1001 LUGARES PRA SE VIVER: Kremlin de Suzdal

Poema à arquitetura medieval russa, Suzdal é uma cidade-museu histórica no circuito do Anel de Ouro

por Bertha Maakaroun 02/04/2018 14:00

 

Bertha Maakaroun/EM/D. A Press
A cidadela se fecha sobre os cinco domos azuis e estrelas douradas da Catedral da Natividade da Virgem (foto: Bertha Maakaroun/EM/D. A Press)

 

Numa das preguiçosas curvas do rio Kamenka, as colinas se elevam e resguardam o coração de Suzdal, cidade-museu histórica, a menor delas do circuito do Anel de Ouro, que envolve a capital Moscou. A cidadela se fecha sobre os cinco domos azuis e estrelas douradas da Catedral da Natividade da Virgem, ali, a mais antiga edificação preservada, iniciada no século 13, e que com as suas pedras brancas, está entre as mais emblemáticas da arquitetura russa medieval.

Às margens desse curso, para além do Kremlin, uma paisagem de bosques de bétulas, campos de trigo e tapetes de flores silvestres se constrói e entremeia uma coleção de brilhantes cúpulas. Mimosas e grandes igrejas, coroadas por capacetes orientais, são legado de prósperos mercadores nos séculos 17 e 18, nesta terra em que o cristianismo ortodoxo, aliado das armas e príncipes, fundou o estado russo. Particularmente em Suzdal, as edificações da fé apresentam estatística única sem concorrência: naquele período, foram 40 igrejas para 400 famílias.

O suave correr das águas do Kamenka também revelam-se outras fortalezas. Da muralha de tijolos vermelhos, com doze torres defensivas, elevam-se cúpulas douradas, verdes e cinzas. É o Monastério de Santo Euthymius, fundado no século 14. Guarda um impressionante acervo arquitetônico, integrado pela Igreja da Assunção, a torre do sino e, com os seus sete domos, a Catedral da Transfiguração do Salvador, cenário que, já em 1764, abrigou uma prisão em princípio para heréticos. Durante o período stalinista, ali foram tancafiados oponentes do regime e, na Segunda Guerra Mundial, os prisioneiros da batalha de Stalingrado (1942-1943), entre eles, o marechal Friedrich Paulus. Ele se rendeu em 31 de janeiro de 1943,  mesmo dia em que foi promovido a general de campo por Hitler que esperava, com este ato, levá-lo ao suicídio. Atualmente, Santo Euthymius constitui um complexo transformado em museu, onde silêncio e o coral de monges ecoam pelo jardim interno. Tudo respira nesse monastério, onde se recolhe a tumba do príncipe Dmitry Pozharsky, que comandou o exército russo contra a invasão polonesa-lituana (1611-1612), ajudando a manter a soberania do território que se consolidaria após esse período de instabilidade interrompida pela coração em 1613 do primeiro Romanov,  Michael I.

Das torres defensivas do Monastério de Santo Euthimius, abre-se novo panorama do qual saltam mais capacetes de cúpulas: a nova fortificação tem muralhas brancas, das quais se elevam azuis, douradas, brancas e cinzas sobre as margens do rio. É o Convento da Intercessão, - Monastério Pokrovsky -, fundado em 1364, mas ampliado e enriquecido por czares nos séculos seguintes. Ele se tornaria o principal exílio de esposas reais e de nobres em desgraça. Foi longa a lista de mulheres despachadas ao desterro. A começar por Solomonia Yurievna Saburova, casada com o Grão Príncipe de Moscou Basílio III, coroado em 1502 e morto em 1533. Por alegada infertilidade, Solomonia, que mais tarde ficaria conhecida como Santa Sofia de Suzdal. foi enclausurada  em 1525. Há quem diga que ela teria dado a luz a um filho real, mas simulado o seu enterro para salvá-lo das fraticidas disputas pelo torno. Da nova união de Basílio com Elena Glinsky, nasceria Ivan IV, conhecido como o Terrível – que reinou entre 1547 e 1584. O filho herdeiro repetiu o gesto do pai com a sua quarta esposa, Anna Vasilchikova. A última princesa coroada a viver no monastério, que também abrigou filhas, sobrinhas e parentes de muitos nobres,  foi Eudóxia Lopukhina, mulher de Pedro, o Grande – cujo reinado se estendeu de 1682 a 1721.

Suzdal assim como Rostov Velik – outra joia do Anel de Ouro -  está entre as mais antigas cidades russas: a primeira menção na crônica historiográfica é de 1024. Ruas estreitas e arborizadas, casas e fachadas em madeira, guardam nessa pequena cidade,  o testemunho de como foi a vida tradicional da Rússia rural, também exposta no museu a céu aberto da Arquitetura na madeira e vida no campo, que acena ao Kremlin da outra margem do rio Kamenka. Em 1125, Yury Dolgoruky, filho de Vladimir Monomach, para ali transferiu a capital do principado de Rostov-Suzdal, num tempo em que o primeiro assentamento de Moscou ainda seria instalado pelo próprio Yury em 1147. Essa cronologia faz do Kremlin de Suzdal antepassado próximo daquele de Moscou, cujo primeiro esboço – uma cerca em torno de um pântano - foi traçado por volta de 1156, no curso de invasões mongólicas ao território russo.

Na fronteira da Rússia medieval – que a partir de Kiev implantou o cristianismo ortodoxo com a fundação de igrejas e monastérios-fortalezas -, em 1157 a capital do principado foi transferida de Suzdal para Vladimir, passando a ser chamado de Vladimir-Suzdal, até que ambas fossem, séculos depois absorvidas por Moscou. Centro da vida monástica e importante hub comercial, ao perder em 1864 a disputa política para levar até ali a ferrovia transiberiana, Suzdal se imobilizaria no tempo. Não foi alcançada pelo “progresso”, mantendo o seu caráter idílico, um poema ao testemunho histórico e à inevitável roda do tempo. (Colaborou Eugênio Gomes)

 



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