Teatro Oficina estreia peça de Chico Buarque com alusão às redes sociais

Roda viva, a primeira peça escrita pelo cantor, volta depois de 50 anos pelas mãos do diretor José Celso Martinez Corrêa

por Estadão Conteúdo 06/12/2018 08:10
JOSÉ PATRÍCIO/ESTADÃO CONTEÚDO
(foto: JOSÉ PATRÍCIO/ESTADÃO CONTEÚDO)

Roda viva, a primeira peça de Chico Buarque, escrita em 25 dias quando o cantor e compositor tinha 24 anos, volta depois de 50 anos pelas mãos do diretor José Celso Martinez Corrêa, do Teatro Oficina, que encenou o texto no Rio, em Porto Alegre e São Paulo em 1968. A estreia é nesta quinta (6), no palco do Sesc Pompeia, e a montagem terá somente quatro apresentações naquele espaço.

Trata-se da Roda viva de Chico Buarque, mas com pitadas genuínas do Teatro Oficina, que devem garantir um mínimo de polêmica: várias referências ao presidente eleito, Jair Bolsonaro, com uma série de imitações do político. Depois do Sesc, a montagem segue para a sede do Oficina, na Bela Vista, para uma temporada até 10 de fevereiro. A produção, estimada em R$ 800 mil, com apoio do Sesc e do Itaú Cultural, tem mais de 60 profissionais envolvidos, dos quais cinco são protagonistas, um coro de 20 artistas, sete músicos e mais de 30 técnicos.

Nem poderia ser diferente. A versão atual da peça une na autoria os nomes de Chico e do Oficina e deve ser, como ele mesmo diz, atualizada no tempo. “Quando Chico escreveu a peça, por exemplo, não havia internet e hoje não há como fazer Roda viva sem esse elemento, sem redes sociais”, diz José Celso. “Temos um presidente eleito graças a elas, então as redes não têm como ficar de fora.”

No ensaio aberto, no palco do Oficina, um smartphone gigante, usado como telão para as imagens em vídeo projetadas ao longo do espetáculo, divide o espaço com os elementos originais indicados no texto, como grandes imagens de São Jorge e uma garrafa de Coca-Cola. Ao longo da peça, são feitas várias referências a Facebook, Instagram e WhatsApp, sons característicos inclusos.

A história da ascensão e queda do cantor Benedito Silva começa com o coro já em cena, quando as portas são abertas e o público chega ao som de Caravanas, música do mais recente disco do autor de Roda viva. “O Chico de 74 anos está dando de presente para o Chico de 24 anos a canção”, conta o diretor. Enquanto a banda toca Caravanas e o coro canta – a letra refere-se à horda de gente que desembarca em Copacabana para um dia de sol nos fins de semana –, as pessoas entram e logo constatam nos telões diversas imagens dos cordões humanos cruzando rios e descampados na América Central, a caminho da fronteira do México com os Estados Unidos da Era Trump; outra atualização da peça.

Benedito Silva quer vencer fácil na vida. Vende sua alma para o anjo negro (Guilherme Calzavara) para amealhar um sucesso após o outro. O anjo é seu marqueteiro pessoal. Benedito Silva vira Ben Silver – por sugestão do anjo –, para depois fazer uma turnê internacional, ser rejeitado e virar Benedito Lampião. Durante uma crise, bêbado e acabado, Benedito encontra-se com seu amigo das antigas Mané (Marcelo Drummond), papel originalmente interpretado por Paulo Cesar Pereio. Só que, nesse momento, ele não é mais Benedito, nem Ben, nem Benedito Lampião. Ele é Chico Buarque de Holanda, com direito à foto do autor nos telões do teatro. Uma homenagem do grupo ao Chico dramaturgo, ao Chico que cedeu graciosamente a peça para ser remontada 50 anos depois.

Aliás, talvez a maior homenagem ao autor seja o próprio ator Roderick Himeros, em seu primeiro papel como protagonista de uma peça do Oficina. O ator lembra muito o Chico da época, galego de olhos verdes e sorriso largo. “O anjo faz o papel do manipulador da cabeça do Benedito para que ele vire um ídolo pop”, diz o ator. “O que está por trás é, na verdade, nossa elite quebrada, tratando as pessoas na chibata.”

O anjo negro criado por Chico Buarque tem uma comparsa de primeira hora, endiabrada, literalmente: a mídia, interpretada pela atriz Joana Medeiros. Sim, é o que está dito, a mídia é o diabo, que cobra 20% do que o anjo ganha com o agenciamento do pobre Benedito. E a transferência da grana se dá por reconhecimento digital e pelos celulares dos dois algozes do cantor. Completa o elenco principal a atriz Camila Mota no papel de Juliana, a mulher de Benedito Silva. “A grande diferença entre as duas montagens é que, em 1968, Chico havia assistido a O rei da vela e me chamou para dirigir Roda viva já com um coro pronto, impecável”, conta Zé Celso. “Agora, criamos um novo coro, formado por atrizes e atores que já trabalham no Oficina há anos.” 

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