Tonico Pereira estrela peça baseada nas ideias de Sócrates sobre a importância do pensamento livre

Em monólogo que dialoga com os impasses do Brasil, ator defende a 'convivência com o múltiplo'

por Walter Felix 02/11/2018 13:25

Aos 70 anos – com mais de 50 dedicados aos palcos –, Tonico Pereira mantém o ímpeto de instigar o público a refletir sobre a vida. Distante dos papéis cômicos que marcam sua trajetória na TV, mas próximo do tom contestador que manifesta nas redes sociais, o ator traz a BH a peça O julgamento de Sócrates, adaptação do dramaturgo Ivan Fernandes para um clássico de Platão, Apologia de Sócrates.

 

Victor Pollak/Divulgação
'Vejo gente se fechando com sua opinião formada, sem perceber que é preciso conviver com a dúvida' (foto: Victor Pollak/Divulgação)
É a primeira vez que o veterano, sozinho, encara o espectador. “Não posso considerar esse o meu primeiro monólogo, pois descobri recentemente que monólogo não existe”, afirma Pereira. “O ato teatral é composto pelas pessoas envolvidas num trabalho de comunhão. Na prática, estamos sempre contracenando com a plateia. Os espectadores são os atores principais, o que faço é coadjuvar para eles e dar motivos para que reflitam, raciocinem...”

Ele admite, contudo, a singularidade dessa experiência. “A principal diferença é que, quando erro, não tenho que reclamar com ninguém, a não ser comigo mesmo. Fica mais fácil, porque sou muito condescendente”, brinca.


Na pele do filósofo ateniense, Tonico Pereira convida o público a repensar preconceitos e a refletir sobre a liberdade de expressão, entre outras questões. Diante de um tribunal popular, Sócrates se defende da acusação de atentar contra a sociedade ao propor o livre pensamento e a busca de conhecimento sem a limitação de preceitos religiosos. Condenado à morte por envenenamento, ele se nega, fiel a seus princípios, a sugerir uma pena alternativa.

“Não acredito em filósofo que não tenha transcendido o seu tempo. Sócrates está aí até hoje e vai ficar por muitos anos, além de nós. É um cara contemporâneo, com ideias que serão discutidas ao longo de muitos anos. Por isso, não é difícil contextualizá-lo em nossa realidade”, diz Tonico.

 

Thiago Cardinalli/Divulgação
Tonico Pereira em cena na peça que tem apresentação única em BH nesta sexta-feira (2) (foto: Thiago Cardinalli/Divulgação)
BRASIL Sócrates surge no palco com figurino totalmente neutro. Assim, o ator deixa implícito que a narrativa poderia transcorrer em qualquer época e local. Isso não o impede de fazer citações diretas à cena política brasileira. “São citações não só a altos políticos, mas, de certa forma, à nossa sociedade como um todo, composta por políticos, mas também por religiosos, magistrados...”, adianta Tonico.

Questionado se Sócrates teria o mesmo destino trágico neste Brasil de 2018, o ator é certeiro: “Teria, assim como outras pessoas, que não são o Sócrates, têm”. Diz que outros “grandes injustiçados da história”, que se opuseram ao sistema e pagaram um alto preço por essa conduta, são Jesus Cristo, Nelson Mandela e Marielle Franco.

Tonico Pereira define O julgamento de Sócrates como uma peça essencialmente libertária. “Entendo a liberdade como algo lindo e frágil, que pode ser atingido a qualquer momento. Sempre foi assim, em qualquer período da história. Lutamos para preservá-la – como ação realmente de proteção –, pois podemos perdê-la ao menor vacilo”, alerta.

Para o ator, as liberdades estão ameaçadas, dado o atual cenário político brasileiro. Na corrida eleitoral para a Presidência da República, Tonico se posicionou a favor de Fernando Haddad (PT). Uma série de agressões e críticas surgiram em suas redes sociais. A maioria dos comentários o acusava de viver à custa da Lei Rouanet – que capta recursos da iniciativa privada para projetos culturais. Em um desabafo postado na semana passada, Pereira diz que não foi beneficiado pela legislação.

“Sou acusado pela raiva, pela discordância. As pessoas que me acusam nunca propuseram um diálogo, um debate. Elas partem do princípio da certeza, que á coisa mais burra do mundo. Quem não tem dúvida é imbecil. Estou pronto para mudar de opinião a cada respiração. Vejo gente se fechando com sua opinião formada, sem perceber que é preciso conviver com a dúvida”, dispara.

ESPERANÇA Ao final do espetáculo, Sócrates diz as últimas palavras para a sociedade que o condenou, prevendo tempos difíceis para Atenas. Ao contrário do personagem, Tonico tenta se manter otimista. “Ao mesmo tempo em que sinto viver um momento de dureza explícita, não deixo de preservar a minha esperança. Jamais teria um projeto político que fosse imediato. Vivemos o papel não do agora, mas o da história”, afirma.

“O que acontece hoje, no Brasil, não acho que vá mudar com uma eleição. Muda com um tempo muito mais vasto. Se nós, libertários, não logramos êxito agora, teremos que nos contentar com o papel importante de construtores de uma história que poderá vir a ser coroada com êxito no futuro, seja em 100 ou 200 anos. O que Sócrates falou há 2.400 anos está aí até hoje. Ele é vitorioso”, completa. “O importante não é brigar, mas estar aberto a conviver com o múltiplo. Mais que o teatro, a vida é um improviso total”, compara.

Nos palcos e fora dele, Tonico segue o princípio de privilegiar o diálogo, assim como Sócrates. “O que espero da plateia, como participação ou resultado, é poder levá-la a pensar. Sem impor nenhuma ideia – minha ou mesmo de Sócrates –, mas expondo nossas ideias e colocando-as em discussão. É a possibilidade de raciocinar juntos, que não passa pela imposição em nenhum momento, mas pela oferta de uma possibilidade de pensamento.”

O esforço e a energia para se manter ativo, no teatro e no debate político, abalam, mas não enfraquecem o veterano ator. “Ainda que gratificante, há um cansaço físico que nos deixa um pouco frágil diante de tudo o que está acontecendo. Gostaria que fosse mais leve poder disseminar ideias e colocá-las em discussão, mas não me deixo abater. Vivo a vida morrendo, igual a todos. Porém, ao ir para o teatro, ressuscito.”

O JULGAMENTO DE SÓCRATES
Nesta sexta-feira (2), às 21h. Teatro do Centro Cultural Minas Tênis Clube. Rua da Bahia, 2.244, Lourdes. (31) 3516-1360. R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia-entrada).

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