Com Débora Falabella, peça 'Contrações' critica a degradação nas relações de trabalho

Trio mineiro, composto ainda por Yara de Novaes e Grace Passô, é responsável pelo êxito do espetáculo, que retorna a BH nesta sexta (3)

por Walter Felix 03/08/2018 07:00

Guto Muniz/Divulgação
Débora Falabella e Yara de Novaes são funcionária e patroa em 'Contrações' (foto: Guto Muniz/Divulgação)
Contrações, em cartaz desde 2013, é fruto da parceria entre três expoentes do teatro de Belo Horizonte. Sob direção de Grace Passô, as atrizes Débora Falabella e Yara de Novaes retornam à capital mineira neste fim de semana como, respectivamente, a funcionária de uma grande corporação e sua gerente. Ambientada na empresa, a peça aborda o assédio moral em ambiente de trabalho, faz uma crítica à importância conferida ao dinheiro pelas pessoas e expõe, aos olhos do público, a degradação humana diante de um vínculo capital.

A patroa convoca Emma para ler, em voz alta, uma cláusula de seu contrato que proíbe o relacionamento amoroso ou sexual entre os empregados sem o conhecimento da instituição. Em encontros seguintes, a gerente, amparada por sua posição hierárquica, faz questionamentos embaraçosos e coloca a funcionária em estranhas situações.

 

O texto foi escrito em 2008 pelo inglês Mike Bartlett. A adaptação brasileira, cinco anos depois, teve sua concepção formulada aos olhos do público. A equipe viajou por cidades do interior paulista, recolhendo impressões da plateia que influenciaram na narrativa.

Débora e Yara integram o Grupo 3 de Teatro, fundado em 2005, que conta ainda com Gabriel Paiva. O trio se alterna nas funções artísticas e técnicas em cada espetáculo – em Contrações, Gabriel é diretor de produção. Para levar a projeto aos palcos, eles convidaram a renomada atriz, dramaturga e diretora Grace Passô. Ela revela que a adaptação do texto original inglês não implicou grandes alterações.

“Não houve necessidade de contextualizar a qualquer situação brasileira. O texto trata de questões presentes em todo o mundo, além das fronteiras”, conta Grace. “O que fizemos foi ampliar a peça em um lugar metafórico, onde são possíveis leituras de muitos aspectos da nossa sociedade. A relação abusiva entre as personagens é muito explícita, mas também é colocada de forma metafórica pelo texto. Aquele ambiente corporativo carrega, simbolicamente, características do nosso mundo exacerbadamente capitalista.”

As artistas defendem que a peça não se prende às críticas ao sistema das grandes empresas. “Contrações tem seu registro espacial na sala de uma gerente, mas foge e se derrama sobre a sociedade inteira. Sabemos como a grana e o mundo das coisas e do ter acabam tirando a liberdade das pessoas”, defende Yara de Novaes. “Muitos, na situação da Emma (a funcionária moralmente assediada), teriam dito ‘não’ e ido embora. Emma poderia dizer não àquela subordinação, mas não o faz por escolha diante do mundo que ela considera valioso. Ela não é desfavorecida socialmente – se fosse assim, a discussão seria outra. São os valores dela que a fazem se manter naquela submissão”, acrescenta Yara.

Segundo Grace Passô, o ambiente das empresas é escolhido simbolicamente, mas não à toa, para representar o mundo contemporâneo. “É um lugar desértico em que as relações humanas e as subjetividades das nossas existências são fragilizadas pelo capitalismo, cuja lógica elege como valores coisas muito distantes de um pensamento humanista. É possível encontrar esse pensamento dentro do próprio teatro ou de qualquer outra profissão”, afirma a diretora.

Guto Muniz/Divulgação
'Contrações' teve sua primeira temporada em BH em 2014 (foto: Guto Muniz/Divulgação)
DESCONSTRUÇÃO Débora e Yara identificam em Mike Bartlett a capacidade de levantar temas delicados e complexos à luz do humor. “Bartlett tem humor ácido em todos os seus textos. É uma forma de causar identificação. Quando o espectador ri, ele está compreendendo, se identificando e se abrindo ao espetáculo”, diz Débora Falabella. “Contrações começa com um linguagem aparentemente realista, mas o autor explode essa realidade de tal maneira, com cores tão fortes, que ela migra para o teatro do absurdo. Neste momento, em que o autor experimenta a realidade, é que as pessoas riem. É um riso político, desconstrutor, de constrangimento”, analisa Yara de Novaes.

Contrações fez sua primeira temporada em BH em 2014. Ainda que não haja mudanças significativas na narrativa, Débora defende que a peça se renova a cada encenação. “Estamos sempre nos aprimorando. O teatro é vivo e, a cada apresentação, vamos descobrindo diferentes maneiras de nos relacionar, ainda mais por sermos duas atrizes em cena, jogando o tempo inteiro.”

CONTRAÇÕES
Texto de Mike Bartlett. Com Débora Falabella e Yara de Novaes. Direção de Grace Passô. Sexta (3) e sábado (4), às 21h. Teatro do Centro Cultural Minas Tênis Clube. Rua da Bahia, 2.244, Lourdes. (31) 3516-1360. Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada). Informações: (31) 3516-1360

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