Congresso brasileiro é "teatro de quinta categoria", diz Zé Celso em entrevista

Artista de primeira grandeza, José Celso Martinez Corrêa, do Teatro Oficina, fala sobre a necessidade de união da classe artística para resistir à política do governo e comenta sua incansável luta pela cultura brasileira

por Pablo Pires Fernandes 01/07/2018 07:21

ITAÚ CULTURAL/DIVULGAÇÃO
José Celso concedeu ao Estado de Minas entrevista via Skype (foto: ITAÚ CULTURAL/DIVULGAÇÃO)

“É reunir”, responde José Celso Martinez Corrêa diante da pergunta sobre a necessidade do teatro hoje. “Reunir todas essas forças que estão separadas”, afirma, sem titubear. Defini-lo como diretor, ator e dramaturgo é pouco. Zé Celso não se deixa capturar por classificações ou categorias. Há tempos transcendeu e rompeu barreiras desse tipo. No entanto, seu papel como ator político na cena cultural do país é inquestionável.

A trajetória, a coerência e a militância em defesa da arte brasileira desse senhor de 81 anos não são feitas em gabinetes a portas fechadas, nem através de cochichos ou conluios. Seu exercício político é praticado, pessoalmente, nos palcos e nas ruas, nas tendas e picadeiros – arenas que escolheu, há mais de 50 anos, para promover o encontro do público com a arte.

Na conversa por Skype, Zé Celso não encena. De seu apartamento em São Paulo, que divide com companheiros do Teatro Oficina, suas palavras têm a capacidade de evocar presença. “O teatro é exatamente o fato cultural do cara a cara, de gente ao vivo”, diz, reafirmando o poder “transumano de transmutar” dessa arte milenar. “Traz sempre um sentido de aglutinação, de ação”, defende, apontando que, no momento crítico do país, é necessário “se ajuntar” e “unir forças”.

Este “unir forças” a que se refere Zé Celso já estava presente em 1958, quando fundou o Teatro Oficina ao lado de Amir Haddad, Carlos Queiroz Telles, Fernando Peixoto, Renato Borghi, Ítala Nandi, Etty Fraser e outros artistas. A trupe se formou na Faculdade de Direito da USP. “Foi onde me encontrei com os colegas que não tinham talento nenhum para o direito. Criamos o Oficina numa faculdade de direita”, declara, pontuando que “a gente teve que lutar muito”. Desde então, o encontro entre o teatro e Zé Celso, já intuído “desde que me dou por gente”, tornou-se definitivo.

Mas foi em 1967, com a montagem de O rei da vela –  peça de Oswald de Andrade escrita em 1933, publicada em 1937 e, até então, nunca levada aos palcos – que ocorreu uma virada na carreira do diretor. Rompendo com padrões da dramaturgia vigente, Zé Celso resgatou as propostas do Manifesto antropófago (1928), de Oswald, e criou um espetáculo revolucionário, reconhecido como uma ruptura referencial na história do teatro brasileiro.

O resgate da Antropofagia oswaldiana, aliado ao desejo libertário e contestador, foi central para o movimento (contra)cultural nominado Tropicalismo. Fiel aos valores antropofágicos, no entanto, Zé Celso recusa padrões, doutrinas, ideologias ou qualquer tentativa de rotulá-lo. “Esse negócio de ‘ismo’ não dá. Não gosto de comunismo, não gosto de capitalismo, não gosto de feminismo, não gosto de ‘viadismo’. Os ‘ismos’ foram muito importantes até certa parte, mas, num momento como este, tem que acabar com os ismos, é preciso juntar tudo”, declara, referindo-se à atual conjuntura do Brasil e do mundo.

BIFE Quando lhe pergunto o que pensa sobre o país, como vê a arte e a política atual no Brasil, ele me manda um texto que merece o jargão teatral de “bife”, quando o texto dito pelo ator é muito longo: “O Brasil já teve muitos políticos talentosos e tem muitos políticos talentosos. Um dos mais talentosos está preso. Mas, hoje não tem talento político. São pessoas que, além de não ter talento, são ignorantes mesmo, burras, feias. E são reativas a tudo o que foi conquistado no Brasil no campo cultural, das liberdades humanas, na área social. A gente vê um moralismo feroz, fascista, um ódio, uma reação ao que é a criação”.

Sábio, faz uma pausa dramática, como que para enfatizar o que falou, e volta ao tema do teatro, seu meio de expressão e de exercício político. “Nessas ocasiões, o teatro passa a ser uma coisa muito importante, um lugar aglutinador de tudo o que foi oprimido – os sindicatos, os negros, as trans, os índios. É preciso unir tudo isso.”

O discurso me soou como se ele encarnasse um senador da Grécia Antiga, defendendo a democracia numa ágora. Mas os tempos são outros e estamos no Brasil de 2018. Lúcido e experiente, o senhor me explica: “Tomaram o poder a favor do dinheiro, a favor do capitalismo ‘selvageééérrimo’, o capitalismo mais selvagem que a história humana já viu, em que a desigualdade é enorme e o capital financeiro, de especulação, pega o capital agrário, pega o capital industrial e leva lá longe. Sei disso, sou testemunha disto, estou dizendo uma coisa concreta”.

O maestro do Teatro Oficina faz outra pausa e me oferece um largo sorriso, via Skype, pela tela do computador. E, pensando no teatro desempenhado em Brasília, pergunto a ele como vê o Congresso brasileiro. “Esse teatro é de quinta categoria. São lacaios de lacaios de lacaios”, responde, completando que, pelos anos de palco, a atriz Fernanda Montenegro e ele deveriam ocupar uma cadeira no Senado. “O Senado era para ser um lugar de sabedoria, já foi, mas atualmente não é mais.”

