Rota do cacau: onde a Bahia é muito mais que sol, praia, mar, sombra e água fresca

A terra de Dorival Caymmi e Jorge Amado tem também fazendas de cacau para visitar em Ilhéus e arredores no Sul do estado, com direito a passeio nas lavouras na companhia de um guia

por Gustavo Werneck 15/08/2017 07:12

 

Alfredo Durães/EM
Visitar plantação de cacau é uma das opções de que o turista dispõe (foto: Alfredo Durães/EM)
Praias de águas mornas, sombra dos coqueirais, músicas para balançar na rede e outras tantas para pular no carnaval. Comida boa no tabuleiro e muito litoral para conhecer. Quer mais do que a Bahia tem? A terra de Dorival Caymmi e Jorge Amado tem também fazendas de cacau para visitar em Ilhéus e arredores no Sul do estado, com direito a passeio nas lavouras na companhia de um guia. E oferece a mesa posta com pratos típicos da região e ótimas conversas com os proprietários das áreas, envoltas em mata atlântica.
Ana Lee/Divulgação
Barcaça onde se faz a secagem das amêndoas, uma das etapas pela qual passa o cacau (foto: Ana Lee/Divulgação)

A viagem poderá ficar ainda melhor futuramente, já que o governo baiano acaba de lançar a Estrada do Chocolate, que terá o marco zero em Ilhéus e roteiro ao longo da rodovia BA-262: no caminho, sítios históricos, rios, cachoeiras, áreas de preservação ambiental e muitas descobertas para todos os sentidos.
Alfredo Duraes/EM
Terra de Jorge Amado e Dorival Caymmi é puro encanto (foto: Alfredo Duraes/EM)

Antes que a estrada ganhe o mundo real, pois ainda está no projeto, o Estado de Minas mostra um pouco desse potencial, que enche os olhos, dá água na boca e desperta a curiosidade. Na Fazenda Yrerê, localizada no quilômetro 11 da rodovia Ilhéus-Itabuna, o casal Gerson Marques e Dadá Galdino dá as boas-vindas a quem chega e, para começar, apresenta alguns tesouros da natureza, como um frondoso pé de jacarandá. “Temos ipês, pau-brasil e muitas outras árvores”, afirma o simpático Gerson.

CHOCOLATE Como tudo na Bahia tem uma história, Gerson se apressa em explicar o significado de Yrerê, que é uma ave aquática, tipo um pato, muito comum na região. A propriedade se chamava Fazenda Nossa Senhora de Fátima e, ao trocar o nome, para não ficar mal com a santa, ele achou melhor tirar a dúvida. Consultou uma mãe de santo e ela tranquilizou o casal, garantindo que não haveria problema com a esfera celeste. “O cacau é plantado aqui há 140 anos. Antes, foi a vez da extração da madeira, depois da cana-de-açúcar e, finalmente, o cacau”, diz Gerson, explicando que o local só não produz o chocolate.
Alfredo Durães/EM/
Águas mornas e areia fina na Praia do Cristo (foto: Alfredo Durães/EM/)

Quem estiver muito a fim do chocolate pode visitar as melhores casas do ramo em Ilhéus. Na região se produz alimento orgânico e de origem, cartão de visitas de puro bom gosto. De origem, significa que o produto é da região, e orgânico, cultivado com insumos extraídos do próprio ecossistema. Há todo tipo, para paladares exigentes, com alto percentual de cacau, ao leite, diet e com misturas. Basta escolher, e as embalagens são bem legais, algumas com fitinhas evocando São Jorge, padroeiro de Ilhéus – outra padroeira da cidade é Nossa Senhora das Vitórias, e São Sebastião está no lugar de padroeiro da catedral diocesana; Terra de Santa Cruz; e Bahia de todos os santos.

 


•Fazendas fortalecidas

Ana Lee/Divulgação
Goretti Silva, de Portugal, se encantou com o que viu (foto: Ana Lee/Divulgação)
Em visita à Fazenda Yrerê, durante o recente Festival Internacional do Chocolate e Cacau (Chocolat Bahia 2017), ocorrido no município, a portuguesa de Viana do Castelo Goretti Silva, professora de turismo e gerente do Fábrica do Chocolate (hotel, restaurante e museu) no seu país, disse que aproveitar as antigas fazendas para o turismo “é o caminho” para a diversificação das atividades e criação de oportunidades. Palestrante no encontro promovido pelo Costa do Cacau Convention Bureau e Associação de Turismo de Ilhéus, com apoio do governo da Bahia e parceiros, Goretti destaca o acolhimento como fundamental para atender o visitante.

