Grupo de teatro cria peça on-line com duração de nove dias ininterruptos

'ExReality' exibirá a rotina de três atores captada por seus celulares, para discutir a dimensão da vida on-line. Primeira edição começa nesta sexta (6)

Estado de Minas 06/11/2020 04:00
Divulgação
ExReality, peça on-line (foto: Divulgação)

Fundada em 2012, a ExCompanhia de Teatro tem trajetória marcada por criações que abordam temas contemporâneos por meio da mistura de linguagens. Nas peças EU – Negociando sentidos (2012-2013), Frequência ausente 19Hz (2015) e O enigma Voynich (2017), o grupo já experimentava a interface entre o real e o digital por meio de experiências cênicas transmídia.

Em virtude da pandemia da COVID-19, a companhia abdica de uma dessas categorias e apresenta ExReality, projeto  descrito como um ''experimento artístico-social no qual tudo pode acontecer''.

Nele, três integrantes do grupo – Bárbara Salomé, Johnnas Oliva e Thiago Andreuccetti – irão transmitir, ininterruptamente e ao longo de nove dias consecutivos, as telas de seus smartphones e o que for capturado por suas câmeras e microfones. Assim como num reality show, o trio irá participar de provas e concorrer a um prêmio.

''Este não é um projeto construído a partir de certeza, mas de perguntas. E duas delas são importantíssimas para compreendê-lo: Qual é o sentido da vida? e Nossa vida é on-line?. São elas que norteiam essa experiência'', conta Gustavo Vaz, que assina a criação da peça ao lado de Bernardo Galegale e Gabriel Spinosa.
Fotos: Patricia Cividanes/Divulgação
O papel da tecnologia na sociedade é o ponto de partida de ExReality, que terá duas edições e será exibido em plataforma específica para os que adquirirem ingressos (foto: Fotos: Patricia Cividanes/Divulgação)


Para ele, antes da pandemia já era perceptível a transferência da vida para o ambiente on-line. O isolamento social teria apenas ''acelerado'' e ''acentuado'' essa condição.

''Isso transforma a história da humanidade. A internet tem um papel crucial na trajetória do ser humano. Ela traz uma série de filtros que não nos permitem demonstrar sofrimento, por exemplo. Além disso, ela transformou as verdades em categorias fugidias, impossibilitando a construção de algo profundo. É um lugar de competição, com regras muito confusas'', afirma.

ALIADA 

Ainda assim, ele contesta a tese de que a internet é apenas o inimigo. “'Ela também pode ser aliada, na verdade. Na maioria das vezes, ela é. Sem ela, por exemplo, uma série de eventos não poderiam acontecer, nem mesmo a nossa peça. Só com a internet ela se torna possível. Então, o que a gente está buscando com esse projeto é promover uma experiência para quem assiste.”

Programada para esta sexta-feira (6), a estreia de ExReality se estende até 14 de novembro próximo. Ao longo de todo esse tempo, os três participantes ficarão 24 horas por dia on-line. Assim como nos programas de TV, esse cotidiano será resumido por meio de uma entrada ao vivo conduzida por um apresentador (Daniel Warren), sempre às 21h30. Ao adquirir o ingresso pela internet, o público obtém acesso a uma plataforma exclusiva que apresenta em tempo real as telas dos celulares dos três participantes.

Pelo recurso de enquetes, os espectadores irão definir os rumos da trama, como algumas ações futuras. Além disso, eles também poderão receber ou enviar objetos para o elenco e encontrá-los ao vivo.

''Pensamos numa série de dispositivos que trazem o público para dentro da narrativa. São questões que afetam os nossos artistas, levando-os a uma reação. Existe um pensamento artístico, mas também há um espaço muito grande para o imprevisível. Para o ponto de partida, eles vão explorar temas como o amor, a transcendência, a rotina. A partir daí, depende muito de quem está assistindo'', diz Gustavo.

Por conta disso, a segunda apresentação, programada para o período de 27 de novembro a 5 de dezembro, deve ser tão única quanto a primeira.

O projeto, que subverte até mesmo o modelo de transmissões ao vivo de peças adotado na quarentena, também é um comentário sobre a relação que o público estabelece hoje com os reality shows. Em 2020, o formato sofreu um novo boom na TV e no streaming, conquistando ainda mais fãs e, proporcionalmente, críticos.

''O ser humano é naturalmente curioso. Como sociedade, já descobrimos coisas horrorosas, mas também fomos capazes de inventar o piano, dominar o fogo. Como espécie, a gente tem esses dois lados. Em termos de experiência, os realities de TV não trazem novidade. São feitos para entreter. Nosso reality trafega pelo lugar do entretenimento, mas também critica o pensamento que ele perpetua'', afirma. 

EXREALITY 

Projeto da ExCompanhia de Teatro. Com Bárbara Salomé, Johnnas Oliva e Thiago Andreuccetti. A partir desta sexta-feira (6) até o próximo dia 14. A segunda apresentação ocorre de 27 de novembro a 5 de dezembro. Ingressos a partir de R$ 20, com 20% da bilheteria doado a instituições de apoio à classe artística. Vendas pelo site www.tudus.com.br. Mais informações: www.exreality.com.br.

Ex-casal

Jorge Bispo/Divulgação
Gustavo Vaz, ao lado de Débora Falabella, criou websérie Se eu estivesse aí (foto: Jorge Bispo/Divulgação)

ExReality não é o primeira experiência transmídia que Gustavo Vaz realiza na quarentena. Ao lado de Débora Falabella, ele criou Se eu estivesse aí, websérie imersiva na qual o público experimenta, em primeira pessoa, episódios com aproximadamente seis minutos, gravados com áudio 3D. A trama traz um casal recém-separado e isolado pela pandemia global da COVID-19 que tenta resolver o fim de seu relacionamento por meio de mensagens de áudio no WhatsApp. A imaginação dos personagens transforma cada mensagem em um encontro impossível com o outro que não existe. O projeto foi lançado pelo Gshow, da Rede Globo, e no perfil do Instagram da ExCompanhia de Teatro.