Artistas lutam para valorizar a cultura popular nas celebrações do Natal

'Baile do Menino Deus', no Recife, e auto 'Os três reis magos do Oriente e o Erê', de Maurício Tizumba, em Minas Gerais, remetem às raízes do Brasil

por Débora Anunciação* 17/12/2018 10:30

Hans Manteufell/Divulgação
Nossa Senhora, São José e Jesus no auto 'Baile do Menino Deus' (foto: Hans Manteufell/Divulgação)

Teatro, dança e música para celebrar o nascimento de Jesus Cristo. A tradição começou com São Francisco de Assis, no século 13, ao reunir camponeses para atuar em volta de uma manjedoura, na Itália. Desde que o primeiro presépio vivo foi montado, representações assim passaram a ser feitas nas igrejas. Posteriormente, ganharam palcos e praças.

O auto de Natal é tradição popular brasileira. Pastoril, reisado, boi de reis, cavalo-marinho e folia de reis remetem ao nascimento de Jesus e à saga dos reis magos para chegar até ele. Porém, cada vez mais, essa tradição vem perdendo espaço para o imaginário cercado de neve, trenós, renas e shopping centers lotados.

“Nenhum presépio, rei mago, anjo, pastor, estrela... Nada. O Natal passa a ser festa social de troca de presentes mercadológica, sem qualquer relação com o sagrado e totalmente dissociada dos personagens tradicionais”, comenta o escritor e dramaturgo pernambucano Ronaldo Correia de Brito, diretor do auto Baile do Menino Deus – Uma brincadeira de Natal, que será encenado de 23 a 25 de dezembro, no Recife.

A brasilidade é a marca do Baile. “Não há qualquer intenção de falsificação. Não há neve de isopor e nem fingir frio em uma temporada de 45 graus”, afirma o escritor. Assinada por Antônio Madureira, a trilha sonora reúne 30 cantigas brasileiras, com destaque para frevo, maracatu, coco, caboclinho e ciranda – marcas registradas da cultura nordesina.

Encenada há 35 anos – os últimos 15 no Marco Zero, cartão-postal do Recife –, a parceria de Correia de Brito e Assis Lima já foi adaptada em diversas regiões do país. Em Minas, o Grupo Galpão usou canções do Baile do Menino Deus na trilha da peça A rua da amargura (1994).

Correia de Brito diz que sua criação já se tornou domínio público. “A gente se esmera o ano todo trabalhando, polindo e aprimorando, com muita sofisticação”, comenta.

 

PORTA No auto pernambucano, um grupo está à procura do local onde uma criança vai nascer. Ele se depara com janelas fechadas. A dramatização ocorre em frente a uma porta. Fazê-la se abrir é o desafio, o consentimento para a celebração do nascimento.

“É muito atual. Especialmente em tempos de tantas fronteiras fechadas, de recusa aos imigrantes e do impedimento a que as pessoas transponham fronteiras”, afirma Ronaldo Correia de Brito.

Dentro daquela casa estão José, Maria e o Menino Jesus. “É a revelação do nascimento, do sagrado. Neste momento, os reis chegam e a brincadeira se encaminha para as louvações. Isso é caríssimo não só à tradição cristã. É um tema arcaico demais, muito antigo, mas nem por isso deixa de ser moderno e até pós-moderno”, explica Brito. “Não perde nunca sua atualidade”, reforça.

O dramaturgo ressalta que a trama de seu Baile não pertence a qualquer religião. O Menino Deus é saudado por três reis magos: um branco, um negro, representado por um orixá, e o outro índio, um xamã. Para Brito, esse trio não cabe no contexto das religiões institucionalizadas. “Celebra-se o nascimento, o ato sagrado de nascer. E celebra-se o encontro do homem com o seu sagrado.”

A peça surgiu como uma brincadeira para os filhos pequenos de Ronaldo. “Eles eram criados em uma cidade onde quase nada mais existia do Natal no qual nós fomos criados e amávamos, cujas canções eu cantava para eles ouvirem”, lembra Ronaldo.

