1001 LUGARES PRA SE VIVER: Mar Morto, onde descansa o Rio Jordão

Com uma superfície de aproximadamente 650 km² entre a Jordânia e Israel - sendo 50 km comprimento e 18 km largura -, ele se encontra a 430 metros abaixo do nível do mar

por Bertha Maakaroun 06/02/2018 07:12

Bertha Maakaroun/EM
Mar Morto perdeu 35% de sua superfície (foto: Bertha Maakaroun/EM)

Sobre a água picante de tão salgada, um boiar involuntário e permanente, ao estilo de uma rolha varrida ao sabor do vento, eis a reveladora experiência do corpo lançado ao Mar Morto. Entre remelexos para a acomodação sobre os tons translúcidos de azul-cobalto, à altura do olhar, o horizonte árido se fecha sobre o Monte Nebo a 60 quilômetros dali, na Jordânia, onde a “Terra Prometida” foi, segundo a Bíblia, revelada a Moisés.

Esse “mar” – que em verdade constitui um lago endorreico que banha a Jordânia e Israel – é o descanso final do Rio Jordão, “aquele que desce” ou “lugar onde se desce”, ambos possíveis significados para o curso d’água estendido sobre territórios que guardam os mais antigos vestígios conhecidos da civilização humana: nasce ao Sul da Síria, no Monte Hermão, rasga vales, atravessa o Lago Hulé e o Mar da Galileia e finalmente alcança o final de sua jornada, após uma trajetória de 200 quilômetros, no ponto mais baixo do planeta – o Mar Morto – este encerrado a 430 metros abaixo do nível do mar. Nas últimas seis décadas, em decorrência do aumento da captação de água do Jordão, o Mar Morto perdeu 35% de sua superfície, atualmente em torno de 650 quilômetros quadrados.

Numa região onde o passado cultivou as religiões abraâmicas que pregam a tolerância, mas também são o mote para o curso de guerras e fronteiras, são bíblicas as mais marcantes e milenares referências a esse lago com a maior concentração de sal do planeta: a lenda associa a sua origem às cidades de Sodoma e Gomorra, possivelmente situadas à sua margem. Diz a Bíblia que quando Deus revelou a Abraão que Sodoma e Gomorra seriam destruídas pela ganância e pecados de seus habitantes, o patriarca das três principais vertentes do monoteísmo, pensando no sobrinho Ló e em sua família que viviam em Sodoma, teria implorado a Deus que poupasse as cidades se 10 pessoas “justas” ali fossem encontradas. Dois anjos foram enviados e, tendo julgado naquela categoria apenas Ló e a sua família, advertiram-lhes para evacuar rapidamente sem olhar para trás. Durante a fuga, entretanto, enquanto a fúria divina era despejada sobre Sodoma e Gomorra, a mulher de Ló, desobedecendo à orientação, teria olhado para trás. Instantaneamente, teria sido transformada em estátua de sal.

Independentemente do debate religioso em torno da simbologia da natureza dos “pecados” de Sodoma e Gomorra, ambas possivelmente foram abatidas por um terremoto em torno de 1900 a.C., dada a localização geográfica do Mar Morto, a hipótese é provável: está na porção norte do Grande Vale do Rift, formado pela falha transformante de uma longa fronteira de placas tectônicas, circundado a leste pelas áridas e desérticas montanhas da Jordânia e, marcando a oeste a linha de Israel e dos territórios da Cisjordânia. As evidências arqueológicas, inclusive, indicam que essa área fora fértil por volta de 2000 a.C. a 1500 a.C., em decorrência daquele que um dia foi o abundante curso do Rio Jordão, que encerra a sua viagem sobre esse “mar”. Nada a estranhar se Ló escolhesse a região para o cultivo, até ser surpreendido pela catástrofe, na localidade rica em petróleo, o que explicaria o imaginário do “fogo e enxofre”.

Mas também dessa região vêm as referências daquelas que estão entre as descobertas arqueológicas mais importantes do século 20: os chamados “manuscritos do Mar Morto”, encontrados em 1947 por dois beduínos árabes em cavernas na região montanhosa e árida de Hirbet Qumran, no deserto da Judeia. A descoberta inicial atraiu pesquisadores e arqueólogos, que, em buscas nas redondezas, desencavaram 930 manuscritos em hebraico, aramaico e em grego de 11 cavernas, entre os quais, 210 reproduzem livros da Bíblia hebraica – para cristãos, do Antigo Testamento. Em meio ao “tesouro histórico”, havia também escritos não bíblicos, como o Manual de disciplina ou Regra da comunidade, que descreve rituais e práticas da rotina da comunidade de Qumran, em torno da qual ainda pairam divergências entre pesquisadores. Para alguns, esse grupo seria identificado com os essênios – um ramo do judaísmo dos primeiros séculos da era cristã. Para outros, Qumran foi um espaço de culto ou um local para a produção de pergaminhos destinados à confecção dos manuscritos.

A incógnita e muitas perguntas sobre os manuscritos do Mar Morto persistem. Tanto quanto a brutalidade dos conflitos nessa região, que, por vezes, deixa à vida apenas o alento da poesia, expressa nas palavras do escritor jordaniano Ibrahim Nasrallah: “Talvez quando a água ansiava pelo fogo, criou as ondas, de tal forma que, algum dia, estas possam se tornar chamas”.

 

 

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