Atriz transexual, Jo Clifford volta ao FIT-BH para contar a história de libertação do seu corpo

A artista escocesa tornou-se conhecida no Brasil depois que um grupo fundamentalista tentou censurar a versão brasileira da peça O Evangelho segundo Jesus, rainha do céu

por Márcia Maria Cruz 19/09/2018 07:00
David Monteith-Hodge/Divulgação
(foto: David Monteith-Hodge/Divulgação)

Na década de 1950, Jo Clifford descobria que o próprio corpo não estava de acordo com a maneira como ela se percebia no mundo. Mas, naquela época, sequer existiam termos adequados para descrever formas de existência que fugiam do binarismo de homem e mulher. Anos depois, ela se tornou uma das mais conhecidas artistas da Escócia, exatamente por ter entendido que precisaria passar por processo de transição de gênero. E fez mais. Jo levou para a dramaturgia a experiência como pessoa trans. 

Em 2016, tornou-se conhecida do grande público brasileiro, depois que um grupo fundamentalista tentou censurar a versão brasileira da peça O Evangelho segundo Jesus, rainha do céu, dirigida por Natália Mallo. A atriz trans Renata Carvalho interpretava Jesus. Não entendia a repulsa do que para ela era a expressão máxima do amor representado por Jesus. Houve protesto em algumas cidades por onde o espetáculo passou e a peça chegou a ser proibida no Sesc Jundiaí, em setembro de 2017. De volta ao FIT-BH, o texto de Jo Clifford dialoga com a curadoria que trouxe o conceito corpo-dialeto como crítica à ideia de sujeito-padrão. Ela atua em Eve, peça escrita por ela, nesta quinta (20) e sexta (21), no Teatro Marília, e conduz oficina artística no dia 22, no Memorial Minas Vale.

A montagem brasileira d’O Evangelho segundo Jesus, rainha do céu gerou polêmica e foi proibida de ser apresentada. Você esperava tanta controvérsia?

Não. Minha preocupação era que as pessoas pudessem achar a peça chata. Escrevi o texto num ato de homenagem a Jesus dos Evangelhos, que estão repletos de humanidade e sabedoria. Pensei que ninguém estaria interessado nisso.

Você acompanhou a montagem brasileira. O que foi necessário adaptar para nosso contexto?

O que mais me impressionou é que a peça fala, fortemente, tanto da experiência de Renata como artista trans quanto para as minhas (experiências de ser trans). Não foi necessária quase nenhuma adaptação.

Em Eve, você traz a história de uma criança criada como menino, mas que se transformou numa das mulheres de maior destaque na Escócia. O que lhe motivou a escrever essa peça?

Em Eve, conto minha história. Minha filha me dizia para escrever uma autobiografia. Pensei: então é isso! Queria comunicar a realidade de ser trans de forma que permitisse ao público relacionar essa experiência com as próprias vidas. Busco a empatia, ferramenta tão poderosa para superar o preconceito.

Em Eve, você mostra como é importante se estar atento aos sinais da transexualidade desde a infância. Você acredita que esse processo de transição de gênero nos dias atuais ocorre de maneira mais tranquila, menos dolorosa?

Foi muito difícil para mim. Quando era criança, na década de 1950, ninguém falava sobre essas coisas. Palavras como transsexual não existiam. Então, não havia como descrever ou começar a entender os sentimentos que eu tinha. E me senti completamente sozinha. Acreditava que era a única pessoa que se sentia assim. O processo de chegar a um acordo com quem sou foi muito longo, lento e doloroso. Mesmo quando comecei a realizar O Evangelho segundo Jesus, rainha do céu, eu era a única artista trans que falava abertamente (sobre transexualidade) na Escócia. Todos estavam escondidos até então. Exceto eu. E me senti terrivelmente vulnerável e exposta. Estou muito feliz por ninguém precisar se sentir sozinha agora como me senti.

O Brasil ainda apresenta números assustadores de assassinato de pessoas trans. Como é o contexto para pessoas trans na Escócia?

Temos sorte em não termos tido assassinatos neste ano ou no passado. Mas há apenas 5 milhões de nós. Também o nosso governo está comprometido com a igualdade e os direitos humanos, e muitas outras salvaguardas legais estão em vigor para nos proteger. Estou muito orgulhosa pelo fato de o Teatro Nacional da Escócia produzir essa peça e trazê-la para o Brasil. Isso, em si, é uma declaração muito poderosa. Ainda há muito preconceito a superar e muito trabalho a ser feito para proteger as crianças trans nas escolas. Mas os alunos trans são capazes de sair, o que era impensável mesmo quando meus filhos eram jovens. O que é angustiante é que 40% dos jovens trans tentam o suicídio. A pressão e a angústia ainda são profundas. Espero que a minha presença como artista orgulhosa e abertamente trans, criando e executando peças como essa, ajude as coisas a se tornarem melhores.

Judith Butler usa o conceito de performatividade para falar da multiplicidade de existências. Os corpos queer levam à revolução política e cultural? Já avançamos politicamente na possibilidade dessas existências?

Estamos em público, na imprensa, tendo esta conversa. Isso não teria sido possível há cinco anos. É uma mudança notável. Estamos vivendo mudanças bem profundas na tecnologia, na medicina e na ciência. Também na maneira pela qual entendemos o que é ser mulher e o que é ser homem. Tudo isso é necessário nesta fase da história humana. Essas mudanças são desafiadoras e assustadoras. Não é de admirar que muitas pessoas estejam resistindo a elas. Não é por acaso que o candidato mais à direita, nestas eleições, tenha opiniões machistas...

No Brasil, ao mesmo tempo em que vemos o avanço das lutas e reivindicações de pessoas queer, vemos avançar discurso conservador, que quer cercear direitos e tornar invisível essa população. Como o campo das artes pode ser utilizado para vencer o conservadorismo?

As artes são incrivelmente importantes. Teatro é espaço público que permite aos artistas e ao público sonhar com um mundo diferente. É isso que espero que meu trabalho faça. Reação e conservadorismo são inevitáveis num tempo de progresso e mudanças. Todos nós temos o dever de escolher onde queremos estar. Espero que meu trabalho, pelo menos, empodere as pessoas e as faça sentir compaixão pela humanidade e fomentar sonhos de formas diversas de viver.

A curadoria desta edição do FIT-BH apresenta o conceito de corpo-dialeto. Para você, o que é e quais os limites da linguagem teatral hoje?

A escolha que as curadoras fizeram foi importante e poderosa. Sinto-me privilegiada e honrada de ser parte desta edição do festival. Espero que o público e eu possamos estabelecer algo intenso e bonito no espaço do teatro durante esse breve período especial e belo da performance. Que possamos testemunhar e criar trabalho teatral juntos.

EVE
Texto de Jo Clifford e Chris Goode, direção de Susan Worsfold, com Jo Clifford. Amanhã (20) e sexta (21), às 19h. Teatro Marília (Av. Alfredo Balena, 586, Santa Efigênia, (31) 3277-4697). Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10.

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