Sem previsão de volta do teatro, cresce oferta de peças on-line 

Embora avaliem que espetáculo sem plateia não é teatro, artistas aderem ao modelo virtual como solução temporária na pandemia

Pedro Galvão 07/10/2020 04:00
Victor Iemini/Divulgação
Maria Helena Chira e Fernanda Nobre interpretam a mesma personagem em 'A desumanização' (foto: Victor Iemini/Divulgação)

Entre todas as atividades artísticas, o teatro certamente foi uma das mais afetadas pela pandemia do novo coronavírus. Por sua dinâmica necessariamente aglomerativa para o público, somada à interação corporal entre atores e atrizes em espaço fechado, peças foram suspensas desde março passado, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou a pandemia

Após meses de incertezas, angústias, mas também de criação e inspiração, espetáculos encontram um caminho de transição, voltando aos palcos sem a presença do público e reencontrando a audiência via internet. É o que propõem iniciativas como o festival #EmCasaComOSesc, que nesta quarta-feira (7), às 21h, exibe A desumanização, com Fernanda Nobre e Maria Helena Chira.

Dirigida por José Roberto Jardim, a peça é uma adaptação do livro homônimo do escritor português Valter Hugo Mãe, que esteve presente em uma das exibições da montagem no ano passado, quando o espetáculo estreou.

Em cena, as duas atrizes fazem uma interpretação espelhada da protagonista Halldora, que, depois de deixar sua cidade natal, na Islândia, vive um conflito existencial, atormentada pela morte da irmã gêmea e outras questões íntimas. 

As atrizes se apresentam ao vivo, do teatro Sesc Santana, em São Paulo, mas sem a platéia in loco. “Nosso trabalho é completamente feito na presença, mas descobrimos um novo lugar de criação com a tecnologia, de pensar dramaturgia, narrativas, em que fosse possível apresentar algo on-line”, diz Fernanda Nobre.

“Não é cinema, não é TV, não é performance, mas uma nova linguagem que surgiu e dentro da qual tivemos que criar enquanto ela surgia”, afirma a atriz. Fernanda conta que acompanhou o modo como outras experiências teatrais se adaptaram às restrições provocadas pela pandemia. 

“A cada semana de isolamento, a linguagem ganhava saltos, força. E ela crescia na forma de transmissão e na criação. Por um lado, conseguimos colocar para fora nossos impulsos artísticos, nossas angústias do isolamento. Então descobrimos uma maneira de fazer pela internet, mas nada se compara com o palco”, afirma.

Para Maria Helena Chira, apresentar-se para o público, mas sem a presença dele é algo que também causa estranheza. Contudo, a atriz entende como uma “transição” importante.  “A sensação dessa transmissão ao vivo, sem a referência do público, que é o grande diferencial do teatro, torna muito forte uma peça num teatro vazio, mesmo sabendo que muito mais gente estará vendo pela internet. É um momento de transição importante, para não esquecermos do que está acontecendo. Um momento único, que nos dá noção da nossa responsabilidade como artista e de que uma hora será possível voltar a encontrar o público”, afirma. 

Luiza Palhares/Divulgação
Teuda Bara interage de sua casa com o autor de sua biografia e as diretoras da versão para o palco (foto: Luiza Palhares/Divulgação)


RETORNO

A sequência da programação do Teatro #EmCasaComSesc, nessa nova fase de retorno dos artistas aos palcos, ainda terá outro espetáculo ao vivo nesta semana. Na sexta-feira (9), direto do Sesc Ipiranga, também na capital paulista, será transmitido o espetáculo Lugar nenhum,  da Companhia do Latão. 

Inspirada na obra do autor russo Anton Tchekhov (1860-1904) e escrita e dirigida por Sérgio de Carvalho, a peça propõe reflexão atual sobre aspectos que acompanham a sociedade brasileira desde o período colonial, como exploração do trabalho, racismo e violência institucional. 

Antes desse novo momento nos palcos, o projeto #EmCasaComOSesc apresentou 81 espetáculos virtuais, a maioria monólogos, com artistas encenando de suas próprias casas. Danilo Miranda, diretor do Sesc-SP, destaca que o retorno aos palcos é uma reaproximação “de onde a cena acontece em sua forma mais tradicional”, além de garantir vantagens de infraestrutura ao espetáculo, como iluminação, espaço e cenário adequados, assim como a possibilidade de haver diálogos e interação entre artistas, dentro dos protocolos sanitários. 

