Elza Soares inspira musical que chega a BH no fim de semana

Treze mulheres estarão em cena para celebrar a vida, a arte e a luta de uma das cantoras mais importantes do Brasil

por Márcia Maria Cruz 20/11/2018 08:00
Leo Aversa/divulgação
(foto: Leo Aversa/divulgação)

Os dois últimos discos de Elza Soares, A mulher do fim do mundo (2015) e Deus é mulher (2018), reforçam o lugar do feminino na música e trajetória de uma das cantoras mais importantes do país. Potente e de timbre rouco, a voz de Elza representa muitas brasileiras, em especial as negras. Sem revelar a idade exata quando perguntada, costuma dizer que o tempo dela é agora. Ao longo de oito décadas, essa carioca se reinventou como mulher e artista.

Com texto de Vinícius Calderoni e direção de Duda Maia, essa trajetória é apresentada de forma não linear no espetáculo Elza, que chega à capital mineira no fim de semana. O cantor e compositor Pedro Luís, a cantora e atriz Larissa Luz e a compositora e violonista Antônia Adnet assinam a direção musical.

Em outubro, antes de estrear no Rio de Janeiro, o elenco foi à casa de Elza Soares se apresentar para a cantora. “Ela ficou bem emocionada. Elza é muito potente e exigente. Então, passamos por essa bênção”, diz Duda Maia.

Convidada para o papel principal, a baiana Larissa Luz divide a tarefa com outras seis atrizes escolhidas em seletiva nacional. Três são mineiras: Júlia Dias, Laís Lacôrte e Janamô. Também estão no elenco a carioca Késia Estácio, a potiguar Khrystal e a baiana Verônica Bonfim.

“Quando fui chamada pela Andreia Alves, que iniciou o projeto com os empresários de Elza Soares, tinha na cabeça a possibilidade de várias mulheres a representarem”, conta Duda. Por ter timbre muito parecido com o da cantora, Larissa Luz foi inspiração para a montagem, inclusive assinando conjuntamente a direção musical. “Queria o lugar da diversidade feminina da mulher brasileira em corpos, timbres e sotaques diferentes”, explica Duda.

A escalação de mulheres se estendeu para a banda, que se apresenta ao vivo. São 13 mulheres em cena. “Decidimos não trabalhar com homens. Um dos convidados seria o Tizumba”, lembra Duda, referindo-se ao cantor, compositor, ator e multi-instrumentista mineiro Maurício Tizumba, pai de Júlia Dias.

A banda é formada por Aline Colombani (violões, cavaquinho), Georgia Camara (bateria e percussão), Guta Menezes (trompete, flugelhorn e gaita), Marfa Kourakina (baixo), Neila Kadhí (programações, pandeiro, guitarra) e Priscilla Azevedo (teclado, sanfona, escaleta).

Sem seguir o formato convencional de biografias, os fatos não são apresentados de maneira linear. A direção optou por mostrar não apenas a importância de Elza Soares para a música brasileira, mas também a trajetória pessoal dela. “São fatos que inspiram a gente a lutar. Ela tem história de superação. A fala dela se dá no lugar da mulher, do feminino, como mulher brasileira que ela é.”

CARETA

Elza Gomes da Conceição nasceu na favela carioca de Moça Bonita, em 23 de junho, no final da década de 1930. “Contar de forma linear é maçante, bem careta. Vinícius queria liberdade poética. Inventar coisas que ela não fez, mas gostaria de ter feito. Respostas que ela não deu, mas poderia ter dado. Queríamos brincar com a biografia. Queríamos apresentar, por exemplo, dois momentos da vida dela simultaneamente, fundi-los”, explica Duda.

Elza Soares enfrentou momentos difíceis com a morte do jogador Garrincha (1933-1983), seu companheiro. Nos anos 1960, os dois enfrentaram o preconceito da sociedade por viverem juntos – quando se apaixonaram, ele era casado.

