1001 lugares pra se viver: o fascinante Monastério de Pechory

Localizado na fronteira entre Rússia e Estônia, o "Monastério das Cavernas" mantém-se, há mais de cinco séculos, inabalável à ascensão e queda de imperadores

por Bertha Maakaroun 23/01/2018 07:12

Bertha Maakaroun/EM
10 igrejas que abraçam o pátio e o seu jardim (foto: Bertha Maakaroun/EM)
Azul turquesa, verde, branco, vermelho, amarelo, uma explosão silenciosa de cores e de cúpulas saltam das 10 igrejas que abraçam o pátio e o seu jardim, onde o vagar escorregadio dos monges em hábitos pretos e barbas longas ganha novo ritmo a cada 15 minutos, quando os sinos cantam. O Monastério de Pechory – que significa “Monastério das Cavernas” –, está à fronteira entre Rússia e Estônia. Entre nuvens e tempestades do curso implacável da história, mantém-se há mais de cinco séculos, inabalável à ascensão e queda de imperadores, de regimes, de fronteiras flutuantes e das pequenas e grandes guerras.

A religião na Rússia entrelaçada ao poder e às armas, escrita a sangue e não poucas lágrimas, está na fundação desse multicolorido monastério. Localizado a 50 quilômetros da bela cidade de Pskov, que integra o Anel de Prata – esta, distante 340 quilômetros de São Petersburgo –, muito antes de sua fundação, em 1473, para ali acorreram ermitãos. Em busca da espiritualidade, eles se abandonaram na solidão dos buracos esculpidos nas rochas da colina batizada de “Pechory”.

Foi no século 16 que o Monastério de Pechory viveu o seu maior esplendor: transformado em fortaleza, por sua posição estratégica na fronteira da Rússia com o Ocidente, muitas igrejas foram erigidas. Beneficiado por investimentos de Ivan IV, conhecido como O Terrível, a instituição floresceu sob a liderança do abade Cornelius. As cavernas foram ampliadas e, envolvendo-as, foram construídas a Igreja da Anunciação do Mais Sagrado Theotokos (1541), a Igreja da Proteção do mais Sagrado Theotokos (1559) e, entre 1558 e 1565, ao mesmo tempo em que se erigiu a Igreja de São Nicolas, em pedra, as muralhas no entorno ganharam mais força e robustez. O monastério tornava-se posto avançado para a defesa dos limites ocidentais da Rússia, ameaçados, no contexto da Guerra da Livônia, contra lituanos e poloneses (1558-1583) e por violento cerco comandado pelo rei polonês Stephan Batory em 1581.

A glória na guerra viria nos anos seguintes. Mas a tragédia se abateu sobre Cornelius quando, em 1570, ao receber o czar enfurecido, o abade foi agarrado e decapitado à entrada do monastério. Ivan teria sido influenciado por informações de que Cornelius manteria contato com Andrey Kurbsky, aristocrata russo que havia sido próximo colaborador de Ivan por ocasião da conquista de Kazan e, mesmo, nos primeiros anos da Guerra da Livônia. Por desavenças com o czar, Kurbsky desertou para a Lituânia em 1564, liderando um exército polaco e lituano contra a Rússia.

Entre 1611 e 1616, o Monastério de Pechory enfrentou novos ataques do exército polonês e também do exército sueco. Mas depois da Grande Guerra do Norte (1700-1721), travada por Pedro I, o Grande (1682-1721), em coligação com o Reino da Dinamarca e Noruega e Saxônia-Polônia contra o Império Sueco, esse monastério perdeu a sua importância estratégica: hibernou na obscuridade pelos séculos seguintes, já que, com a derrota sueca, nascia o Império Russo.

Tendo sido ocupado por alemães em 1918 na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), esse monastério masculino, que comunica em cores a função de cada edificação, pertenceu à Estônia entre 1920 e 1944: a vila de Pechory foi ocupada na Guerra de Independência da Estônia, em 1919 e, sob os termos do Tratado de Tartu entre a então União Soviética e Estônia, o território do entorno denominado Setomaa foi entregue à última. Em 1925, o monastério foi confiscado pelo governo estonês, mas, em 1940, na Segunda Guerra Mundial, a república foi anexada pela União Soviética e, no curso da guerra, novamente ocupada por alemães. A vitória aliada garantiu a recuperação do território, integrado em 1945 à Oblast de Pskov, atualmente, parte da Federação da Rússia.

 

Saiba mais no Blog 1001 LUGARES PRA SE VIVER. Acesse aqui     

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE TURISMO