São Petersburgo: onde pulsa o coração da Grande Revolução Socialista de 1917

A capital do Império Russo foi chamada de Petrogrado, depois Leningrado, hoje São Petersburgo. Em nenhum outro local da Rússia, a suntuosidade seja tão associada ao absolutismo e ao poder do Estado

por Bertha Maakaroun 07/11/2017 08:00

As horas cortam as noites brancas, iluminando suavemente o passeio das águas do Neva até o Golfo da Finlândia. São quase 30 quilômetros margeando uma das mais belas cidades do mundo, sonho e miragem de Pedro, o Grande, um czar visionário, inspirado no modelo de Amsterdã e na suntuosidade de Paris. Por volta de 1h, a espetacular Ponte do Palácio se abre ao trânsito fluvial, emoldurando, ao fundo, a Fortaleza de Pedro e Paulo – antigo posto avançado do império sueco recapturado pelos russos, logo nos primeiros anos da Grande Guerra do Norte (1700-1721). Com a sua cúpula em agulha que lhe confere altura de 122,5 metros, insinua um campo de visão até a Fortaleza de Konstradt, ilha de Kotlin no Mar Báltico, onde adversários tombaram, guerras foram vencidas, rebeliões urdidas e oficiais e revoltosos executados.



Bertha Maakaroun/EM
Catedral do Sangue Derramado é uma das maravilhas de São Petersburgo (foto: Bertha Maakaroun/EM)

São Petersburgo foi fundada em 1703. Aquela que se tornaria a capital do Império Russo foi assim denominada não apenas em ambígua referência ao próprio nome do então rei Pedro I, mas, sobretudo, em homenagem a São Pedro, guardião das chaves do paraíso. Nesse particular caso, chaves que abririam à Rússia o Mar Báltico. Até então, era pelo Mar Branco, em Arkhangelsk, região distante de Moscou e encoberta pelo gelo a maior parte do ano, a única saída aos oceanos. Assim, São Petersburgo foi a janela aberta ao Ocidente, resultado da disposição de Pedro não só de transformar o velho reino em império – o que ocorreu em 1721 –, mas, também, numa moderna potência marítima. Em 1914, à eclosão da Primeira Guerra Mundial, a cidade de Pedro foi rebatizada Petrogrado (1914-1924). E, depois da morte de Vladimir Lênin, em 1924, passou a se chamar Leningrado, até retomar o nome original com o colapso da União Soviética na década de 1990.
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Fortaleza de Pedro e Paulo, antigo posto avançado do império sueco (foto: Bertha Maakaroun/EM)

Há 100 anos, entre os dias 7 e 8 de novembro, do cruzador Aurora – que atuou ativamente na guerra russo-japonesa –, transformado em museu à margem do Rio Neva, partiram os disparos que advertiam os sovietes para dar sequência ao plano de invasão do Palácio de Inverno e deposição do governo provisório. Morada dos imperadores russos de 1763 a 1917, esse palácio se alonga à borda norte do Neva. Atualmente, integra o conjunto de seis edificações do Museu Hermitage. Geminado a partir de 1764, da coleção de 225 pinturas flamengas e alemães de Catarina II, trata-se de um patrimônio construído ao longo de mais de dois séculos. São 360 salas, mais de 3 milhões de obras de todas as épocas, estilos e culturas – com especial destaque para The Madonna Benois e The Madonna Litta, de Leonardo da Vinci. Rivaliza-se com o Louvre, alcançando, sem dificuldades, posição entre os maiores do mundo.


MONUMENTOS

 

 

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Largo do Palácio de Inverno, onde agora funciona o Museu Hermitage (foto: Bertha Maakaroun/EM)

 Antigos palácios foram transformados em museus, teatros, como o Mariinsky, galerias, salas de concerto e catedrais. Em seu Centro Histórico, listado como patrimônio mundial pela Unesco, desfilam monumentos que foram testemunhos não apenas da Revolução de 1917, um ponto de inflexão na história, que marcaria campos políticos, ideologias e influenciaria, no século 20, sem exceção, de colônias a potências em todos os continentes do planeta. Para além desse centenário, São Petersburgo carrega as marcas de uma sucessão de eventos dramáticos, o maior deles os “900 dias e 900 noites” do cerco durante a Segunda Guerra Mundial, onde estima-se morreram 600 mil soldados alemães, 700 mil soldados russos e 1,2 milhão de civis – literalmente exterminados de fome.

Entra século e sai século, a bela do Norte continua a capital cultural inconteste da Federação Russa: são 8.464 monumentos, entre os quais 4.213 de importância nacional, que representam 10% do patrimônio sob proteção do Estado desse país que se esparrama entre a Europa e a Ásia, um nono da área do planeta, reunindo mais de nove dezenas de nacionalidades.