Antes disso, Elza havia ficado viúva – muito jovem, pobre e com cinco crianças para cuidar. Foi empregada doméstica, mas nunca deixou de cantar. O sucesso chegou na década de 1960.

A cantora teve sete filhos – o primeiro nasceu quando ela tinha apenas 12 anos. Quatro morreram. Dois de fome, nos anos 1950, antes mesmo de receber um nome. Manoel Francisco, filho dela com Garrincha, morreu em acidente de carro, em 1986. Em 2017, Elza perdeu Gilson, já adulto, em decorrência de problemas renais.

DANÇA

Apesar das tragédias pessoais, o espetáculo mostra – de maneira alegre – como Elza Soares se reinventou. Além da música, a dança é o aspecto cênico que costura o roteiro. Uma das características da diretora Duda Maia é trabalhar o corpo.

“A dança não é pré-marcada, pré-inventada. Foi construída na improvisação com o elenco. Ao mesmo tempo, temos um coletivo muito forte e a individualidade de cada uma delas. São sete corpos muito diferentes. Cada um descobre o seu caminho de fazer. O corpo vem com muita força”, ressalta Duda Maia.

A história também é atravessada por outras mulheres negras, como Dandara, mulher de Zumbi dos Palmares, que resistiu à escravidão e se suicidou em 1694; a norte-americana Rosa Parks (1913-2005), símbolo do movimento dos direitos civis e da luta contra o racismo nos EUA; e a vereadora carioca Marielle Franco, feminista e defensora dos direitos humanos, assassinada em março, no Rio de Janeiro, aos 38 anos.

ELZA
Sábado (24), às 20h, e domingo (25), às 19h. Cine Theatro Brasil Vallourec. Praça Sete, Centro. Plateias 1 e 2: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada). Balcão: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada). Ingressos à venda em www.eventim.com.br e na bilheteria da casa. Informações: (31) 3201-5211 e 3243-1964.

Entrevista Larissa Luz atriz, cantora e compositora

“A nossa verdade está ali”

Como começou a sua trajetória na música?


Desde muito nova, demonstrava essa ligação com a música – já na época da escola, quando comecei a estudar teatro. Descobri que queria cantar e desde os 11 anos faço isso. Aos 14, comecei a cantar profissionalmente em navio de cruzeiro. Depois, fui vocalista do Ara Ketu, grupo em que fiquei quatro anos. Saí para a carreira solo e lancei dois discos. Foi nesse momento que encontrei os musicais. (O diretor) João Falcão viu vídeos meus na internet e me convidou para fazer o musical Gonzagão, a lenda.

Você foi inspiração para o musical. Já tinha identificado a semelhança de seu timbre com o de Elza Soares?

Quando fiz Gonzagão, a lenda, as pessoas falavam que, em algum lugar, havia a proximidade com ela. Já estava na minha arte, de alguma forma, era muito natural. Estudei para me aproximar do timbre dela, que sempre foi referência pra mim.

Como é a sua relação com a home-nageada Elza Soares?

Conheci a Elza pessoalmente numa festa da Natura. Ela me viu cantar e me chamou para dizer que havia gostado. Peguei o contato dela e depois a convidei para gravar participação em uma das faixas do meu álbum Território conquistado.

Como é participar de musical cujo elenco é composto quase na totalidade por mulheres?

O meio musical é muito masculino. Sempre estive no meio de muitos homens. Passei por várias situações dentro desse meio majoritariamente masculino. Tem sido muito bom partilhar a produção e a criação em ambiente totalmente feminino. Conviver com mulheres me faz crescer e aprender cada vez mais. Temos muito a acrescentar, a gente se ajuda. Criei bastante com a Duda. Tem poesia minha no texto e música autoral que fiz para a peça, o Rap da Vila Vintém.

Quem é Larissa Luz?

A gente colocou muito da gente nesse espetáculo. Esse é o grande trunfo. A nossa verdade está ali. Sou mulher preta, aguerrida, nordestina, disposta a enfrentar todas as questões que a sociedade coloca na frente, descobrindo-me a cada dia e me autoafirmando.

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