PRODUÇÃO Baile do Menino Deus é uma produção grandiosa, encenada ao ar livre num palco com 10m de altura. A estrutura remete ao teatro medieval, com direito a orquestra, coros adulto e infantil, bailarinos e atores. Durante três dias, cerca de 70 mil pessoas assistem à encenação dessa história ancestral.

“É um clima tão ordeiro quanto o da Missa do Galo, em Roma, mas com júbilo. As pessoas cantam, dançam, batem palmas, gritam. No fim, tem a aclamação”, explica Ronaldo. Transmitido ao vivo pelo Facebook, o espetáculo atraiu cerca de 400 mil visualizações on-line, em 2017.

BAILE DO MENINO DEUS
De 23 a 25 de dezembro, às 20h. Praça do Marco Zero, no Recife (PE). Direção: Ronaldo Correia de Brito. Entrada franca.

 

RESISTÊNCIA
O coreógrafo e diretor Rui Moreira destaca a importância de valorizar a cultura do povo. “Minas é muito intensa em relação às tradições e ao seu folclore. Essas tradições acabam ligadas à religiosidade, a um calendário de eventos populares”, lembra. Este mês, ele dirigiu Quebra nozes – Um auto natalino, apresentado por alunos do Centro de Formação Artística e Tecnológica (Cefart) do Palácio das Artes. O conto de fadas Quebra-nozes e o rei dos ratos foi adaptado para o contexto brasileiro. “Cada geração assume o desafio de passar as tradições para a próxima. Toda manifestação de arte tenta fazer com que as pessoas se lembrem, e os artistas acabam sendo um ponto de resistência”, acredita Rui.

 

Lenysson Cunha/Divulgação
Maurício Tizumba mantém a tradição das folias de reis (foto: Lenysson Cunha/Divulgação)
 

Luz contra a intolerância

Há seis anos, moradores da região de Lagoa Santa, na Grande BH, reúnem-se em uma mata próxima à Gruta da Lapinha para assistir a Os três reis magos do Oriente e o Erê. O auto foi criado pelo cantor, ator e percussionista mineiro Maurício Tizumba.
Ao cair da noite, o público segue Tizumba mata adentro, com lanternas nas mãos. Nos pontos de parada, ele conta histórias e toca música. Tudo começa com a descrição dos vários aspectos da estrela-guia. Os três reis magos são apresentados como astrônomos e o cantor destaca a importância de fazer o bem.

Na parada do silêncio, as lanternas são desligadas para que o público possa contemplar a luz das estrelas e dos vaga-lumes. No momento seguinte, Tizumba relembra a história dos reis magos, suas diferenças culturais e os objetivos em comum daquele trio. Por fim, o grupo depara com os manequins representando os pastores e a manjedoura. Chegou o momento da celebração final.

Maurício Tizumba conta que criou essa dramatização para discutir a intolerância “entre as vizinhanças”. “Quando cismei de fazer, era pensando nisso. Nós, da cultura popular, conhecemos essa intolerância, mas naquela época isso não estava tão à flor da pele”, revela. Nostálgico, ele relembra sua experiência, ainda na infância, seguindo grupos de folia de reis.

Se depender desse artista – profundo conhecedor dos tambores mineiros –, a tradição está mantida. Todos os anos, em Lagoa Santa, Tizumba visita residências acompanhando a folia de reis. “É preciso estar com o pé na raiz, mas com a cabeça ligada na parabólica. Você tem computador, mas um dia precisará voltar ao tambor e à raiz pra continuar caminhando. Não acredito que a tecnologia caminhe sem a raiz. Ela nasce da raiz”, avisa.  

OS TRÊS REIS MAGOS DO ORIENTE E O ERÊ
De 2 a 6 de janeiro, às 20h. Casa de Nadir Espaço Cultural. Rua João Francisco Avelar, 30, Lapinha, Lagoa Santa. Com Maurício Tizumba. Entrada franca.

 

* Estagiária sob supervisão da editora-assistente Ângela Faria

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