Berço do blues e do jazz, Nova Orleans celebra este ano três séculos de história

A uma hora de voo de Miami ou menos que isso de Atlanta, a cidade é um ótimo destino para esticar as férias ou curtir aquele feriado prolongado

por Rafael Alves 09/01/2018 07:12

 

Rafael Alves/EM
Deixe-se levar pela música das bandas de rua enquanto caminha pelos quarteirões do French Quarter (foto: Rafael Alves/EM)
Aos 300 anos, a cidade às margens do Rio Mississippi é jovem e cheia de energia. Desde a fundação, em 1718, por Jean-Baptiste le Moyne, governador da colônia francesa de Luisiana, Nova Orleans aprendeu a se reerguer dos períodos de sofrimento e a encontrar o caminho para celebrar a vida. Neste pedaço único e diverso dos Estados Unidos, o lema, infelizmente ainda não oficial segundo moradores, é “deixe rolar os bons momentos”. E isso invariavelmente virá acompanhado da música e da culinária que fizeram essa cidade mundialmente conhecida.

 



Para aproveitar Nola, como os moradores gostam de se referir a Nova Orleans, você pode passear pelas ruas do French Quarter e ver seus belos casarões com varandas e sacadas em estilo europeu, pela charmosa região das mansões em Garden District, ou se divertir e se refrescar em áreas verdes como o City Park, local onde os Beatles fizeram show em setembro de 1964 para uma ensandecida multidão. Mas a cidade oferece também passeios de barcos em pântanos, visitas a fazendas de jacarés, tours em casas mal-assombradas, bares com música ao vivo, museus e ruas com centenas de lojas para boas compras. Nola tem tudo isso e é muito mais que isso.


Independentemente da escolha, o importante é saber que a vida em Nova Orleans é ao ar livre. Desde o surgimento do blues e do jazz, entre a virada dos séculos 19 e 20, é assim. E isso pode transformar sua maneira de aproveitar a estada. Uma das experiências mais incríveis da cidade é se deixar levar pela música das bandas de rua enquanto anda pelos quarteirões do French Quarter. À noite ou à tarde (as manhãs em geral são para se recuperar da noite anterior), elas fazem suas performances em diferentes pontos da região, o que pode levá-lo de um show de blues tradicional a uma improvisação de jazz contemporâneo entre uma esquina e outra. Basta manter os ouvidos atentos ao som ao redor.

Esse tour sensorial por Nola pode ser também estendido aos bares, que costumam abrir as portas após o almoço e fechar na manhã seguinte. Como eles geralmente não cobram entrada, mesmo quando há shows ao vivo, é possível entrar, ouvir uma música e curtir o ambiente um pouco. A regra de bom cliente é comprar um ou dois drinques e estender sua passagem pelo local. Com centenas de estabelecimentos lado a lado em French Quarter, em Faubourg Marigny, Nova Orleans é um parque de diversão para turistas que sempre sonharam ter um bar para chamar de seu.

 

Celebrações o ano inteiro 

 

Rafael Alves/EM
Casarões com varandas em estilo espanhol e com detalhes inspirados na França chamam a atenção do turista na Decatur Street com St. Ann Street (foto: Rafael Alves/EM)

Na cidade da alegria e da diversidade, as celebrações dos 300 anos prometem movimentar as ruas, deste mês a dezembro, com centenas de festas, concertos e exposições para comemorar uma cultura única dentro da história dos Estados Unidos. Em anos normais para os padrões de Nola, o calendário oficial de eventos da cidade reúne cerca de 200 festivais, como o tradicional carnaval de rua Mardi Gras, os shows dedicados ao filho ilustre e gênio do jazz Louis Armstrong (1901–1971) e a divertida e autoexplicativa corrida de vestido vermelho.


Desta vez, a lista de atrações vai se estender, com espaço inclusive para atrações do Brasil, segundo o diretor do Museu do Jazz de Nova Orleans, Greg Lambousy, que convidará bandas brasileiras para o evento dedicado ao país. O som de Nova Orleans, afinal, inspirou o comportamento e estilo de tocar de vários grupos musicais brasileiros desde os primórdios do samba, que o diga Pixinguinha e seus Oito Batutas.

O tricentenário da cidade americana marcará ainda a conclusão de projetos de transformação na infraestrutura da cidade, fortemente afetada pelo furacão Katrina em 2005. Uma das principais mudanças será percebida a partir do mês que vem pelos visitantes desde o primeiro contato com Nola, devido à inauguração de um amplo e moderno aeroporto internacional. Facilitar a chegada e saída dos turistas, principal fonte de renda de Nova Orleans, tem sido uma prioridade.

Rafael Alves/EM
Os bondes elétricos são a opção mais charmosa e barata de aproveitar os principais bairros de Nola (foto: Rafael Alves/EM)

O próprio sistema de transporte público, que conta com os charmosos bondes elétricos que cortam trechos turísticos, comerciais e residenciais de Nova Orleans, foi amplamente reformulado nos últimos anos, assim como as redes de escolas e hospitais. Para os turistas, eles são a opção mais charmosa e barata de aproveitar os principais bairros de Nola. Com US$ 3, é possível comprar um tíquete de viagens ilimitadas com validade de 24 horas, aceito também nos ônibus urbanos.

Como a cidade é toda plana (Nola está abaixo do nível do mar), as bicicletas também são muito usadas por moradores, nem tanto por turistas. Mas com os bondes elétricos o passeio é sempre mais proveitoso para quem tem pouco tempo a perder e muito a aproveitar dessa cidade tão acolhedora. A linha vermelha percorre a histórica Canal Street e dá acesso ao distrito de negócios, a alguns dos famosos cemitérios da cidade e ao belo City Park, onde está o Museu de Arte de Nova Orleans. A amarela percorre as margens do Rio Mississippi, e a verde a luxuosa Saint Charles Avenue. No nosso roteiro de três dias por Nola, saber usá-las será essencial para cumprir a meta de percorrer pontos turísticos importantes da cidade.


Saiba mais

Inspiração francesa

Fundada em 1718 por colonizadores franceses e nomeada em homenagem ao duque de Orleães, Filipe, então chefe de Estado da França, Nova Orleans sempre foi um centro portuário de intensa movimentação. Sua localização estratégica entre o Rio Mississippi e o acesso ao Golfo do México levou a cidade a intensos conflitos e trocas de comando. Em 1763, o Tratado de Paris transferiu à Espanha o controle de Nova Orleans e demais terras da Luisiana a oeste do Mississippi. A mudança provocou uma sangrenta rebelião em 1769. Nas décadas de 1780 e 1790, dois gigantescos incêndios devastaram a cidade. Em 1800, acordo secreto entre Espanha e França devolveu todo a região da Luisiana aos franceses. O governo dos Estados Unidos descobriu a negociação somente três anos depois. Então, decidiu comprar o estado e anexá-lo ao país. 

 

* O jornalista viajou a convite da Delta, Gol e New Orleans Convention & Visitors Bureau

VÍDEOS RECOMENDADOS