Mulheres conquistam espaço no universo da comédia stand-up

Elas assumem o desafio de desconstruir a tradição, que usa estereótipos femininos como um elemento para o riso

por Ana Clara Brant 20/06/2018 08:40
WEBER PÁDUA/DIVULGAÇÃO
(foto: WEBER PÁDUA/DIVULGAÇÃO)

Popularíssimo nos EUA, o stand-up comedy demorou a chegar ao Brasil. Somente a partir dos anos 2000 a moda de espetáculos de humor executados por apenas um comediante que se apresenta geralmente em pé (daí o termo stand-up) foi ganhando espaço nos teatros. “E desde então ele se tornou um universo bem masculino, assim como ocorreu com o humor de maneira geral. Só agora as mulheres começam a conquistar seu espaço”, afirma a comediante mineira Paloma Santos, de 37 anos.

Uma das estrelas da programação da 98 FM, presente também na TV, no YouTube e no Facebook, Paloma brinca que durante 10 anos tentou levar uma “vida normal” e trabalhou no Judiciário. “Tinha que arrumar uma maneira de me sustentar, então trabalhava no Tribunal de Justiça. Mas, na medida do possível, já atuava no humor. Desde criança, sempre tive uma veia cômica, mas isso não era muito explorado nem incentivado pelos meus pais”, conta.

Foi em 2008 que Paloma fundou, ao lado dos amigos Gabriel Freitas, Bruno Berg, Edgar Quintanilha e Artur Otoni, o grupo de comédia stand-up Queijo, Comédia & Cachaça. “A partir de então, comecei a perceber que dava para viver disso e resgatei, na vida adulta, o viés cômico que tinha na infância. Não larguei tudo de uma vez; foi uma transição, mas hoje posso dizer que vivo da minha arte.” Ainda que sua carreira tenha sido bem-sucedida, Paloma Santos aponta preconceito contra as mulheres.

“O humor sempre foi mais voltado para o deleite do homem. É algo histórico. Acho que a mulher ainda faz parte de um grupo estereotipado – como o gay, o pobre, o negro, o gordo – que serve de piadas, infelizmente”, avalia. No entanto, ela acredita que a situação tem melhorado. “À medida que as mulheres foram conquistando espaço em todas as áreas, estamos vendo progressos. Com as redes sociais, internet temos conseguido mostrar nosso trabalho e talento. O stand-up é um ato político, uma ferramenta de reflexão, portanto, tem que ser um espaço democrático, com todo tipo de humor e humoristas”, defende.

Júnia Flor, atriz, comediante, palhaça e fotógrafa mineira, de “30 e pouquinhos anos”, como gosta de falar, assim como Paloma, adiou sua entrada no mundo artístico por pressão da família, que dizia ser um mercado difícil. “E eles estavam certos. É uma área que, ao contrário do que muitos pensam, requer muita seriedade, estudo e dedicação. Fiz um curso profissionalizante de teatro e procuro sempre me aperfeiçoar. Isso tudo aconteceu nos últimos quatro anos e atualmente sou graduanda de teatro da UFMG”, conta.

SENSÍVEL A comediante iniciou sua trajetória com espetáculos e performances dramáticas. A comédia, diz, nunca havia lhe passado pela cabeça, até iniciar os estudos de “palhaçaria”. “Na minha concepção, o palhaço não precisa ser necessariamente engraçado, mas é necessariamente sensível. Em meio a tanta sensibilidade e a tantas experiências emocionantes, em algum momento, dentro desse universo incrível, observei o potencial do cômico e do riso e percebi o quanto eu precisava aprender mais sobre isso”, diz.

Segundo Júnia, o humor a tirou de sua zona de conforto e, como um desafio, decidiu fazer oficina de stand-up. “Descobri nessa modalidade uma ferramenta crítica, que fala do cotidiano, da dor, das questões humanas e sociais com muito humor. Há quase dois anos estou passando por esse caminho, aprendendo constantemente e aceitando seus desafios”, afirma. Júnia Flor lamenta que a presença de mulheres na comédia esteja muito aquém do que pode ser e diz achar previsível que, numa profissão predominada por homens, haja estranhamento dos colegas com a presença feminina. “Mas penso que, em se tratando de homens maduros e inteligentes, isso é superado. Tenho grandes amigos comediantes que compreendem perfeitamente que uma comediante mulher é uma colega de profissão e não uma ‘diversão’ ou um ‘brother’.”

Para ela, o fato de ser mulher na comédia traz uma dificuldade adicional para o bom desempenho na profissão. “No stand-up, falamos o que sentimos, o que vivemos e o que percebemos da vida. Criticamos aquilo que nos incomoda, aquilo que acreditamos prejudicar e atrasar a sociedade e o indivíduo. Então, pensa quão delicado é criticar o machismo numa sociedade machista. Como desconstruir e reconstruir um humor que, por vezes, colocou a mulher num lugar de quem fala demais, de quem tem que cuidar da casa e dos filhos sozinha e ainda ser perfeita? Ainda em 2018, as pessoas riem de piadas assim”, comenta.

Júnia Flor diz que se a mulher comediante escolhe um caminho que não seja óbvio, ela tende a fazer autocríticas, se colocar na berlinda e assumir a responsabilidade de provocar outras mulheres a encontrar suas respostas e, sobretudo, suas perguntas. “Fui refém dos padrões de beleza a maior parte da minha vida. Nunca estive satisfeita com minha imagem ou com meu peso. Mas hoje faço piada com isso. Podemos ser quem somos, entendendo que o outro não tem que validar isso. O stand-up é isso, não tem que responder nada, mas é de bom tom que seja reflexivo. É uma maneira de vermos nossos processos de forma divertida, com mais leveza e humor”, afirma.


Carreira no teatro e na TV

A trajetória da comediante Larissa Câmara é outro exemplo da conquista de espaço pelas mulheres no território do humor. Natural de Campo Grande, ela se especializou em humor no Rio de Janeiro. Depois de fazer sucesso no teatro, emplacou também como roteirista de TV e cinema. Diretora do Prêmio Multishow de Humor, ela pesquisa talentos pelo Brasil e é roteirista do programa Vai que cola e redatora final de Ferdinando show - O game, no canal Multishow.

Versátil, Larissa encarna diversos personagens, como a velha rabugenta, a blogueirinha paulista e faz imitação de cantores famosos. Ela conta que as ideias surgem no dia a dia e seu método inclui gravar os primeiros insights antes de transformá-los em texto. “O principal é entender o que você quer expressar com o seu trabalho. Além disso, estudo, dedicação e ter interesse em se comunicar”, diz, sobre a receita do humor.

Ela já levou seu trabalho a Portugal, com solo de stand-up, e é coautora de três livros. Larissa gosta de seguir a linha de raciocínio do humor do “e se”. “Acho graça do inesperado. Sou muito debochada e, por meio do humor, posso mostrar as incoerências e maluquices do sistema de pensamento que adotamos”, diz. (Isabella de Andrade)

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