Conflitos entre três irmãs pautam o espetáculo 'A ponte', que faz sua estreia nacional em BH

Com direção de Adriano Guimarães, peça retrata o paradoxo entre afeto e diferenças por meio das personagens de Bel Kowarick, Débora Lamm e Maria Flor

por Walter Felix 21/11/2018 08:30
Ismael Monticelli/Divulgação
Com estreia nesta sexta (23), 'A ponte' fica em cartaz até 23 de dezembro (foto: Ismael Monticelli/Divulgação)

O reencontro entre três irmãs, motivado pela iminência de morte da mãe, dá início a um processo de autoconhecimento das personagens do espetáculo A ponte, que faz sua estreia nacional nesta sexta-feira (23), em BH. O texto é do canadense Daniel MacIvor, com direção de Adriano Guimarães, do coletivo artístico brasiliense Irmãos Guimarães.

Bel Kowarick dá vida à primogênita Theresa, uma freira que, apesar de extrovertida, se isolou em um retiro religioso. Débora Lamm é Agnes, a filha do meio, atriz em decadência que abandonou a cidade natal. Já a mais jovem, Louise, interpretada por Maria Flor, é viciada em séries e vive reclusa no mundo virtual. Do embate entre elas, ambientado na cozinha da casa em que foram criadas, crenças e valores de cada uma passam a ser revisados na busca pela reconstrução do núcleo familiar.

Para Bel Kowarick, o reencontro entre as irmãs, com personalidades e situações de vida tão distantes, revela uma noção de pertencimento. “Quando você sai do ambiente de casa, mesmo que ganhe o mundo, conquiste o Prêmio Nobel, quando retorna àquela mesa de almoço, volta a ser o irmão caçula, o do meio ou o mais velho. Voltamos a ser a pessoa de quem não podemos fugir”, acredita a atriz.

Segundo Kowarick, a aceitação das diferenças, evocada pelo espetáculo de forma pontual, é uma abordagem cara aos dias de hoje. “Falo não só das diferenças que nos geram compaixão, que fazem parte dos grupos oprimidos, mas também da diferença que rechaçamos. É fácil aceitar aquele que é próximo de mim, que pensa quase como eu, mas é duro conviver com o distante. É o nosso exercício atual: não precisamos amar essas pessoas, necessariamente, mas, ao menos, compreendê-las e respeitá-las.”

ERROS Juntas, as irmãs revisam antigos erros que deixaram marcas em suas trajetórias. “Não adianta querer passar por cima de certos monstros, precisamos encará-los. Temos que rever nossa história ou, então, andaremos sempre em círculos, repetindo erros e sofrendo pelos mesmos assuntos”, avalia Bel Kowarick. “A peça trata do núcleo familiar, não está diretamente associada à política, mas é uma discussão que pode ser levada a um sentido mais amplo. Se não olhamos para a história, do Brasil e do mundo, não somos capazes de seguir em frente”, assinala a atriz.

Ismael Monticelli/Divulgação
Texto é um convite à aceitação e à boa convivência no ambiente familiar (foto: Ismael Monticelli/Divulgação)
A resolução de conflitos internos é a chave da personagem de Débora Lamm. “Agnes tem uma grande ferida em seu passado e a história trata do momento em que ela dá atenção a isso para poder seguir”, avalia Lamm. Para ela, todas as personagens apresentam capacidade infinita de gerar identificação no espectador. “Elas passam por questões básicas dos seres humanos, que dizem respeito aos laços de sangue, aqueles que não escolhemos e com os quais somos obrigados a conviver. O ambiente familiar reúne nossas primeiras referências e também nossos primeiros conflitos. É o primeiro espelho para o mundo.”

Embora reconhecida pela comédia, Lamm – que integra o elenco do humorístico Zorra, da TV Globo – tem novamente a chance de mostrar nos palcos a sua verve dramática. No início do ano, passou pela capital mineira com a premiada montagem Mata teu pai, releitura contemporânea do mito de Medeia, adaptada pela mineira Grace Passô. “A vida é temperada por comédias, tragédias e diversas sensações. No trabalho, tento espelhar ao máximo essa variedade, o que me permite passar por todos esses gêneros sem muita dificuldade”, aponta.

FAMÍLIA A adaptação de A ponte nasceu por iniciativa de Maria Flor, que se fascinou pela dramaturgia de MacIvor. “O texto, além de bonito, é cheio de camadas que condensam questões profundas com metalinguagens e um subtexto que são privilégios para qualquer ator.” Para si, a atriz tomou o papel da caçula do clã. “Louise pode parecer estranha, mas não a mim, que percebo sua forma específica de elaborar as coisas. Ela se sente excluída naquele núcleo familiar, mas, ao mesmo tempo, está conformada, não questiona sua existência nem tem qualquer ambição”, define a atriz.

Com um convite à aceitação e à boa convivência, o espetáculo faz uma sensível análise dos conflitos familiares, segundo Maria Flor. “O que a peça tem de mais interessante é a discussão sobre a função da família na vida de cada indivíduo. Apesar das diferenças, as irmãs têm as mesmas origens e referências”, avalia. “Ao longo da vida, vamos nos transformando e nos reinventando, mas são da família as memórias mais primordiais. Somos todos muito do que fomos e aprendemos na infância, vivenciada com marcas afetivas e traumáticas.”

A PONTE
Texto de Daniel MacIvor. Direção de Adriano Guimarães. Com Bel Kowarick, Débora Lamm e Maria Flor. De sexta a segunda-feira, às 20h. Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil (Praça da Liberdade, 450, Funcionários, (31) 3431-9400). Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia). Vendas no local ou pelo site eventim.com.br. De 23 de novembro a 23 de dezembro.

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