Grupo Galpão abre as portas para o artista que vive o isolamento

Companhia lança projeto que estimula profissionais das artes cênicas a refletirem sobre seu ofício. Edital prevê pagamento de cachê agora e estreia de peças quando a quarentena acabar

Fernanda Gomes* 24/05/2020 09:50
Emi Hoshi/divulgação
(foto: Emi Hoshi/divulgação)

O Centro de Pesquisa e Memória do Galpão Cine Horto criou o projeto Teatro e Isolamento para ajudar artistas a criarem neste período de dificuldades impostas pelo confinamento social e o cancelamento de apresentações. A ideia é reunir textos reflexivos, dos mais variados gêneros, sobre as consequências da pandemia sobre o teatro e os profissionais dedicados a ele.

“Nas redes sociais, os artistas já estão refletindo muito sobre o teatro e o isolamento. Têm feito isso informalmente, mas, a partir do momento em que os convidamos a escrever, acho que isso ajuda a organizar os pensamentos”, afirma Marcos Coletta, coordenador do centro de pesquisa e um dos responsáveis pelo projeto.

Também é importante levar a reflexão sobre a atividade teatral ao público, observa Coletta. “Não são artigos acadêmicos, mas textos pessoais, reflexões, como se fossem crônicas. Isso ativa um pouco o espírito do artista para pôr no papel o que está sentindo”, acredita o ator, dramaturgo e pesquisador.

A pandemia traz muita apreensão para os criadores, lembra ele. “Produzir ajuda esse artista a não pirar, a não cair num poço de angústia sem fim”, acredita Marcos. O projeto começou na última segunda-feira (18), recebendo textos postados semanalmente no site Primeiro Sinal, ligado ao centro de pesquisa do Galpão.

Cynthia Paulino, Giordano Castro, Raysner de Paula, Preto Amparo, Sérgio Abritta e David Maurity são alguns dos convidados. “Não há inscrição formal. Qualquer pessoa que tenha interesse pode entrar em contato com a gente por e-mail ou pelas redes sociais do grupo. É um espaço aberto”, explica Coletta.

O projeto Teatro e Isolamento, que vai durar até o final da quarentena, é uma das propostas on-line do Galpão Cine Horto. “Contamos com um acervo físico muito grande, mas não tínhamos grande entrada na internet. De certa forma, já estávamos pensando em investir no conteúdo digital. Com essa coisa da pandemia, não tivemos outra alternativa”, conta o dramaturgo.

O grupo lançou também o projeto Papo de Quinta, em que artistas fazem lives para discutir temas ligados ao teatro. Elas são realizadas às quintas-feiras no Instagram do Galpão Cine Horto.

Ao analisar o fenômeno das lives, que se difundiram durante o isolamento social, Coletta pondera: “É uma forma de você não ficar imobilizado e parado, de tentar criar outras alternativas. É interessante, mas, ao mesmo tempo, não é teatro. É outra coisa.”

O ator e dramaturgo deixa claro que peça filmada e exibida não é teatro. “Atores vêm se aventurando mais nessa forma digital, não que seja melhor ou pior, mas é uma outra forma de arte. Teatro é ator e público compartilhando um momento ali, juntos”, defende.

EDITAL 

Para ajudar artistas e grupos sem trabalho, que enfrentam dificuldades financeiras durante a quarentena, o Galpão lançou o edital Reencontro Mostra de Teatro de BH.

As apresentações ficarão em cartaz depois do fim do isolamento, mas os cachês, entre R$ 1,2 mil e R$ 3,2 mil, serão pagos antecipadamente.

“Os valores não são muito altos, é um projeto que pensamos de forma emergencial. Fizemos um certo malabarismo para gerar algum socorro para essas pessoas”, conta Marcos.

Serão selecionados de 12 a 15 espetáculos. As inscrições podem ser feitas até 31 de maio no site do grupo. Os resultados estão previstos para o início de junho.

* Estagiária sob supervisão da editora-assistente Ângela Faria









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