1001 LUGARES PRA SE VIVER - Sergiev Possad

Monastério de Sergiev Possad abrigou o vitorioso Pedro, o Grande é a verdadeira esmeralda no Anel de Ouro

por Bertha Maakaroun 02/04/2018 14:41

Sergey Ashmarin/RussiaTrek
Monastério da Divina Trindade de Sergiev Radonezhsky (foto: Sergey Ashmarin/RussiaTrek)
 

 No coração de Sergiev Posad, pequena cidade do Anel de Ouro nas proximidades de Moscou, capacetes dourados, azuis e verdes desafiam o cerco das muralhas brancas. Pontiagudos, estão coroados por cruzes de três barras, que proclamam ao mundo o comando do Cristo crucificado na fundação do Estado russo, sob a força militar da Igreja Ortodoxa. A mescla de cores, símbolo, nesta ordem, da luz divina, da mãe de Jesus e do Espírito Santo, é, neste Monastério da Divina Trindade de Sergiev Radonezhsky, abraçada por alvos muros de mais de seis metros de altura e quase quatro de espessura. Estes resistiram não apenas ao cerco lituano-polonês, que se estendeu entre setembro de 1608 e janeiro de 1610, mas também no século seguinte abrigaram o vitorioso Pedro, o Grande, envolvido na Grande Guerra do Norte (1700-1721), que elevaria o Império Russo à condição de nova potência europeia.


A vida espiritual pulsa nesse monastério, o mais importante do país, onde vive o patriarca ortodoxo. Foi fundado em 1337, na colina Makovets, em princípio, uma pequena igreja em madeira por Sergiev Radonezhsky (1314-1392), um dos personagens mais venerados da Rússia ortodoxa. Afrescos narram a saga desse monge, que, filho de uma família de mercadores ricos da vizinha cidade de Rostov, tudo abandonou pela vida monástica na floresta, nessa região que, em sua homenagem, se chama Sergiev Posad – em tradução livre, Assentamento de Sergiev.

O estilo de vida de Sergiev atraiu admiradores, entre os quais o príncipe de Moscou Dimitry Donskoy, a quem teria previsto a sua vitória em 1380 na batalha de Kulikov, contra o Exército tártaro-mongol, naquela que constituiu a primeira grande derrota das Hordas de Ouro em território russo.

Conta a lenda que, certa vez, em sonho, Maria teria se anunciado a Sergiev, prometendo-lhe proteção ao monastério por ele fundado, o que explicaria o fato de o Exército de Napoleão nunca ter dele se aproximado; assim como, durante a Segunda Guerra Mundial, não ter sido atingido sob intenso bombardeio. Morto aos 78 anos, foi nomeado santo padroeiro da Rússia.

A história da arquitetura russa religiosa militar entre os séculos 15 e 19 está registrada em mais de 50 edificações desse monastério, listado patrimônio mundial pela Unesco. A começar pela catedral da Sagrada Trindade (1422), uma das mais antigas igrejas da região metropolitana de Moscou. Ela não só acolhe obras iconográficas de Andrei Rublev, maior expoente nessa arte, como também as relíquias de Sergiev, que atraem peregrinos de todo o mundo. Ivan, o Terrível determinou em 1559 a construção da Catedral da Assunção, com os seus cinco domos, nos mesmos moldes daquela fincada no Kremlin da capital russa. E enquanto Pedro, o Grande mandou erigir o único refeitório com a Igreja São Sergiev, coube a Catarina, a Grande marcar a sua presença com a torre do campanário de 88 metros, a mais alta estrutura de seu tempo, que abriga hoje sino de 75 mil toneladas que celebra o nascimento e a morte do padroeiro russo.

A imponente e harmoniosa obra da engenharia religiosa e militar, que integra o complexo do monastério, foi, assim, erigida por muitos czares, o que a torna característica de um período em que a palavra de Deus e as armas se entrelaçaram. Não à toa, ali repousa um único czar russo, que não está sepultado nem no Kremlin nem na Basílica de Pedro e Paulo, em São Petersburgo: Boris Godunov, que reinou entre 1598 e 1605, após cuja morte a Rússia mergulharia num período de profundas “turbulências”, que se só se encerrariam com a coroação, em 1613, de Michael, fundador da dinastia Romanov.

 

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