Festival Artes Vertentes em Tiradentes propõe uma reflexão sobre o poder da palavra

Oitava edição do evento acontece de quinta (12) ao dia 22 e recebe convidados como a companhia francesa de teatro Zaï e a escritora ruandense Scholastique Mukasonga

por Joana Gontijo 10/09/2019 06:00
Victor Charleville/Divulgação
A companhia francesa Zaï recorre a diversas técnicas teatrais para contar a história de garoto abandonado que foi viver na floresta em 'Victor, o menino selvagem' (foto: Victor Charleville/Divulgação)
Celebrar a arte, em suas diferentes linguagens, para pensar a contemporaneidade é um dos propósitos do Festival Artes Vertentes, que aporta em Tiradentes a partir desta quinta-feira (12) e vai até o próximo dia 22.
 
O evento chega à sua oitava edição recebendo artistas brasileiros e estrangeiros para ocupar as edificações históricas da cidade com uma programação que inclui atrações de teatro, cinema, música, literatura e artes visuais, tudo amarrado por um eixo curatorial que este ano aborda a comunicação na sociedade moderna.
“A intenção é ser um festival que não só evidencie uma produção de alto nível, mas promova o diálogo entre diversas formas de expressão artística, abrindo o debate por meio de um tema, que é específico em cada edição. A ideia é instigar indagações e a reflexão sobre características importantes da atualidade, e agora falamos sobre a comunicação em seus variados aspectos”, diz o pianista e diretor artístico Gustavo Carvalho, que assina a curadoria do evento.

A premissa desta edição está assentada numa frase que oferece as bases para elucidar o tema, por meio de  uma perspectiva poética – “O último giro antes do silêncio eterno”.
 
“Esta é a última frase que a marinha francesa enviou por código morse, em 1997, antes que ele fosse desativado da linguagem na comunicação naval. Escolhemos a frase para fazer uma provocação, partindo de uma forma de comunicação já obsoleta.
 
O intuito é ponderar sobre os meios de comunicação, que, hoje, se deparam com tantas barreiras, muitas vezes até aparecendo em um ponto de vista de perversão”, afirma o curador.

Para o pianista, hoje é tudo tão intenso que o homem não consegue mais se comunicar simplesmente com a palavra. “A verdade não tem mais poder e valor. Apesar de toda tecnologia e rapidez na fluidez da comunicação, ela surge completamente desacompanhada de autenticidade, sinceridade e verdade”, avalia.

werner herzog filmproduktion/divulgação
O país do silêncio e da escuridão' (1971), longa de Werner Herzog sobre uma mulher surda e cega, é uma das atrações da programação cinematográfica (foto: werner herzog filmproduktion/divulgação)

Gustavo Carvalho lembra que, não por acaso, um dos termos recentemente inseridos no dicionário é “pós-verdade”, uma sugestão de estudiosos da Universidade de Oxford, na Inglaterra. “É como se a sociedade não necessitasse mais da verdade. A informação é lançada pelas mídias e, no segundo seguinte, é desmentida, é esquecida. Somos diariamente inundados por não-verdades, por pós-verdades”, diz.
 
Na lista de discussão, além da pós-verdade e da falência da palavra como modo de comunicação, as temáticas abordadas incluem a voz feminina tida como a primeira forma de comunicação vivenciada pelo ser humano, ainda dentro do útero materno, a comunicação além da palavra e as vozes apagadas na sociedade.

Um dos destaques da programação é a peça Victor, o menino selvagem, da Companhia Zaï (França). Trata-se da encanação da história verídica de um menino, na França do século 19, abandonado pelos pais e que acaba indo viver na floresta. Ele tem, então, que sobreviver e aprender a se comunicar em um ambiente totalmente hostil.
 
“Quando é encontrado, todos o tratam como um selvagem. Ele não consegue mais se comunicar com a mesma sociedade que o abandonou”, diz o curador. A peça nasceu do desejo de um mímico, um ilustrador e um músico.
 
"Nossas inspirações vieram tanto de experiências individuais quanto de inspirações complementares, tais como a animação, histórias infantis, artes visuais, o cinema mudo, a música dos filmes de aventura, música clássica e jazz, gestos burlescos, gestos animais e vegetais.
 
Na peça, as linguagens estão a serviço da história. O espectador quer viajar por meio do teatro. Quer estremecer, se emocionar, rir, acreditar", pontua o diretor de movimento, Arnaud Préchac. Outras atrações na área de artes cênicas são os espetáculos A ira de Narciso e Agora, este último realizado por crianças e adultos de Tiradentes.

A escritora ruandesa Scholastique Mukasonga comparece com o relato a respeito de sua relação com a mãe, uma comunicação que terminou por fazê-la resistir ao genocídio em Ruanda, na década de 1990.
 
Pela riqueza da oralidade, a mãe de Scholastique fez com que ela não perdesse a crença na humanidade. Foi essa experiência que a escritora contou em A mulher de pés descalços, do qual fará a leitura de alguns trechos. Ela apresenta também seu primeiro romance, Nossa Senhora do Nilo.

O festival recebe o poeta carioca André Capilé, que fará performances literárias com Guilherme Gontijo Flores e também com Ricardo Domeneck, Angélica Freitas e Deborah Castro. Brasileiro radicado em Berlim, Domeneck retorna ao festival para lançar Odes a Maximin e Doze cartas e ministra oficina de literatura.