“É uma segunda fase, uma fase mais próxima da realidade do teatro. Nesse período de pandemia, desde abril, iniciamos apresentações e algumas manifestações artísticas, primeiro com música, depois teatro e dança, fizemos uma ampla programação virtual, que está no ar, que é nossa maneira de estar em contato com o público realizando nossa perspectiva de trabalho de maneira plena. Estamos satisfeitos, apesar do clima de perda e de luto da pandemia, que é terrível, é o pano de fundo para tudo que acontece no momento”, diz Miranda. 

O diretor do Sesc tem a perspectiva de uma retomada gradual à normalidade. “Temos muita esperança de que ela aconteça de maneira cada vez mais completa. No palco se resolve mais facilmente que a volta da plateia, para a qual será necessário mais um tempo”, afirma. 

Mesmo nos casos de quem ainda não pôde retornar aos palcos, as plataformas virtuais representam uma possibilidade importante de reencontrar a atividade artística depois de alguns meses. 

A mineira Teuda Bara, uma das fundadoras do Galpão, é uma das atrações do Festival Arte como Respiro – Edição Cênicas, realizado virtualmente nesta semana pelo Itaú Cultural. A programação apresentará Luta live, versão virtual de Luta, peça que estreou em 2019. 

Trata-se de uma adaptação do livro Comunista demais para ser chacrete, biografia da atriz publicada em 2016 por João Santos, que assina o texto da peça e a direção, ao lado de Cléo Magalhães e Marina Viana. 

Em Luta live, o trio interage com Teuda em uma transmissão virtual, que inclui gravações da exibição da peça durante a última Campanha de Popularização do Teatro e da Dança.

Sob a premissa de que “a luta continua, mesmo que a distância”, Teuda diz que a proposta foi desafiadora. “Uma coisa é ir para o palco fazer espetáculo, dar risada, bater papo com o público, abraçar, tirar foto depois da peça, é maravilhoso. Agora ficamos nesse isolamento dentro de um quarto, dentro de casa, mas é isso. Pensamos nesse ensaio virtual, cada um na sua casa, e fizemos. Seguimos com a luta, a mudança é não estar no palco, o que já é muito diferente.”

Segundo a atriz, “adaptar-se a um quadradinho na tela é muito difícil, é um processo criativo que dá um nó na cabeça. Para o cinema, a câmara já está lá, e o diretor fala o que é preciso fazer. Nesse caso, a luz, o enquadramento, fica tudo por nossa conta”. 

Luiza Palhares/Divulgação
Montagem da companhia belo-horizontina Quatroloscinco (foto: Luiza Palhares/Divulgação)

QUATROLOSCINCO RELÊ SUAS PEÇAS

O grupo belo-horizontino Quatroloscinco – Teatro do Comum lança nesta quinta-feira (8) o segundo episódio do projeto Quatroloscinco em Leitura, no qual os atores da companhia fazem uma releitura, em gravação de vídeo, de trechos de alguns de seus espetáculos, propondo novos olhares a partir da situação do isolamento e da ausência de encontros. A exibição será no canal do Memorial Minas Vale no YouTube, a partir das 19h30. 


José de Holanda/Divulgação
Integrantes da banda paulistana Bixiga 70 (foto: José de Holanda/Divulgação)

SÉRGIO CARDOSO FESTEJA 40 ANOS

Para festejar seus 40 anos de fundação, o Teatro Sérgio Cardoso, localizado no bairro do Bixiga, em São Paulo, oferece programação gratuita de dança, teatro e música, desta sexta-feira (9) até a próxima terça, 13 de outubro, data do aniversário. O músico e poeta Lirinha, acompanhado pelo também músico João Leão, neto do ator Sérgio Cardoso, abre a programação, que inclui shows de Nando Reis, Bixiga 70, Fafá de Belém, além de apresentação de dois números musicais de Claudia Raia, no dia 13. Tudo poderá ser visto pelo site, no qual a programação detalhada também está disponível.

MAIS SOBRE TEATRO