Prêmio Leda Maria Martins homenageia produção negra nas artes cênicas

Os artistas foram agraciados em 10 categorias, criadas a partir da pesquisa da professora que empresta o nome à premiação

por Márcia Maria Cruz 14/12/2018 14:27
Letícia Souza/Divulgação
As três homenageadas da noite: Marlene Silva, Leda Maria Martins e Conceição Evaristo (foto: Letícia Souza/Divulgação)
“Só eu que não dancei com Marlene Silva”. A frase foi dita, em tom de brincadeira, pela escritora Conceição Evaristo em resposta aos agradecimentos feitos por artistas negros à pioneira da dança afro no Brasil. Marlene Silva, Conceição Evaristo e a professora Leda Maria Martins formaram a santíssima trindade na entrega do Prêmio Leda Maria Martins, que ocorreu na quarta (12), no auditório do BDMG, em Lourdes, na região Centro Sul de Belo Horizonte.

 Entre os agraciados, muitos aprenderam dança com Marlene Silva, inclusive o dançarino Evandro Passos, que venceu na categoria ancestralidade, com o espetáculo O negro canta, realizado com Aruana Zamby. "É muita emoção ver Evandro receber o prêmio das mãos de Marlene", disse Leda.  

Em sua segunda edição, o prêmio foi criado para dar reconhecimento às produções feitas por artistas negros em dez categorias: encruzilhada, muriquinho, oralitude, corpo adereço, performance do tempo espiralar, lugar da memória, afrografia, cena em sombras, palco em negro e ancestralidade.

As categorias foram inspiradas na obra de Leda, professora da Universidade de Minas Gerais, uma das mais importantes pesquisadores da arte negra no Brasil. Os vencedores receberam troféu concebido pelo artista plástico Lúcio Ventania que definiu conceitualmente o trabalho: “a artista e o artista cênico negro conquistam espaço. O maior deles é a própria cabeça.” 

O tema desta edição foi escrevivência, conceito criado por Conceição Evaristo para definir a escrita literária que nasce da experiência. “Foi uma noite de muitas emoções e reencontros. O tema escrevivência foi exaltado tanto na seleção das montagens premiadas como nas falas das homenageadas, que relataram vivências de outros tempos tanto do campo pessoal como no campo das artes”, afirmou o idealizador e curador do prêmio Denilson Tourinho.

Os vencedores foram anunciados por Leda e os troféus, entregues por Conceição e Marlene. “Foi uma noite mágica. Os agraciados ficaram emocionados.  O prêmio reconhece o mérito tanto de artistas mais antigos quanto os das novas gerações. O prêmio dignifica a todos”, diz a homenageada.

O encontro com Conceição e Marlene também foi comemorado: “fiquei emocionada. São grandes artistas brasileiras, que são negras, que contribuem para as artes brasileiras, nos honram e dignificam por trajetórias que são referência para todos os brasileiros”, completou Leda. 

Além de ser reconhecimento da excelência dos trabalhos, o Prêmio permite a catalogação de trabalhos, no campo das artes cênicas, realizados por artistas negros. A partir desta edição, estão disponíveis no  endereço www.premioledamariamartins.com. “O site é espaço de referência e informação. Apresentamos as montagens com informações, sinopse e ficha técnica. Também há links com informações de festivais e mostras relacionados às artes cênicas.” 

A premiação foi permeada de testemunhos emocionados. Um deles foi de Lucênia Rezende, que recebeu o prêmio para a filha Priscila Rezende na categoria Performance do Tempo Espiralar. Ela lembrou que a filha, na infância, quando voltou da escola, relatou que os colegas não queriam pegar na mão dela por ela ser negra. Na ocasião, Lucênia disse a filha que ela deveria estudar e se tornar a melhor aluna da classe, o que ocorreu em todos os anos da formação da menina no ensino fundamental. “Lucênia fez uma fala consciente e educativa. Falou do processo educacional e do processo da filha se reconhecer como negra. Lembrou que Priscila não estava presente ao prêmio, porque estava viajando para se apresentar e que a filha roda o mundo inteiro por meio da arte”, diz Denilson. 

O Prêmio Leda Maria Martins dialoga com os projetos artísticos que buscam dar visibilidade para a arte concebida por negros, como a Segunda Preta e a Mostra Benjamin de Oliveira. “Ficou evidente como vários eventos que acontecem na cidade foram significativos para chegar a esse resultado”, afirmou Denilson. 

A premiação também é momento de festa e celebração. Os artistas chamam o prêmio, como demarcação de posição política e estética, de aquilombamento em referência aos territórios livres dos quilombos em que imperavam a diversidade e a coletividade. “O prêmio é o resultado do trabalho de vários profissionais”, afirma. Entre as parcerias, Denilson destaca a integração com as editoras Nandyala, Mazza e Javali – que cederam livros para os premiados. Outro destaque da noite foi o bufê com pratos inspirados na culinária afro-brasileira, pela Kitutu Gourmet. 

O evento contou com a presença da ex-ministra Nilma Lino Gomes, da deputada federal eleita Áurea Carolina (PSOL), da professora da Universidade Federal de Minas Gerais Cida Moura, dos artistas Musa Michelle Mattiuzzi, Ana Pi, Janaína Barros e Wagner Leite. 

CONHEÇA OS VENCEDORES 
Encruzilhada – Área: Direção
“Masemba” – Benjamin Abras

Muriquinho – Área: Infanto-juvenil
“A lenda de ananse” – Teatro Negro e Atitude

Oralitura – Área: texto, trilha sonora.
“Ensaio sobre fragilidades” – Jhonatta Vicente, Anderson Feliciano e Demétrio Alves

Corpo adereço – Área: Dança
“A-corda que é real!” – Cynthia Reyder

Performance do tempo espiralar – Área: Performance
“Bombril” – Priscila Rezende

Lugar da memória – Área: Cena Curta
“Se os homens são feitos do barro, nós feitas da lama” – Juhlia Santos e Giovanna Heliodoro

 Afrografia – Área: Atuação
“Dar a luz” – Anair Patrícia

Cena em sombras – Área: Cenário, figurino e/ou luz.
“Gala” – Pink Molotov, Marli Ferreira, Darlene Valentim, Vinícius Morais.

Palco em negro – Área: Espetáculo longa duração.
“Lótus” – Daniele Anatólio

Ancestralidade – Área: Personalidade, homenagem, revelação.
“O negro conta” – Aruana Zamby e Evandro Passos. 

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