Peça 'Nastácia', que estreia no CCBB, denuncia a opressão da mulher

Adaptação de O idiota tem protagonista feminina e convida o público a participar do leilão da concubina de um homem poderoso

por Pedro Galvão 09/08/2019 08:00
Cao Guimarães/Divulgação
(foto: Cao Guimarães/Divulgação)

Nastácia Filíppovna é personagem de O idiota, romance de Dostoiévski centrado no príncipe Míchkin. A bela órfã, desde a adolescência, é abusada física e moralmente por homens que controlam sua vida, ignorando suas escolhas. Essa violência ainda é realidade no Brasil, um século e meio depois do lançamento do livro. Movida pelo desejo de uma sociedade justa para as mulheres e inspirada na criatividade do autor russo, a atriz Flávia Pyramo idealizou a peça Nastácia, que dá protagonismo feminino à adaptação do clássico da literatura.

O espetáculo, que estreia nesta sexta-feira (9), no CCBB, é estrelado por Flávia, que se diz “arrebatada” pela personagem desde seu primeiro contato com O idiota. O projeto surgiu há seis anos, mas só foi possível agora, época considerada oportuna pela atriz. “É impressionante como o feminicídio tem aumentado no Brasil, é um número gigante. A peça vem no momento em que precisamos falar sobre essa questão”, diz. Em cena está um recorte do romance – na noite de seu aniversário, Nastácia é leiloada por Totski, homem poderoso que fez dela, desde jovem, sua concubina. Toda a narrativa mostrada no palco se passa nessa fatídica noite.

“A personagem é muito forte dramaturgicamente. Muito corajosa, precursora em sua época pela altivez, por quebrar regras. Penso nesse ser humano como a mulher de hoje. Ela vive num mundo que tem prazer com a desonra, num círculo vicioso, e não consegue se libertar. Muitas mulheres passam por isso e sucumbem, suicidam-se. Muitas vezes, não conseguem superar a culpa, a dor. Nastácia também morre. A gente deixa isso bem claro e entende a morte dela praticamente como suicídio. Porém, ela publica sua história. O fato de ela narrar e entregar essa experiência tem a ver com a nossa vontade de que esse final não se repita mais”, explica Flávia Pyramo.

Na concepção da peça, o emprego da primeira pessoa no plural evidencia a coletividade. Logo de início, a atriz convidou Miwa Yanagizawa para dirigi-la. Pedro Brício assina a adaptação. Chico Pelúcio, integrante do Grupo Galpão, faz o papel de Totski. Odilon Esteves interpreta Gánia, pretendente de Nastácia. A montagem contou com consultoria teórica de Paulo Bezerra e Flávio Ricardo Vassoler, direção de movimento de Tuca Pinheiro e iluminação de Rodrigo Marçal.

CONFIANÇA A escolha de Miwa Yanagizawa se deu pela “confiança no olhar teatral” da diretora, que compartilha suas ideias sobre a adaptação, explica Flávia. “Essa montagem fala de um problema extremamente grave. Ao longo do processo, fomos nos engajando mais e nos aproximando dessa tragédia diária e muito ancestral”, observa a diretora. “O que a gente propõe é convidar o espectador a estar naquela festa (de aniversário de Nastácia) como testemunha e parte da sociedade, responsável por ver e não se cegar ou naturalizar essas questões. A sociedade precisa se transformar. Usamos a arte como instrumento para que tais questões não continuem negligenciadas”, diz ela.

Responsável pelo texto, Pedro Brício incluiu o espectador nas cenas, como convidado da festa, mesclando papel e figuração. De acordo com ele, essa proposta se encaixa no caráter intimista do espetáculo, com apenas três atores em cena. Pedro diz que sua preocupação foi potencializar questões do livro que ainda reverberam hoje em dia.

“Em uma das cenas, é dito ‘estamos aqui em BH, quero dizer, em São Petersburgo do século 19’. Há esse jogo de estar no passado e no presente”, destaca o dramaturgo, descrevendo a adaptação como “fiel em sua transgressão da obra original”. Diálogos e monólogos foram mantidos.

Além da temática relacionada à condição da mulher, há a abordagem crítica a respeito do dinheiro, da ganância e do poder, presentes na obra original. “Há toda a complexidade emocional do Dostoiévski. Nunca um personagem é uma coisa só. A definição conceitual passa pela polifonia. Então, nunca se narra sob a perspectiva única de um personagem. São múltiplas facetas”, explica Pedro Brício.

INSTALAÇÃO O projeto em torno da obra de Dostoiévski transcende a linguagem teatral. Diretor de arte e figurino, o estilista Ronaldo Fraga assina a instalação, exibida no hall do Teatro II do CCBB. O tema está ligado à descrição dos rostos dos personagens de O idiota. O cineasta Cao Guimarães também ocupa aquele espaço com a videoarte relacionada a Nastácia e O idiota.

Com sessões de sexta a segunda-feira, Nastácia ficará em cartaz até 9 de setembro. A peça faz parte do programa Van ao Teatro, voltado para 160 moradores do Alto Vera Cruz, oferecendo ingressos gratuitos e disponibilizando transporte entre o bairro e o CCBB.

NASTÁCIA
Adaptação de O idiota, de Dostoiévski. Dramaturgia: Pedro Brício. Direção: Miwa Yanagizawa. Com Flávia Pyramo, Chico Pelúcio e Odilon Esteves. Em cartaz de sexta a segunda-feira, às 19h. Até 9 de setembro. CCBB. Praça da Liberdade, 450, Funcionários. Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada). Vendas on-line no site Eventim. Informações: (31) 3431-9400. Instalação de Ronaldo Fraga e videoarte de Cao Guimarães estão expostas no hall, de quarta a segunda-feira, das 10h às 17h.

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