Odilon Esteves põe 'homem de bem' em xeque na peça 'O importado'

Ator interpreta executivo cristão e preconceituoso em seu novo espetáculo solo, que estreia nesta sexta (18), no CCBB

por Walter Felix 18/01/2019 08:55

Fernando Badharó/Divulgação
Espetáculo integra Campanha de Popularização do Teatro & Dança (foto: Fernando Badharó/Divulgação)

Novo espetáculo solo do ator Odilon Esteves, O importado entra em cartaz a partir desta sexta-feira (18) no CCBB, como parte da programação da Campanha de Popularização Teatro & Dança. Inspirada no conto O importado vermelho de Noé, de André Sant’Anna, a peça questiona a empatia no mundo contemporâneo e a vida restrita à produção e ao consumo.

Dentro de seu carro a caminho do aeroporto, um jovem executivo encara chuva e congestionamento às margens do Rio Tietê, em São Paulo. Enquanto as ideias fluem, ele se revela machista, racista e meritocrata, embora cristão.

“Muitas vezes, as pessoas não enxergam a união desses fatores como uma contradição. Ao contrário, ainda se veem como pessoas de bem, sem se dar conta do mal que fazem à sociedade com suas ações e a maneira como se inserem no mundo”, diz Odilon Esteves. “Se os valores cristãos fossem levados como norte, uma orientação real, talvez o personagem fosse um pouco mais preocupado com os outros”, observa.

FOUCAULT No início do projeto, Odilon buscava um texto que investigasse as aproximações entre a sanidade e a insanidade. “Comecei o solo querendo pensar a loucura do ponto de vista histórico, partindo de Foucault. Mas fui migrando para outra leitura, uma vez que usamos o termo ‘loucura’ com diversas conotações”, conta, referindo-se às ideias do pensador francês Michel Foucault (1926-1984).

“Quando li (o conto de André Sant’Anna) pela primeira vez, nos anos 2000, achei o personagem uma alegoria, quase um diálogo da literatura com o Teatro do Absurdo. É um homem que não muda de discurso, nada desestabiliza suas certezas”, comenta. O personagem mantém a postura individualista e gananciosa, recorrente na sociedade contemporânea, diz.

“A produtividade e o consumo prometem que estarei mais perto da felicidade. Acreditar nesse projeto, tão popular e amplamente aceito, é a grande loucura. Pensam que, ao vivê-lo, não há viés ideológico, pois essa é a norma, o certo – não é uma possibilidade, é a verdade. Errados e loucos são os que vivem de outro jeito”, observa Odilon.

O texto de André Sant’anna ganhou acréscimos. “Precisei de um prólogo para contextualizar o texto. O que o personagem fala é, na verdade, o fluxo de pensamentos, sem nenhum filtro sensor, diplomacia ou hipocrisia. Ele está em um espaço de absoluta intimidade”, explica.

Uma intervenção, no meio do espetáculo, aborda tema delicado: a discriminação racial. “Procurei a ajuda de artistas negros para pensar o preconceito do ponto de vista da negritude. Desse contato, entendi que precisaria de um contraponto dentro da própria peça. Não poderia correr o risco de naturalizar o racismo, permitindo uma leitura de elogio a ele, e não de crítica”, observa.

De acordo com o ator, o Brasil de hoje está retratado no conto de Sant’Anna, escrito na década de 1990. “O personagem é recorrente na história da humanidade. Mudam as circunstâncias, claro. Vemos essa presença continuamente, tanto que não preciso citar nomes. Eles estão nas madrugadas da televisão e com milhões de seguidores na internet”, conclui Odilon.

O IMPORTADO
Com Odilon Esteves. Direção: Fernando Badharó e Odilon Esteves. Em cartaz até 28 de janeiro. De sexta a segunda-feira, às 20h. Sessões com bate-papo amanhã (19), com o ator e professor Marcos Alexandre, e no dia 26, com a atriz e pesquisadora Soraya Martins. CCBB. Praça da Liberdade, 450, Funcionários. (31) 3431-9400. R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia), na bilheteria, e R$ 15 (postos do Sinparc e site vaaoteatromg.com.br).

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