Em BH, Gisele Fróes e Juliana Galdino contam os desafios do clássico teatral

As atrizes apresentam no CCBB BH as temporadas dos espetáculos Fedra e O imortal

por Mariana Peixoto 07/05/2019 08:00
EDÉSIO FERNANDES/EM/D.A PRESS
Juliana está em Fedra, enquanto Gisele encena o monólogo O imortal, baseado em conto de Borges, ambas no CCBB (foto: EDÉSIO FERNANDES/EM/D.A PRESS)


As atrizes Juliana Galdino, 45 anos, e Gisele Fróes, 54, estão trabalhando neste mês no mesmo endereço. Ambas cumprem temporadas dos espetáculos Fedra e O imortal, respectivamente, nos dois teatros do Centro Cultural Banco do Brasil. Muito dificilmente vão assistir à peça uma da outra, já que estão em cartaz nos mesmos dias (sexta a segunda).

Montagem da Cia. Club Noir, grupo que Juliana criou com o diretor Roberto Alvim, Fedra é uma encenação do texto clássico que trata do maior dos tabus: o amor incestuoso de uma mãe por seu filho. Já O imortal, dirigida pelos irmãos Adriano e Fernando Guimarães, é uma adaptação do conto homônimo do escritor Jorge Luis Borges. No monólogo, a personagem, ao encontrar um manuscrito, se depara com o relato autobiográfico de um soldado do Império Romano que partiu em busca da imortalidade.

A paulista Juliana e a carioca Gisele se conheceram pessoalmente na manhã de ontem. A convite do Estado de Minas, as atrizes bateram um papo sobre o teatro. Para além dos espetáculos que protagonizam, falaram de carreira, da temporada mineira e do ofício do ator. “Já que a proposta do teatro é estar vivo, tento me sentir acompanhada e afetada, e ver como afeto as pessoas”, disse Gisele. “O teatro tem que ser feito para a gente chegar em outro lugar”, completou Juliana.

O imortal nasceu de um conto de Borges e Fedra é uma tragédia clássica. Trabalhar com um texto brilhante faz toda a diferença?

Juliana Galdino – A diferença é abissal. No caso de alguns autores, você vai aprender muito mais com o texto do que o que você pode dar a ele. Certos textos têm o poder de síntese, de construir um universo que solicite mais do ator. São muito potentes, pois falam de um registro de humanidade, de afeto, que não são superficiais.

Gisele Fróes – Um grande texto te provoca. Para mim, a experiência do contato com O imortal é uma coisa sem fim. A cada vez que leio o conto é uma coisa abissal, um buraco negro riquíssimo. Só acho que um texto clássico não é necessariamente melhor ou pior.

Juliana – É que o Borges é um clássico do mundo contemporâneo. (No texto clássico) A diferença é uma estruturação meio mítica que alguns autores têm. Você não fala de coisas mundanas como se fossem coisas. Há um aspecto de sacralizar todas as coisas – o Borges tem muito disto e todos os clássicos são em cima disso. Tudo tem um olhar muito poético, que não é ‘cansado’ por causa da nossa existência. As palavras têm o peso de cada lugar, de cada tempo. Hoje a gente fala “eu te amo” com a mesma intensidade com que pedimos um pão na padaria.

Gisele, O imortal é seu primeiro monólogo. Como é estar sempre sozinha em cena?

Gisele – O que tento exercitar é justamente não estar sozinha. Já que a proposta é estar vivo lá (no teatro), tento me sentir acompanhada e afetada, e ver como afeto as pessoas. É um exercício. Agora, sinto falta de dividir a cena porque tenho muito prazer nisso. O tempo do jogo (cênico) sempre me enriquece de algum jeito.

Juliana, como é atuar com tantas pessoas em cena (Fedra traz no elenco sete atores)?


Juliana – Por mais que você esteja junto com outras pessoas, todo mundo mantém um solipsismo na hora de entrar em cena. Você fica com a mesma consciência que tem em um monólogo, tem que estar atento a tudo. No monólogo, este aspecto é reforçado porque ninguém vai te salvar.

Mesmo já tendo encenado outros clássicos, Fedra tem um peso grande, não?

