Versão teatral de Dogville discute a cultura do ódio e da intolerância

Protagonizada por Mel Lisboa, peça leva recursos do cinema para o palco. Dirigido por Zé Henrique de Paula, espetáculo estreia nesta quinta (28), no CCBB

Pedro Galvao - Estado de Minas 27/11/2019 06:00
Ale Catan/divulgação
Mel Lisboa diz que a peça Dogville dialoga com o atual momento da história do Brasil (foto: Ale Catan/divulgação)
Em 2003, o cineasta dinamarquês Lars von Trier surpreendeu o mundo ao apostar na estética teatral para filmar Dogville. No filme de quase três horas, o único cenário é o galpão em que foi montada a vila onde a história é ambientada. As casas eram desenhadas com giz no chão. Em 2019, o diretor paulistano Zé Henrique de Paula resgatou a trama nos palcos brasileiros, mas invertendo a linguagem. Com elementos cinematográficos, o espetáculo que tem Mel Lisboa no papel principal chega nesta quinta-feira (28) ao CCBB, em Belo Horizonte, onde ficará em cartaz até dezembro.

“Assim que começamos a montar a peça, sempre me perguntavam se teria o desenho das casas no chão. Comecei a perceber um recall muito grande do filme na cabeça das pessoas, que se lembravam mais daquela estética do que da trama em si. Vimos, então, que era necessário fugir disso, invertendo o eixo da linguagem. Se o filme parece uma peça filmada, procuramos fazer com que, no teatro, o espectador tenha acesso a elementos cinematográficos, mas sabendo que está assistindo a uma peça”, explica Zé Henrique.
Com poucos elementos cenográficos, a montagem inclui projeções de vídeo com imagens em tempo real e também gravadas. Closes e outras perspectivas visuais, além da atuação do elenco, são oferecidos ao público. A trama é a mesma do filme. A misteriosa Grace (Mel Lisboa) chega ao pequeno vilarejo norte-americano de Dogville à procura de abrigo. Inicialmente acolhida, logo se vê submetida a uma rotina de abusos, humilhações e violências por parte da comunidade.

Trabalhando questões como ódio, intolerância e as perversidades de que o ser humano é capaz para defender os direitos que julga possuir, o espetáculo se faz ainda mais relevante no contexto atual. “Como a peça discute a moral e o que é essa palavra hoje em dia, dependendo da pauta dos noticiários da semana na política, na economia e no aspecto social, ela ganha novos contornos, novas luzes. É a prova cabal de sua atualidade”, comenta o diretor.

Mel Lisboa destaca o potencial das reflexões propostas por Dogville. “Assisti ao filme em 2003 e já foi um choque, ainda mais quando se conhece a obra do Lars von Trier. Muito provocador, ele coloca esse lugar da mesquinhez, o lado pérfido do ser humano. Durante a peça, a plateia fica aliviada e tensa ao mesmo tempo. Por ser uma montagem brasileira, em português, com tudo o que vivemos no Brasil e no mundo, isso chega de forma mais forte ainda. Tem gente que chora, gente que adora. Não é um espetáculo que se encerra e você diz: ‘Vamos comer uma pizza?’. Ele mexe com as pessoas, convida ao debate. Não tem como ignorar o que acabou de acontecer em cena”, afirma atriz, que interpreta a personagem que foi de Nicole Kidman no cinema.

DOGVILLE
CCBB. Praça da Liberdade, 450, Funcionários. De quinta a segunda-feira, às 20h. Até 23 de dezembro. R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada). Vendas on-line: www.eventim.com.br. Classificação: 16 anos. Informações: (31) 3431-9400 e 3431-9503.

O santo rebelde

Até o fim de dezembro, ficará em cartaz na cidade a versão teatral de um dos personagens mais populares do catolicismo. Francesco, que rendeu o Nobel de Literatura ao italiano Dario Fo, estreia nesta quinta (28), no CCBB, em versão dirigida por Neyde Veneziano e estrelada por Paulo Goulart Filho. Em tom bem-humorado, o monólogo reconta a história de São Francisco de Assis.

“A peça não o trata como santo, mas como o grande homem de paz que ele era”, define Neyde Veneziano, que fez pós-doutorado sobre Dario Fo, em Milão, e conheceu o espetáculo lançado por ele em 1999. A adaptação brasileira foi atualizada pelo próprio escritor, que morreu em 2016. “Ele foi modificando o texto. A grande alteração final veio quando o papa Francisco assumiu. Dario muda um pouco sua visão, que era de muita crítica e ataque à Igreja, com um prólogo ao papa que, pela primeira vez na história, teve a coragem de se chamar Francisco”, explica.

O texto de Fo é baseado nas histórias orais reveladas por companheiros de Francesco, que viveu no século 13. “A Igreja nunca aceitou a imagem do santo que não fazia milagres e era uma espécie de Robin Hood. São histórias dele antes de se dedicar à pobreza, como a vez em que foi a Roma com vestes refinadas e trocou de roupa com os mendigos. Fo aborda esse lado do personagem, próximo de um artista de rua da Idade Média. Com bom humor, conta a trajetória de Francesco em novo percurso em direção a Deus, diferente do caminho imposto pela Igreja.” Neyde Veneziano ressalta, contudo, que o enredo “é extremamente respeitoso com São Francisco”. (PG)

FRANCESCO
CCBB. Praça da Liberdade, 450, Funcionários. De quinta a segunda-feira, às 19h. Até 23 de dezembro.  R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada). Vendas on-line: www.eventim.com.br. Classificação: 16 anos. Informações: (31) 3431-9400 e 3431-9503.

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