1001 lugares pra se viver: a história escondida nos subterrâneos de Buenos Aires

Na Calle Defensa, na altura do número 755, onde foi recuperado um dos sítios arqueológicos mais impressionantes da capital da Argentina: El Zanjón dos Granados expõe quatro séculos da vida portenha

por Bertha Maakaroun 18/12/2017 12:00

 

Elzanjon/Divulgação
Os subterrâneos da mansão por onde passava o antigo Rio El Zanjón dos Granados (foto: Elzanjon/Divulgação)

Naquele ano de 1871, a febre amarela devastou a capital portenha. Quase um terço da população foi dizimada. As famílias mais tradicionais e ricas migraram para o Norte da cidade, particularmente Recoleta e Palermo, lugares mais arejados que guardavam as suas casas de campo. Pouco a pouco, as mansões da incipiente burguesia, espalhadas pelas imediações de San Telmo, particularmente ao longo da Calle Defensa, foram abandonadas e alugadas aos imigrantes europeus. Algumas transformaram-se em “conventillos” – cortiços –, de tal forma que os antigos salões e amplos espaços foram ocupados por dezenas de famílias.

Por sua localização privilegiada, nos anos que se seguiram à independência da Argentina, a Calle Defensa se transformou, assim como o Bairro de San Telmo, em local de moradia de uma elite comercial nascente da República criada em 1810. A mais importante do período colonial e início da República, essa rua conectava a Plaza Mayor – atual Plaza de Mayo – aos mais antigos bairros de Buenos Aires – Monserrat e San Telmo. Chamara-se, antes, Calle Real e, mais tarde, Calle Mayor. Mas foi rebatizada para “Defensa” porque, durante as guerras napoleônicas, por ocasião da segunda invasão inglesa a Buenos Aires, em 1807, a Espanha, naquele momento submetida aos franceses, teve as suas colônias do Rio da Prata atacadas pelos britânicos. A segunda invasão inglesa foi vencida pela ação da população “criolla” de Buenos Aires – nativos americanos apelidados pejorativamente pelos nascidos na Espanha. Foram os criollos que se rebelaram contra a ideia de rendição, que crescera depois do fracasso das forças regulares do Exército espanhol. Foram as milícias populares criollas que derrotaram os ingleses, quando estes tentavam tomar o coração da cidade, o “Cabildo”, situado na Plaza Mayor.


Hoje, a elite portenha mora mais ao Norte da capital, e os bairros San Telmo, Barracas e La Boca, assim como em geral os bairros mais ao Sul, há muito estiveram associados à pobreza, aos imigrantes, aos milongueiros e aos descamisados. E é na Calle Defensa, na altura do número 755, por onde normalmente o turista vaga com o olhar vidrado nos objetos expostos na Feira de San Telmo e adjacências, onde foi recuperado um dos sítios arqueológicos mais impressionantes de Buenos Aires: El Zanjón dos Granados expõe quatro séculos da vida portenha. Ali se inicia a viagem no túnel do tempo de uma Buenos Aires que retrocede à Revolução de Maio, em 1810, aos dias atuais. Ali se acompanha a metamorfose de San Telmo e ruas como a Defensa, de bairro da elite que ajudou a fundar a República da Argentina, em coração da Buenos Aires dos imigrantes e descamisados, que tinham no tango o seu hino de afirmação e consolo.

O Zanjón era um pequeno córrego que ligava a parte alta da cidade ao Rio da Prata. Foi gradativamente sendo coberto pela ocupação urbana. Hoje, a sua visita começa nesse endereço, onde conhecemos uma antiga mansão da burguesia portenha, construída em 1830 por espanhóis sobre o rio. Em três níveis, dois para uso da família e um terceiro para a criadagem, a casa tinha dois pátios, com grandes salas de recepção e de jantar. Uma demonstração de sua riqueza é a existência do poço artesiano privado de 18 mil litros – antes a água era coletada no rio, mas essa prática deixou de ser higiênica com o crescimento da cidade e do lançamento de dejetos no curso d’água.
Elzanjon/Divulgação
Vista do complexo dos subterrâneos (foto: Elzanjon/Divulgação)

Nessa casa-museu estão as marcas do pânico migratório das ricas elites comerciais e a nova ocupação: 15 famílias, que compartilhavam dois banheiros e uma cozinha. É no interior de Zanjón dos Granados que captamos como correu esse rio da história da antiga colônia da "Platta" à República do "Argentum". Um rio em que "tudo muda, para que tudo permaneça como está". (Colaborou Eugênio Gomes)

 

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