Juliana – Eu não sabia que era tão pesado até o falecimento do Antunes (filho, diretor teatro morto na sexta-feira 2, com quem Juliana iniciou sua carreira). Naquele dia, entrei em cena e só falando sobre morte. Aí, você se dá conta de como você estava fazendo de maneira ridícula antes. Da mesma forma que a gente pode falar “eu te amo” com a mesma intensidade de pedir um pão na padaria, o luto é, hoje em dia, muito passageiro. A gente não sofre o luto porque sabe o quão desgastante é. A vida hoje em dia é muito atribulada, tudo pesa. Então, somos muito econômicos nas sensações. É muito raro quando a gente se confronta com uma situação em que é obrigado a tirar a máscara.

Com duas semanas em cartaz, como vocês estão vendo as temporadas em BH?

Juliana – Quero fazer sempre em BH, achei o máximo. Vem muita gente ao teatro, tem gente na segunda-feira!

Gisele – Essa ideia de unificar o Brasil é muito autoritária porque o Brasil é tão amplo, diverso. Foi muito diferente nas quatro cidades em que fiz O imortal. Não sei o que é, se é o tempo daqui, alguma coisa que aconteceu, a gente fala que esta é nossa melhor temporada. A gente fez uma escolha no teatro de falar: ‘estou aqui para contar uma história, ouve uma música comigo’. Tem três músicas na peça em que a gente não faz nada, só ouve. É quase (um convite) para dar um tempinho, ficar junto em algum lugar.

Mesmo fazendo alguns trabalhos em TV e cinema vocês são essencialmente atrizes de teatro. É uma opção?

Juliana – Tem até uma temporada que vai estrear de Rio heroes (série no canal Fox). Isto acontece quando alguém me desenterra em algum lugar para algum personagem específico. Eu não corro atrás, não sei fazer e não tenho interesse em descobrir. Me dá desespero. Gosto de gente fazendo.

Gisele – Para mim, cinema é dificílimo, mas faço com prazer.

Juliana – Tenho pânico.

Gisele – Eu também. Mas acho que tenho prazer em ter pânico. Quando a gente estreou em Brasília, eu ficava muito nervosa todos dias. Falei: ‘Que ideia inventar essa profissão. Quero fazer uma coisa que eu não fique nervosa’. E era nervosa com o coração na boca, histérica. Tenho uma história boa sobre isto: quando a gente estava quase estreando, liguei para o Adriano (Guimarães, um dos diretores). ‘Posso fazer com uma planta em cena? Porque se eu falar com a plateia e ela estiver distraída, vou querer mudar de assunto.’ Ele respondeu: ‘Gisele, não dá’.

Há sempre uma busca por bons papéis femininos no teatro?

Juliana – Eu já fiz dois masculinos. No Fedra, voltei a fazer uma mulher. Era uma peça que queria muito fazer. Mas acho que tem muito mais papel masculino do que feminino, pelo menos nas principais peças. Os novos autores estão escrevendo muito papel feminino. Mas acho que, independentemente de ser feminino ou masculino, acho que tem que existir papéis que te ‘puxem’.

Gisele – Em O imortal eu conto a história de um cara. Não sei se sou ele ou se sou ela.

Juliana – Hoje em dia, para além do gênero, tem que falar do homem no sentido ontológico. Sempre ponho um cego hipotético na minha plateia. Ele não está vendo, então ele tem que ver pela voz, pela alma, pela musicalidade, pela construção sensível das coisas. Teatro tem que ser feito para a gente chegar em outro lugar.


FEDRA
Espetáculo da Cia. Club Noir, com texto de Racine e direção e adaptação de Roberto Alvim. De sexta a segunda, às 20h, no Teatro 1 do Centro Cultural Banco do Brasil, Praça da Liberdade, 450, Funcionários, (31) 3431-9400. Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (estudantes, pessoas com deficiência, maiores de 60 anos e clientes Banco do Brasil). Até 20 de maio.

O IMORTAL

Monólogo com Gisele Fróes, baseado no conto homônimo de Jorge Luis Borges, com direção dos Irmãos Guimarães. De sexta a segunda, às 19h, no Teatro 2 do CCBB-BH. Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (estudantes, pessoas com deficiência, maiores de 60 anos e clientes Banco do Brasil). Até 27 de maio.

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