Acompanhe a saga de um viajante que tem pânico de avião ao visitar as belezas do Pantanal brasileiro

O ilustrador do Estado de Minas Marcelo Lélis recebeu um convite inesperado: visitar o resort Malai Manso, na Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso. A ideia de conhecer um lugar tão famoso aguçou sua criatividade. Na edição de hoje do Turismo ele conta a aventura que foi conhecer a região, em um depoimento divertido através de seus desenhos marcantes

por Marcelo Lélis 24/04/2018 07:12

Marcelo Lélis
O resort Malai Manso ficava a cerca de 120 quilômetros de Cuiabá (foto: Marcelo Lélis)
 

Um misto de ânimo e desespero tomou conta de mim. Realmente, não sou lá muito afeito a viagens. Tudo conspira contra. É como se meu corpo dissesse “sim” para a viagem e minha mente fizesse o impossível para sabotar essa ideia. Ela produz sintomas: o estômago dói, o intestino prende ou solta. Ou solta e prende. O ouvido entope e fatalmente contraio alguma virose. É um sufoco. Mas, mesmo com todas as macacoas, luto ferozmente contra essa vontade quase insuportável de ficar aonde estou. Rastejo até o aeroporto de Confins na hora marcada para o voo. Nunca fui ao Centro-Oeste. Nem pesquisei quantas horas duraria a viagem. Meus dias no mês da viagem foram tão atribulados que embarquei quase que mecanicamente. Pronto, me ajeitei na poltrona, descobri que iriamos primeiro para Brasília. Ah, seria legal.

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Brasília vista do avião (foto: Marcelo Lélis)

Há tempos não desço lá. Nos aproximando da capital, fiquei impressionado com o lago Paranoá. Das vezes que sobrevoei Brasília, normalmente à noite, não conseguia observar em detalhes os entornos da capital. Do avião, a planície parecia uma rua calçada (ilustração) de cidade histórica com suas irregularidades e suas lajotas. E o lago mais parecia com poças d’água acumuladas depois de uma chuva de verão. Para ajudar na visão, no horário em que sobrevoamos, por volta das 8h30, havia uma névoa que deixava tudo mais lúdico. Uma imagem que guardarei por muito tempo.


Mas, voltando à realidade, quando de fato sobrevoamos a cidade, fiquei meio triste. Fiquei pensando como de um só lugar, de algumas poucas quadras, pode estar selado o futuro de uma nação tão grande como o Brasil.

 

Pantanal deslumbrante

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Píeres do Malai Manso (foto: Marcelo Lélis)

De como a nossa vida é impactada tão fortemente pelas decisões que são tomadas nesse lugar. No saguão, à espera da conexão para Cuiabá, me impressionou o movimento do aeroporto de Brasília. Lembra muito uma rodoviária, dado o número de pessoas indo e vindo, se atropelando nas lanchonetes lotadas. Peguei a conexão e desembarquei em Cuiabá por volta do meio-dia. Um hálito quente soprou na minha cara quando pisei no primeiro degrau da escada, saindo do avião. Lembrei-me de Montes Claros. Não sabia que a capital do Mato Grosso era tão quente. No aeroporto, já havia um motorista do resort à minha espera. O Resort ficava a cerca de 120 quilômetros da capital de Cuiabá. A viagem até lá foi um pulo.

 

Chegando, fiquei surpreso. O Malai Manso é bem completo. Suas instalações são impecáveis e a disposição de chalés em toda a sua área externa dá ao local um charme extra. O prédio principal, onde estão localizados os quartos, o restaurante e áreas de lazer, é muito bem cuidado, com funcionários atentos aos mínimos detalhes. Impressiona a sua estrutura para convenções, com um grande auditório muito bem equipado com projetores, iluminação e mobiliário de primeira linha. Conta também com estacionamento para 400 carros, heliponto, aeródromo homologado com pista asfaltada de 1.200m (para jatos executivos e pequenas aeronaves) e marina com píeres. Após circular por toda a área externa acompanhado por dois guias que nos recepcionaram, fomos almoçar. A cozinha é um capítulo à parte: saboreei um pintado, peixe típico do Pantanal acompanhado de farofa de banana, que também faz parte do cardápio tradicional da região. 

 

Pintura na Chapada

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Encontro dos três biomas: Amazônia, cerrado e pantanal (foto: Marcelo Lélis)
 

Pesquisando um pouco e conversando com o guia Cássio Araújo, que o resort contratou para nos acompanhar nas visitas aos locais turísticos da região, descobri que o Malai está às margens do Lago do Manso e que suas terras estão inseridas em três grandes biomas brasileiros: Amazônia, cerrado e pantanal. Além do turismo, Mato Grosso hoje é considerado o maior polo do agronegócio da América Latina, além de ser maior produtor brasileiro de soja, com produção de cerca de 30,514 milhões de toneladas de grãos e área plantada de 9,323 milhões de hectares, com incríveis médias de produtividade de 3.273 kg/ha.

No dia, seguinte partimos para os locais turísticos. O guia Cássio traçou o roteiro: saímos do resort às 7h30, passamos por Água Fria, distrito da cidade de Chapada dos Guimarães. O lugar se desenvolveu em torno de um garimpo de diamantes, por volta de 1925. 

