1001 LUGARES PRA SE VIVER - Sarlat, na França

Alvo de ataques vikings e região fronteiriça entre a França e a Inglaterra que se batiam na Guerra dos Cem Anos, a fortificada Sarlat sofreu diversos ataques que se estenderam até o século 17

por Bertha Maakaroun 04/09/2017 17:00
Bordeaux Tourisme/Divulgação
Place de la Liberté acolhe um importante mercado disputado pelos visitantes (foto: Bordeaux Tourisme/Divulgação)
Entre ruelas de paralelepípedo, impecáveis fachadas medievais e renascentistas em pedra, pulsa ao centro da antiga vila de Sarlat-la-Caneda o coração do Périgord, região que, com os seus 1.001 castelos está entre as mais belas da França. Cenário de dezenas de filmes, entre eles Jeanne D´Arc, de Luc Besson, a charmosa cidade guarda 77 monumentos e edificações que formam um dos mais importantes conjuntos urbanos medievais da França, o primeiro restaurado e preservado a partir da legislação francesa de 1962. A imersão em um modo de vida vem acompanhada de cheiros e sabores que inundam a place de la Liberté ou a antiga igreja, que acolhe um importante mercado. Ali, nozes, trufas negras, cogumelos selvagens, fois gras, entre outras iguarias confeccionadas com porco, guardam séculos da tradição no território.

Habitada desde o período gálico-romano, Sarlat começou a se desenvolver em torno de um antigo monastério beneditino. Prosperou sob o reinado de Pepino, o Breve (751-768) e, em seguida, de Carlos o Grande (768-814), primeiro imperador Franco Romano (800-814). Pepino e Carlos eram, respectivamente filho e neto do comandante Carlos Martel, fundador da dinastia Carolíngia (751-987), fortalecendo-se após impor a vitória dos francos sobre os árabes na batalha de Poitiers, em 732.

De múltiplos significados, principalmente porque deteve o avanço dos chamados “infiéis” que solapavam a Cristandade, a vitória de Carlos Martel acelerou a unificação do poder da nobreza guerreira em torno de um comandante, cujo prestígio suplantava o do próprio rei merovíngeo, Childerico 3º, que terminou deposto com o apoio da nobreza e da Igreja Católica.
Bordeaux Tourisme/Divulgação
A fortificada Sarlat sofreu diversos ataques que se estenderam até o século 17 (foto: Bordeaux Tourisme/Divulgação)

Sarlat, que já era um centro de peregrinação religioso, projeta-se nesse contexto em que francos fortalecem as bases da aliança com a Igreja Católica. Esse processo se torna irreversível, sobretudo após derrotarem os lombardos, povo de origem germânica, que penetrava em direção ao centro da península, ameaçando Roma e a Igreja.

Alvo de ataques vikings e região fronteiriça entre a França e a Inglaterra que se batiam na Guerra dos Cem Anos, a fortificada Sarlat sofreu diversos ataques que se estenderam até o século 17. Resistiu a todos, mas em decorrência do tratado de Brétigny, de 1360 – que pôs fim à primeira parte do conflito –, Sarlat passou ao controle do soberano inglês Eduardo III, depois de a França ser levada a abdicar cerca de um terço de seu território – de Calais aos Pirinéus – em capitulação à derrota na Batalha de Poitiers, de 1356, em que o rei João II foi feito refém.

Dez anos mais tarde, sob o reinado de Carlos V, que se estendeu de 1364 a 1380, Bertrand du Guesclin comandou a investida contra os ingleses, recuperando os territórios, à exceção da Aquitânia, Gasconha e Calais. O fim da Guerra dos Cem Anos, selado com o Tratado de Castillon, de 1453, contudo, não pacificou a França, afetada pelas guerras entre católicos e protestantes.

Sede do bispado no século 14, Sarlat não apenas confirmou a sua autoridade religiosa ao Sul do Périgord, mas desenvolveu uma elite de mercadores, cuja prosperidade, somada aos benefícios que recebeu da Coroa Francesa por sua lealdade na Guerra dos Cem Anos, reflete-se em belos edifícios de inspiração romana e góticos. Estreitas alamedas, arcadas, belas mansões, a Catedral de Saint Sacerdos, o Palácio do Bispo se espalham nesse museu a céu aberto, onde congelou-se no tempo, uma arquitetura de época.