimas décadas, cerca de 300 negócios estabeleceram-se no Mercado Novo, como lojas de embalagens, de uniformes e consertos de roupas. Além de sebos, barbearia e lanchonetes. Mas, o que pouca gente sabe, no térreo funciona uma mini Ceasa. Esse centro de abastecimento abre suas portas já na madrugada, por volta das 2h. No local, um vaivém de vendedores e compradores de verduras, frutas e legumes circula entre as bancas. E chegando próximo ao horário do almoço, o Mercado Novo ferve por conta dos preços baixos encontrados nos restaurantes do local.

Guinada cultural 

 

Alexandre Guzanshe/EM
Mercado das Borboletas foi o grande responsável pela guinada cultural no local (foto: Alexandre Guzanshe/EM)

Em 2010, foi inaugurado no terceiro piso do local o Mercado das Borboletas. Misto de boate e centro cultural, espaço artístico ganhou força na cena underground da capital mineira por virar point de uma galera jovem e alternativa. Desde então, a lagarta saiu do casulo e registrou a metamorfose dos espaços superiores, fadados ao esquecimento no Centro de BH. A área de 9 mil metros quadrados nunca teve finalidade alguma e se encontrava abandonada desde que o inacabado prédio fora erguido, em 1962. Poeira, descaso e entulho sempre tomaram conta do local. “Foram 50 anos parados no tempo. Aqui era um prédio marginalizado. Poucos empresários desejavam montar aqui o seu negócio. Eu sempre vi o Mercado Novo como um diamante a ser lapidado. Então decidi correr em busca de parcerias, de gente que pudesse ter ideias novas para ocupar os espaços ociosos, ganhar dinheiro e trazer publico. Agora, a revitalização do segundo e do terceiro piso promete levar vida ao ambiente e abrir espaço para manifestações artísticas, gastronômicas e sociais para o local”, relata o superintendente do Mercado Novo, Gabriel Filho. 

O carro-chefe do novo Mercado Novo é a formatação de uma incubadora de artes e negócios sustentáveis. “A intenção é aproveitar as 309 lojas desativadas e o hall do 3º andar para a instalação de galpões temáticos, áreas de apoio à produção artística e espaços para impulsionar a inserção de empresas ligadas à cultura no mercado. Um verdadeiro celeiro de ideias. “A proposta é criar um espaço de coworking, dentro do conceito de economia criativa, que pode ser desde um estúdio fotográfico, um ateliê de cerâmica, uma central colaborativa para fomentar negócios. Sem deixar de lado a proposta de conexão com a sustentabilidade e a arte. Cultura e gastronomia estarão sempre em mente. Vamos incrementar no local a realização de eventos artísticos, como shows, festas, feiras e peças de tetro”, finaliza Gabriel. 

Revitalizado, mas sem perder a identidade, os grafites, as esculturas e as intervenções que chegaram à área abandonada de longe pretendem mudar as características naturais do prédio. Novos empreendimentos ocupam os espaços, sem interferir no aspecto rústico e simples do Mercado Novo. Tudo foi mantido a fim de preservar o cenário original, mantendo até mesmo as frestas na construção pelas quais a luz solar entra e deixa o ambiente ainda mais lúdico. “O ser humano precisa sentir o vento, o ar. O excesso de limpeza, o aspecto de shopping center perderá espaço. Ele é muito chato, é muito parecido com um hospital de tão limpinho. Dentro desse ambiente megaclean, climatizado, você nem sabe qual temperatura está fazendo lá fora”, opina Tarcísio Ribeiro Júnior, artista visual e idealizador do Mercado das Borboletas. “Isso leva a uma tensão urbana, que muitas vezes não sabemos o que é, mas trata-se justamente dessa questão: da falta do mato, da terra, que nos faz sentir vivos, humanos, pois, afinal, fazemos parte da natureza”, complementa.
 
Ver galeria . 9 Fotos Mercado Novo, que após décadas de abandono renasce como templo da gastronomia e cultura na capital, que a cada ano ganha destaque nacional pela reocupação de espaços esquecidosMarcos Vieira/EM
Mercado Novo, que após décadas de abandono renasce como templo da gastronomia e cultura na capital, que a cada ano ganha destaque nacional pela reocupação de espaços esquecidos (foto: Marcos Vieira/EM )

 

História 

 

Tal como alguns de seus corredores, a história do Mercado Novo é obscura. O prédio foi projetado para ser um dos mais modernos da América Latina. Em parceria com a iniciativa privada, foi erguido no terreno onde funcionava uma oficina especializada em trólebus e bondes. Entretanto, não foi totalmente acabado e, depois que a construtora faliu, os comerciantes que investiam no espaço mudaram os rumos para o Mercado Central. A partir daí, sucessivos problemas passaram a fazer parte da vida do lugar, como a presença de intermediários e atravessadores exercendo comércio ilegal e concorrência desonesta, conforme descrito no livro Belo Horizonte e Comércio – 100 anos de história, da Fundação João Pinheiro.
 
Contatos e informações: 3212 -6607 

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