 

Lá, conheci o seu Salvador, um morador local, nascido e criado na região. Como os garimpos foram desativados na região pelo governo, ele passou a trabalhar como guia. Recebe turistas do mundo inteiro e oferece pacotes que duram cerca de quatro horas, cobrando determinado valor para demonstrar o funcionamento de um garimpo, além de preparar e oferecer comida típica da região. Outro atrativo que seu Salvador oferece com um sorriso de canto da boca, é um gole de sua famosa garrafada. Segundo ele, levanta até defunto. Experimentei e o gosto é de doer. Filhos ele tem aos montes. “Alguns oficias e outros tantos, extraoficiais”, brinca ele 

 

 

Cascatas de prazer

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Cachoeira Véu da Noiva (foto: Marcelo Lélis)
 

Saímos de lá e seguimos para a cidade de Chapada dos Guimarães, que já foi considerada o maior município do mundo. No passado, seu território tinha cerca de 269 mil km². Com seu desmembramento, surgiram os municípios de Alta Floresta, Colíder, Sinop, Nova Brasilândia, Paranatinga, entre outros. Lá, conhecemos a Cachoeira Véu da Noiva, uma das mais famosas e belas da região. Cartão-postal da região, a cachoeira é formada pelo Rio Coxipó e tem incríveis 86 metros de queda livre.

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Cachoeira dos namorados (foto: Marcelo Lélis)
 

Saindo de lá, pegamos a trilha das cachoeiras Cachoeirinha e dos Namorados, que são as mais visitadas devido à facilidade de acesso. Meio-dia, hora do almoço. Cássio nos apresentou Morro dos Ventos, restaurante de comida regional no local mais bonito da região, com um deque panorâmico onde pudemos contemplar toda a Chapada dos Guimarães a 200 metros de altura. O prato, carro-chefe da cozinha, é galinhada. Mas há outros pedidos, como costelinha de porco, marizabel (arroz carreteiro), farofa de banana, mojica de pintado, costelinha do pacu e outros pratos regionais da culinária mato-grossense. Outra curiosidade que o Cássio nos explicou é que a região da Chapada é um divisor de águas. As nascentes do Norte levam as águas para região do Araguaia através do Rio das Mortes. As nascentes do Sul canalizam as águas para a Bacia Platina através do Rio Coxipó, um dos afluentes do Rio Cuiabá. 

 

Biodiversidade

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Flutuação (foto: Marcelo Lélis)
 

No segundo dia fomos à Vila Bom Jardim, distrito de Nobres, localizado há 150 quilômetros de Cuiabá. A região é belíssima, com águas cristalinas. Lá, o guia escolheu o Aquário Encantado, um dos principais atrativos da região. Fizemos a “flutuação”, que consiste em descer o rio munido de snorkel, máscara, pés de pato e colete. Incrível a paisagem que contemplamos sob as águas. Consegue-se ver, com muita clareza, o fundo do rio nos mínimos detalhes com suas cavernas, peixes e vegetação. Só que eu, quando desci o rio, quem olhasse de longe pensaria facilmente que se tratava de um graveto que flutuava sobre as águas.


Bem, mas a flutuação, que é um pacote vendido por agências da região, inicia-se no Rio Salobra com aproximadamente 800 metros de descida. O rio tem águas cristalinas em meio a mata nativa. Dá para observar várias nascentes que se proliferam no leito do rio, cardumes dos mais variados e uma infinidade de espécies de macacos. O Aquário Encantado, de acordo com o nome, proporciona ao visitante a sensação de realmente estar dentro de um aquário, já que é uma piscina natural e tem cerca de 6 metros de profundidade. As águas têm tom azulado devido ao calcário e magnésio presentes na água.

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Rica biodiversidade da flora e da fauna na região do Pantanal (foto: Marcelo Lélis)

Fauna Sobre as espécies de peixes que lá encontramos, ele me disse que temos os principais peixes da Bacia do Prata (mais de 252 espécies), com destaques para o pacu, pintado, cachara, dourado (este está protegido por lei e não pode ser pescado), piaús, piraputanga e as famosas piranhas. Das mais de 11.000 (onze mil) espécie de vegetação existentes no cerrado, as que ele mais destacou foram o ipê-amarelo (conhecido popularmente como para-tudo), lixeiras, jacarandás, baba-timão, sucupiras, pequizeiros, cajuí (cajuzinho-do-cerrado), araticum-grande (pinha-do-cerrado) e as bromélias, como o abacaxi-do-cerrado. Sobre as frutas, no período chuvoso é mais comum encontrá-las. Destaque para a mangaba, o murici, o marolo, a fruta-de-veado, o araticum e o pequi. Sobre este último fruto, fiquei intrigado. Lá no Mato Grosso, os pequizeiros começam a frutificar muito jovens, diferentemente dos pequizeiros de Minas, que levam até 8 anos para começarem a produzir seus frutos.


Despedi-me do guia Cássio Araújo, um cara excepcional, profundo conhecedor da região, que não mediu esforços em me informar sobre tudo em pormenores. Despedi-me também do Malai, que realmente é um resort que merece uma visita. Passei dias muito agradáveis por lá e um dia quem sabe, visito-o novamente. Bem, mas a volta no avião foi uma aventura. Ao meu lado se sentou um passageiro que, digamos, precisaria de dois lugares para acomodá-lo. O rapaz estava bem ansioso e a cada investida dele à cata de revistas ou regulagem do ar no teto eu sofria com cotoveladas. Acho que esse imbróglio durou, sei lá, uns 20, 30 minutos. Mas, eis que surge a aeromoça com um cardápio. Nossa! pensei. Será minha salvação. Esse caboclo vai comer o ‘sanduba’ e cair no sono. Aí a sessão de cotoveladas finalmente cessará. Que nada. O cara era muito ansioso. Mal acabou de comer, já começou a procurar algo para distraí-lo. Bom, então fomos nos acotovelando até pousar em Confins.

*O ilustrador viajou a convite do resort Malai Manso