A crítica se estende ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, “que está fechado contra os imigrantes”; ao imperialismo – “o americano, o chinês, o russo, tem uma porrada” –, à desigualdade – “nunca vi o mundo tão desigual em 81 anos”.  Zé fala sobre outra guerra fria, uma guerra de mercado que seduz e distancia as pessoas dos valores fundamentais.

Cita Jean Tible, autor de Marx selvagem, que se diz inspirado em Oswald de Andrade e propõe uma abordagem antropológica a respeito da obra do filósofo alemão. “Nesse livro, ele fala que a principal contradição do capitalismo contemporâneo, não é tanto entre o operário e o capital, é mais entre o capital e os movimentos indígenas da América”, diz Zé Celso que, inevitavelmente, aborda sua disputa de décadas com Silvio Santos em torno do terreno que circunda o Teatro Oficina.

“Luto pelo Teatro Oficina, pelas terras que cercam o Teatro Oficina. A luta é pelo Bixiga, o bairro do teatro, que está ameaçado de ser assassinado, porque o governador Alckmin e o prefeito Doria cederam ao grupo Silvio Santos o monopólio da revitalização do bairro. Eles falam que é de revitalização, mas é um projeto totalmente genocida do bairro”, resume, atacando ainda a especulação imobiliária e a “derrubada” de todos os órgãos que zelam pelo patrimônio no Brasil”. “São pessoas que não veem nada, eles não sabem que lá foi feito Os sertões, Pequenos burgueses, O rei da vela, Sófocles, não sabem o valor que essas coisas têm, acham que os artistas são vagabundos e só veem números.”

AVÓ ÍNDIA Zé Celso evoca suas raízes – “Minha avó era índia, eu sou um xamã” –, cita o líder ianomâmi Davi Kopenawa, autor de A queda do céu, “que é juma obra-prima, como a obra de Freud, porque mostra uma subjetividade totalmente desconhecida”, e exibe o colar de contas pela câmera do computador. E segue fazendo uma veemente defesa da terra e de sua cosmopolítica, “que inclui as coisas mais materiais que existem – chuva, céu, as estrelas, o Sol, quer coisa mais natural do que o Sol?”. “A gente pertence à terra, ao universo, a gente está ligado a toda essa máquina que, no capitalismo, é completamente ignorada, sem nenhuma perspectiva de perestroika, como fizeram os soviéticos”.

Após mais de uma hora de entrevista, Zé Celso mantém a vitalidade de um garoto ao discorrer sobre o Brasil e a riqueza cultural tupiniquim, a mestiçagem, a herança africana ou a sociedade sem Estado dos povos indígenas. “O pajé, por exemplo, não dita as regras. O pajé fala. Quem quiser seguir o pajé, segue, quem não quiser, não segue. É uma outra cultura, é uma outra missão, uma outra perspectiva humana.”

Apesar de dar muitas voltas, o raciocínio de Zé Celso não perde o foco. Conhece seus inimigos e sabe com quem pode contar. Elogio seu otimismo e, mais uma vez, recusa ser enquadrado. “Não sou otimista, não sou nada ‘ista’. Sou pragmático. Tenho uma coisa chamada felicidade guerreira e busco o aqui e agora. Eu busco a vida. E, eu, para estar vivo, preciso que as pessoas vivam comigo.” Consciente de sua missão, diz: “Mas é preciso luta, estamos precisando de luta, precisamos de tacapes, mas não é uma luta de armas. É uma luta de outra coisa, é uma luta diferente”. E, subitamente, começa a cantar: “Qualé o mais lindo presente/ que os deuses dão pros mortais / o que é mais lindo / é o que é mais amigo / ter a cabeça do inimigo nas mãos / e a sabedoria de tocar / pra ele ver de péééé / a nossa vitóóóóóóória”.

FIT SONDA O REI DA VELA


Depois de 50 anos da estreia de O rei da vela, de Oswald de Andrade, José Celso remontou o espetáculo que se tornou um marco do Tropicalismo e revolucionou o teatro brasileiro. A peça estreou em São Paulo, no fim de 2017, e foi levada ao Rio de Janeiro graças a uma campanha de financiamento coletivo. Atualmente, há uma negociação em curso entre a produção e a Fundação Municipal de Cultura (FMC) de Belo Horizonte para viabilizar a vinda do espetáculo para o Festival Internacional de Teatro (FIT-BH), em setembro. A assessoria da FMC informou que “a curadoria ainda está em fase de prospecção, assim como a produção em fase de levantamento dos custos” e que divulgará a programação assim que concluída. A gerente-geral de cultura do Sesc-MG, Eliane Parreiras, confirma que há conversas iniciais sobre a possível vinda do espetáculo a BH e que “há um esforço profundo de viabilizar a parte do orçamento” para sua concretização. Zé Celso, por sua parte, diz que quer “muito” vir a BH e lembra que a turnê de O rei da vela, de 1967, começou pela capital mineira. “O Brasil inteiro está querendo ver essa peça”, declara o diretor.

Não gosto de comunismo, não gosto de capitalismo, não gosto de feminismo, não gosto de ‘viadismo’. Os ‘ismos’ foram muito importantes até certa parte, mas, num momento como este, tem que acabar com os ismos, é preciso juntar tudo

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