“O agricultor é o melhor embaixador para receber os turistas, mas é preciso preparo para recebê-los. Não é só abrir a porteira. É preciso relacionar bem, saber mostrar o seu potencial”, afirma Goretti, que não só provou da deliciosa torta de chocolate coberta com nibs (amêndoa triturada), como visitou a barcaça, onde se faz a secagem das amêndoas, ouviu o relato de produtores da região e viu o fruto no pé. “As pessoas querem vivenciar este contato com a natureza, e apreciam a boa acolhida”, explica a professora do Instituto Politécnico de Viana do Castelo.

Já vai longe o auge da vassoura-de-bruxa, uma praga letal que dizimou as plantações de cacau do Sul da Bahia, deixou cerca de 2,5 milhões de desempregados e arruinou sonhos e planos dos proprietários. Hoje, a produção cacaueira volta a crescer e os herdeiros desse tsunami ocorrido em 1992 veem no turismo uma alternativa para valorizar as terras e sobreviver. “Estamos reinventando a cacauicultura”, diz Gerson Marques, proprietário, com a mulher, Dadá Galdino, da Fazenda Yrerê. Gerson lembra que crise abre oportunidades, tanto que, na região, há mais duas fazendas abertas à visitação: a Provisão e a Primavera.

PARAÍSO

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Na fazenda Provisão os turistas podem desfrutar de uma refeição com peixes e carne e não pode faltar a farofa (foto: Ana Lee/Divulgação)
Para chegar à Fazenda Provisão é preciso seguir pela saída ao Norte de Ilhéus “no rumo de Uruçuca”, conforme dizem os nativos com o melodioso sotaque baiano. O visitante vai seguindo o Rio Almada – já viram nome mais poético? –, passando por áreas de mata atlântica e descansando a mente com o canto dos pássaros. “Para receber as pessoas em casa e mostrar os pés de cacau, tem que gostar muito do que faz”, acreditam piamente os descendentes de José Maria Novaes, que foi um grande produtor.

Na sala do casarão, cercado de varandas, dá para descansar das longas caminhadas e tomar uma água bem gelada; e na sala de visitas há móveis e objetos de decoração que remetem a outros tempos. Futuramente, a propriedade vai ter bangalôs para acomodar os hóspedes. Se a vontade for de rezar, não se preocupe, caro leitor, pois há uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Na Provisão, os turistas podem desfrutar de uma refeição com peixes e carne – e não pode faltar a farofa. Hoje, são cerca de 500 visitantes na alta temporada e, para visitar, é preciso ir a uma agência de turismo. Muitas pessoas vão direto do navio que aportam em Ilhéus, para a fazenda.
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Produção de chocolate orgânico e de origem é um cartão de visitas local (foto: Ana Lee/Divulgação)

Depois desse passeio, é fundamental visitar a Estação Rio do Braço, onde já foi gravada uma novela e hoje lembra mais um lugar perdido no tempo. É bom caminhar pela rua de terra, ver os casarões que já tiveram seu glamour na época dos coronéis do cacau, mas hoje são apenas retratos de um tempo de riquezas. A esperança está no turismo, embora seja preciso um trabalho de preservação urgente, a fim de evitar que todo esse patrimônio se perca e leve com ele as histórias do cacau.


Estrada do Chocolate

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Produção de chocolate orgânico e de origem é um cartão de visitas local (foto: Alfredo Durães/EM/)

O governo baiano lançou o projeto de implantação da Estrada do Chocolate em Ilhéus, Sul da Bahia, durante o Festival Internacional do Chocolate e Cacau (Chocolat Bahia 2017). No roteiro, os turistas conhecerão a cultura do cacau e a produção do chocolate por meio de visitas a fazendas existentes ao longo da BA-262, com sítios históricos, rios, cachoeiras e áreas de preservação ambiental. Será o primeiro roteiro turístico temático da Bahia e, inicialmente, vai abranger os municípios de Ilhéus, que até a primeira metade do século 20 chegou a ser o primeiro exportador de cacau do mundo, e Uruçuca.

 

* O repórter viajou a convite do Festival Internacional do Chocolate e Cacau

SERVIÇO:

Fazenda Yrerê
» Km-11 da rodovia que liga Ilhéus a Itabuna
» Entrada: R$ 30 – contato via agências de turismo
» Telefone: (73) 3656-5054

Fazenda Provisão
» Estrada de Ilhéus para Uruçuca
» Entrada: R$ 50 (com almoço) e R$ 30 (sem almoço) – contato com agências de turismo

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