O conjunto das cúpulas que se elevam como labaredas coloridas. Na Praça Vermelha, em Moscou, a Catedral de São Basílio consagra a unificação da Rússia no século 16, por Ivan, o Temível, um casamento entre a coroa absoluta, a Igreja Ortodoxa e o povo. Mas, três séculos depois, essa união dava sinais de exaustão. E o início do divórcio entre a autocracia e os seus governados se levanta, como numa miragem, à margem do Canal Griboedov, em São Petersburgo. Trata-se da Catedral do Sangue Derramado. Foi edificada entre 1883 e 1907, por determinação de Alexandre III, em memória ao seu pai, Alexandre II, como marco temporal do exato ponto em que, em 13 de março de 1801, o imperador sofreu o último de uma série de atentados.
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Palácio de Catarina chegou a ter mais de 100 quilos de ouro utilizados para dourar as fachadas (foto: Bertha Maakaroun/EM)

A morte de Alexandre II talvez tenha eclipsado, aos olhos do filho, os nítidos sinais do ódio ao czarismo alimentado pelos ventos liberalizantes da Europa e pela chama do descontentamento de uma população majoritariamente miserável. Além de abafar as rebeliões e a oposição com dura repressão, talvez por isso, no plano simbólico, na magnífica Catedral do Sangue Derramado, Alexandre III tenha sinalizado com o desejo de retorno à Rússia medieval. Se, à primeira vista, a catedral desponta como um conto de fadas oriental em seu interior, maior ainda se faz o espanto diante de impressionantes 7.500 metros quadrados de mosaicos de cenas e figuras bíblicas, a maior coleção do mundo reunida numa só edificação.

A gritante declaração de guerra de Alexandre II à ocidental arquitetura de São Petersburgo é marcada pelo contraste entre a Catedral do Sangue Derramado e a coleção de monumentos barrocos e neoclássicos da bela cidade. Planejada para se rivalizar em esplendor às maiores cidades europeias de seu tempo, São Petersburgo é a fusão do barroco, do rococó e do classicismo aos elementos da cultura russa, numa arquitetura particular e monumental. Cúpulas arredondadas, coroadas com terminações em agulhas, se mesclam às fachadas ornamentais de várias centenas de palácios, que se distribuem entre ilhas e às margens de uma rede de canais integrada por 342 pontes.

Entre canais e largas avenidas salta a opulência de um estilo de vida em palácios, como o de Stróganov – dizem que da família que dá nome ao famoso prato – muitos transformados em museus a partir da Revolução de 1917. No Palácio de Yusupov, também chamado Palácio Moika, por estar à beira do Rio Moika, a suntuosidade das instalações, esculturas e ornamentação é ofuscada por um evento que ainda habita o imaginário russo: ali foi assassinado por um grupo de nobres monarquistas, entre os quais o príncipe Felix Yusupov, o polêmico Grigoriy Rasputin. Autoproclamado santo e amigo próximo da família imperial, Rasputin transitava pelos aposentos do czar Nicolau II e de seu filho hemofílico Alexei Romanov, alimentando a esperança da cura milagrosa do herdeiro do trono.


MUITO OURO 

 

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O Palácio de Verão, em Peterhoff, é emoldurado por mais de uma centena de esculturas, fontes e cascatas (foto: Bertha Maakaroun/EM)

Talvez, em nenhum outro local da Rússia, a suntuosidade seja tão associada ao absolutismo e ao poder do Estado.Foi um tempo em que palácios eram criados “para” e “pela” glória da Rússia. Nas proximidades de São Petersburgo, cidade de Tsarskoye Selo, em estilo de rococó, o palácio iniciado por Catarina I, esposa de Pedro, o Grande, em 1717, que chegou a ter mais de 100 quilos de ouro utilizados para dourar as fachadas, foi refeito seis vezes, até a última intervenção e reinauguração por Catarina II, em 1756. A sua câmara de âmbar é um capítulo à parte: presenteada em 1716 pelo rei Frederico Guilherme I, da Prússia, a Pedro, o Grande, o projeto foi ampliado por Catarina II, alcançando seis toneladas de âmbar, obra, aliás, saqueada pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial e só reconstruída em 2003.

Depois da morte de Catarina II, em 1796, o palácio Tsarskoye Selo foi abandonado pelo Palácio de Pavlovsk, às margens do Rio Slavianka, atualmente museu. Outros monarcas preferiram residir no vizinho Palácio de Alexandre, contudo, nada que se aproxime da beleza do Palácio de Verão, em Peterhoff. Erguido entre 1714 e 1725, é também chamado de “Versalhes Russo”. Abre-se ao Golfo da Finlândia, um braço do Mar Báltico, ao mesmo tempo em que, protegido ao longe pela Fortaleza de Kronstadt, se espalha por 1 mil hectares entre três dezenas de edificações e pavilhões, emoldurados por mais de uma centena de esculturas, fontes e cascatas. Por diferentes terraços, quem conduz o baile e o encontro das águas é um engenhoso sistema impulsionado pela gravidade. 
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