1001 LUGARES PRA SE VIVER - Conheça Vladimir, no Anel de Ouro na Rússia

Coração e pulso da cidade de Vladimir, essa bela catedral, quase três séculos depois de sua fundação, inspiraria, em 1475, o traçado de sua homônima no Kremlin de Moscou

por Bertha Maakaroun 16/04/2018 13:00
Bertha Maakaroun/EM
Catedral da Dormição traduz a opulência que um dia se fez em Vladimir (foto: Bertha Maakaroun/EM)

Debruçados sobre o Rio Kyazma, os cinco capacetes dourados da Catedral da Dormição coroam a edificação de pedras brancas e dominam um horizonte de curvas e florestas. Erigidos em 1158, guardam à sua frente a longa e também alva torre do sino, de 1810, uma combinação de estilos russo, gótico e neoclássico. Coração e pulso da cidade de Vladimir, essa bela catedral, quase três séculos depois de sua fundação, inspiraria, em 1475, o traçado de sua homônima no Kremlin de Moscou.


Testemunha da formação do principado – berço do Estado russo –, a Catedral da Dormição seria, por quase 400 anos, a maior em tamanho e em referência do cristianismo ortodoxo. Além de sede para “O último julgamento” (1408), afrescos daquele que é considerado o maior pintor russo de ícones e murais, Andrei Rublyov, nela repousa o príncipe Andrey Bogolyubsky (1157-1175), conhecido como André, o Pio. Sob o comando dele, Vladimir viveu o auge de seu esplendor, sobretudo a partir de 1169, quando conquistou Kiev e para ali transferiu a capital do principado.


Se a Catedral da Dormição traduz a opulência que um dia se fez em Vladimir – que com Kiev competiu em beleza, nela inclusive se espelhando no batismo de vários rios e afluentes que irrigam a região –, a poucos metros dali, também margeando o rio, a Igreja de São Demétrio foi edificada entre 1193 e 1197 pelo príncipe Vsevolod III (1154-1212), irmão de Andrey Bogoliusbsky, para o seu uso pessoal. Singela, ela guarda a grandeza da escultura na pedra branca, que recobre integralmente as paredes externas e os frisos sob os domos.


Centro cosmopolita das artes naquele início do século 12, muito da influência absorvida em Vladimir das igrejas armênias, dos Bálcãs e da cultura bizantina se expressa na escultura sobre a pedra dessa igreja de São Demétrio. Num tempo em que o poder e o território eram tomados e mantidos pela força militar, igrejas e palácios eram símbolos da autoridade do príncipe. Não à toa, a própria imagem de Vsevolod III está ali esculpida e associada às figuras bíblicas, líderes militares, heróis e também reis da Antiguidade.
Assim como a Catedral da Dormição, também a Igreja de São Demétrio e um conjunto de edificações, como o Portal de Ouro – exemplo de estrutura fortificada da Idade Média, sobre o qual foi elevada a tradicional igreja –, integram, entre outros, como a Igreja da Intercessão, no Rio Neri, a lista do patrimônio da humanidade da Unesco sob a denominação de “Monumentos Brancos de Vladimir e Suzdal”.


Vladimir sucedeu a Suzdal em importância e esta, por seu turno, foi precedida por Rostov Velik, todas localizadas no entorno de Moscou e integrantes do Anel de Ouro, que cultiva antigas cidades dos tempos em que uma classe nobre de guerreiros vikings e seus descendentes fundaram o primeiro estado eslavo, o Principado de Kiev, no século 9. Povo de cultura originalmente pagã, foi pelas mãos de Vladimir, o Grande (980-1015), que em 988 o cristianismo ortodoxo praticado no Império Bizantino chegou ao berço da Rússia.
A crônica historiográfica, em princípio, atribuiu a fundação da primeira fortaleza em Vladimir ao ano de 1108, pelo príncipe Vladimir Monomackh – pai de Yuri Dolgoruky e avô dos irmãos Andrey Bogoliusbsky e Vsevolod III. Mas, a partir dos anos 90, pesquisadores encontraram no código de Ipatiev menção à presença, nessa região, de Vladimir, o Grande, pai da Rússia ortodoxa, passando, por isso a considerar a data de fundação da cidade em 990.


Tanto Kiev quanto Vladimir seriam destroçados pela invasão mongol, na primeira metade do século 13. Mas embora Vladimir tenha se recuperado da ruína, nunca retomaria a sua antiga glória: foi absorvida por Moscou, de onde partiu a resistência e a reconquista do território, que só se concluiria séculos mais tarde, sob Ivã IV, também chamado o Terrível ou o Temível, que reinou entre 1547 e 1584, ao atacar e tomar Khazan (1552). Reunificou principados, quintuplicando o território, e foi o primeiro governante que se fez coroar sob o título de “czar de toda a Rússia”.

 

 

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