"São várias participações este ano. Há uma conversa com a poeta baiana Lívia Natália, uma leitura ao lado de colegas, como André Capilé, e a performance com Angélica Freitas. Estamos planejando algo simples e delicado", diz Domeneck. Para ele, o tema do festival foi bastante inspirador. "Fui levado a escrever uma série nova de poemas, tentar coisas que não faço com frequência em meu trabalho. Talvez minha trajetória seja isso: uma caminhada pela textualidade. Acredito na arte que pertence a seu tempo."
 
Mac Adams, nome das artes visuais, aborda a interação entre o espectador e a obra de arte. O premiado artista americano é um dos fundadores do Arte Narrativa, movimento artístico surgido nos Estados Unidos na década de 1970. Com nove dípticos da série Mistérios, sua exposição ocupa o Centro Cultural Yves Alves.

Parte pouco conhecida da obra do artista visual Carybé também integra as exposições do festival, com um conjunto de 20 litografias que concebeu em participação no filme O Cangaceiro, de Lima Barreto, em 1956. Artista sonoro, músico e escultor, o carioca Ricardo Siri é outro convidado.

O festival contempla ainda a produção do artista Arlindo Oliveira da Silva e do jovem artista visual mineiro Mar de Paula, este exibindo trabalhos realizados a partir de uma residência artística no Museu Bispo do Rosário, no Rio de Janeiro.
 
Walter Craveiro/Divulgação
A escritora ruandense Scholastique Mukasonga lerá trechos de seus livros 'A mulher de pés descalços' e 'Nossa Senhora do Nilo' (foto: Walter Craveiro/Divulgação )
"É impossível desconectar vida e arte, é inerentemente humano estetizar o mundo. Os artistas emprestam voz para narrar acontecimentos. O papel da arte está justamente em desanuviar tempos sombrios. Jogar luz em questões que não foram superadas ou curadas. É a partir de um olhar vertiginoso que podemos investigar as subjetividades que pulsam em nós e nos outros e conseguir construir caminhos para fugir da barbárie que teima em se aproximar", diz Mar de Paula.

Já a diretora, ilustradora e animadora russa Svetlana Fillippova apresenta O amor de Mitia, seu mais recente filme, e mais quatro títulos de sua autoria. Svetlana tematiza a elaboração da voz feminina, a partir da memória que carrega da avó. Será a primeira vez que apresenta sua história em forma de retrospectiva. Na série presente em Tiradentes, a artista realiza desenhos por meio da manipulação de borra de café. Ela também ministra oficina de animação e expõe ilustrações.

"Acho que arte existe para um consolo. É impossível alcançar na arte uma verdade ou uma beleza absolutas. Sempre há outra etapa, ao lado da qual a beleza parece imperfeita. Mas a arte proporciona um ângulo, mesmo que por um breve período, através do qual a vida parece suportável e até bela. Saio na rua, após uma exposição ou um filme, e olho para tudo com olhos diferentes. Se algo me parece diferente, então, nesse filme ou nessa exposição, havia alguma coisa verdadeira que mudou a minha percepção de vida. Depois, já volto para o meu olhar, a minha vida, mas esta experiência fica comigo para sempre", diz Svetlana.

CONCERTOS

As igrejas barrocas são palco para 18 concertos de música clássica, contemplando desde obras do século 12 até estreias mundiais. A abertura fica por conta do Quinteto de Sopros da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, que executa peças de compositores brasileiros e europeus. 

 

A seção musical recebe a violoncelista Kristina Blaumane, que, nascida na Letônia, se apresenta pela primeira vez no Brasil. No Artes Vertentes, ela interpreta obras-primas do repertório camerístico.


No concerto Arte (des)ge(ne)rada, a soprano brasileira Eliane Coelho revisita canções de Erich Korngold, Arnold Scönberg e Gustav Mahler. Com interpretação do pianista russo Jacob Katsnelson e narração de Ricardo Domeneck, será a vez do ciclo de Viktor Ullmann. Em outra série de concertos, o Correspondência entre Robert e Clara remete à correspondência amorosa mantida entre Clara e Robert Schumann, abarcando ainda compositores próximos ao casal, como Johannes Brahms e Felix Mendelssohn.

Na cinema, uma homenagem ao 120º aniversário de nascimento do cineasta brasileiro Glauber Rocha (1939-1981). Na grade cinematográfica estão ainda os filmes Amor, de Roberto Rosselini, e o clássico O garoto selvagem, de François Truffaut. Entre os documentários,  O país do silêncio e da escuridão (1971), de Werner Herzog, além de filmes para a criançada.

O festival não se desenrola apenas nos dias da agenda oficial. Durante o ano, são promovidas oficinas de arte voltadas para as crianças. O evento promove também residências artísticas. Nas últimas edições, recebeu 250 artistas originários de 21 países, com uma média de público estimada em 5 mil pessoas a cada ano. Neste ano, serão 40 artistas de 10 países.

Gustavo Carvalho é nascido em Belo Horizonte, tem 37 anos e toca piano desde os 9. Aos 14, foi concluir os estudos na Europa, onde se formou como pianista. Foi lá que teve contato com vários festivais culturais e identificou uma lacuna desse tipo de evento no Brasil. Nasceu assim o Artes Vertentes.
 
“O evento é uma maneira de contribuir com o enriquecimento do cenário cultural em Minas Gerais. Conheço Tiradentes desde os anos 1980. É um lugar que me liga à infância, perfeito para receber o festival. Não se trata apenas dos espetáculos, mas da possibilidade imediata de encontro entre os artistas e o público”, diz.

Festival Artes Vertentes
De 12 a 22 de setembro de 2019. Em Tiradentes, Minas Gerais. Mais informações e programação completa: www.artesvertentes.com 

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