1001 LUGARES PRA SE VIVER: Basílica de São Basílio

Labaredas listradas, quadriculadas, onduladas, formando losangos elevam-se em 10 cúpulas orientais, coroadas por cruzes ortodoxas ao extremo sul da Praça Vermelha, cartão-postal da capital da Rússia

por Bertha Maakaroun 10/05/2018 18:00

Bertha Maakaroun/EM/D.A Press
Catedral de São Basílio, na Praça Vermelha (foto: Bertha Maakaroun/EM/D.A Press )
 

A alucinação multicolorida se projeta em contraste com o predominante e sóbrio “vermelho” – “krasni”, em russo –, e também com a dourada plantação de domos, que salta do campo interior da fortaleza.

Apesar dos nove séculos de história que encarceram o coração da capital russa às margens do Rio Moscou, a porção ocidental dessa espetacular muralha – que se alonga em suas 18 torres defensivas pelo perímetro de 2.235 metros – é, por um momento, eclipsada. Atenção alguma é capaz de rivalizar com a miragem da Catedral de São Basílio, o Abençoado – atualmente museu denominado Catedral da Intercessão da Virgem Abençoada do Fosso ou Pokrovsky Cathedral.

 

São Basílio é, antes de tudo, um monumento à fusão da cristandade ortodoxa com o poderio militar. Celebra a vitória russa e o Estado multiétnico, multiconfessional e transcontinental que se firma depois da coroação do primeiro czar (César) da Rússia, em 1547. Foi construída entre 1555 e 1561, por ordem de Ivan 4, conhecido como o Temível – para alguns o Terrível – para marcar a conquista do canato de Kazan (1552). A essa vitória seguiu-se a tomada dos canatos de Astracã e da Sibéria. Antigos integrantes das Hordas de Ouro, desde o século 13, mantiveram domínio sobre a Rússia de Kiev. Com o fim do jugo tártaro-mongol, o território russo dobrara em extensão e se unificara em torno de Moscou.

 

É sofisticada a simetria do icônico monumento que guarda, em sua concepção original, oito igrejas, com respectivas cúpulas em capacete, que circundam e abraçam a nona e principal igreja, da Intercessão da Virgem Abençoada do Fosso. Dedicado a São Basílio (1460-1552), um décimo santuário foi acrescido à obra em 1588, e, desde então, todo o conjunto se popularizou como Catedral de São Basílio. Em 1672, uma décima primeira igreja foi anexada, para abrigar o santuário em memória de Ivan, o Abençoado, ali sepultado em 1589.

 

A impressionante presença da Catedral de São Basílio na Praça Vermelha vem acompanhada da lenda de sua construção: os dois arquitetos russos – Barma e Postnik – teriam sido cegados por Ivan, para evitar que concebessem algo ainda mais espetacular. Mas, como muitas lendas, essa não se fundamenta historicamente, já que Postnik Yakovlev assinou várias obras depois da conclusão da Catedral de São Basílio, entre elas, as Muralhas do Kremlin e a Catedral da Anunciação, ambas de Kazan, além do traçado da Ilha de Sviyazhsk.

 

Para além do domínio russo sobre as Hordas de Ouro, São Basílio ainda guarda outras referências históricas à longa, dolorosa e dramática consolidação do Estado Russo. Não por acaso, diante da catedral-monumento – que, de longe, remete à ideia de uma labareda –, foi fincada a escultura, concluída em 1818, que celebra o príncipe Dmitry Pozharsky e o comerciante de carne Kuzna Minin, ambos associados à ascensão da Dinastia Romanov (1613-1917), depois da coroação de Michael I. A Rússia vivia o chamado Tempo de Dificuldades. Moscou encontrava-se sob o domínio polonês, em meio a uma profunda crise política pela sucessão do trono russo – agravada pela interferência e guerras movidas pela Comunidade Polaco-

Lituana, nas quais também se envolvera a Suécia.

Patrocinado pela liga de comerciantes de Velik Novgorod, com recursos coletados e geridos pelo açougueiro da cidade Kuzma Minin, o príncipe Dmitry Pozharsky foi convidado a comandar um exército de voluntários russos. Depois de 19 meses de cerco russo ao Kremlin ocupado, um historiador relata o drama dos poloneses invasores: “Primeiro eles comeram grama e lixo, depois comeram uns aos outros e os sobreviventes finalmente se entregaram”. O Kremlin de Moscou foi recuperado em 6 de novembro de 1612 e, no dia seguinte, a guarnição que batia em retirada foi massacrada pelas forças russas. Moscou fôra retomada.

 

Das simbólicas chamas que se desenham nesses domos de São Basílico, a Rússia cultua a memória da resistência.

 

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