Encontro entre Edith Piaf e Bertolt Brecht toma forma em 'A vida em vermelho'

Letícia Sabatella e Fernando Alves Pinto interpretam os ícones do século 20 que deram voz aos oprimidos

por Márcia Maria Cruz 09/06/2018 08:00
Flávia Canavarro/Divulgação
Letícia Sabatella compara Edith Piaf a Jenny Pirata, personagem criada por Brecht (foto: Flávia Canavarro/Divulgação)

A cantora Edith Piaf nasceu em 19 de dezembro de 1915, em Paris, na França, e morreu aos 47 anos. O poeta e dramaturgo Bertolt Brecht nasceu em 1898, em Augsburgo, na Alemanha, e morreu aos 58. Expoentes do século 20, ambos se encontram em A vida em vermelho – Brecht & Piaf, espetáculo em cartaz no Teatro Sesiminas neste sábado (9) e no domingo (10).

O encontro imaginário é proposto no texto de Aimar Labaki, dirigido por Bruno Perillo. A atuação fica a cargo do casal Letícia Sabatella e Fernando Alves Pinto. “Brecht e Piaf são clássicos universais. Vemos neles muito da história. O mundo em guerra, questões políticas e polarizações pelas quais passaram. Na peça, trabalhamos com duas pessoas competindo entre si. Uma quer água, outra quer pedra. Ficam no desentendimento, mas procurando o entendimento”, afirma a atriz.

Letícia e Fernando interpretam atores de um antigo cabaré, Bertolt e Edith. Os dois ensaiam o espetáculo que apresentarão naquela noite acompanhados por três músicos. “A peça é muito divertida. Toca as pessoas de maneira não panfletária, faz com que elas mobilizem seus afetos. Isso diz muito”, completa Letícia.

No entanto, o espetáculo não se pretende biográfico. Ao contrário, os atores, propositalmente, cometem erros na citação de datas. “A gente faz a La vie en rose num campo de concentração. O Bertolt questiona que a Piaf não cantaria num campo de concentração. Edith diz: ‘E daí?, qual o problema? Isso aqui é um cabaré’”, comenta a atriz, lembrando que o jogo de cena não deixa que “ninguém saia enganado” em relação a fatos verídicos.

A proposta da encenação surgiu quando Letícia e Fernando faziam Caravana Tonteria, em que ela interpreta músicas de Piaf. “Cantava do meu jeito e não buscava semelhança com Piaf. Com as apresentações e o formato cabaré do espetáculo, fui percebendo que com minha tessitura vocal, conseguia trazer, em alguns momentos, uma ilusão para plateia. É um pouco da encarnação da força da Piaf”, diz. Foi nessa época que ela recebeu o convite para fazer A vida em vermelho.

Flávia Canavarro/Divulgação
O Bertolt de Fernando Alves Pinto quer vencer Edith com o apoio da plateia (foto: Flávia Canavarro/Divulgação)


CLOWNS Casados, Fernando e Letícia propunham um jogo de clowns em Caravana. “Eu e o Nando digladiávamos em cena. Fazíamos muita coisa de improviso. Víamo-nos como dupla de palhaços clássicos. Na palhaçaria tem o mais ingênuo e o mais briguentinho. A gente fazia essa dupla na nossa brincadeira”, relembra. Essa interação cênica criou a estrutura de cabaré para o espetáculo que trata do encontro de Piaf e Brecht.

Acompanhados de músicos, Letícia e Fernando interpretam o cancioneiro de Brecht (Balada de Mackie Messer e Ópera dos três vinténs) e de Piaf (Padam, Padam e Milord). “A carga de repertório, universal, é muito formadora para nós. Não é autoral como o de Caravana, mas tocar os clássicos é engrandecedor. Sou muito atraída pelo universo de Brecht e da Piaf, personas artísticas que dão voz aos oprimidos”.

Piaf, cuja trajetória é marcada por acontecimentos trágicos desde a infância, bem poderia ser uma personagem de Brecht, na opinião de Letícia. “Piaf é a força da pessoa que veio de situação de miséria. Ela empresta dignidade a putas, travestis e oprimidos, moradores de rua. É muito tocante a força interior dela e sua hipersensibilidade.”

Letícia lembra a semelhança entre Piaf e a personagem Jenny Pirata criada por Brecht. “Jenny tem algo próximo, garota que trabalha num boteco bem fuleiro, mas quando canta uma música todo mundo fica bem quietinho. Tem essa convivência com a rua e a pobreza, com as putas, com as pessoas que têm que sobreviver a duras penas em momentos de carestia”, diz. Para ela, o dramaturgo revela esse lugar devido ao olhar solidário para os desfavorecidos.

“A estrutura que o Aimar trouxe pra gente, coisa dele, são Bertolt e Edith contando a história de Brecht e Piaf. Aimar se inspirou nos dois personagens da Caravana, que somos eu e o Nando brincando ali”, afirma.

Os personagens do cabaré competem entre si. “Bertolt e Edith são competitivos e querem que a plateia decida quem é o melhor. Edith detona Brecht e Bertolt detona Piaf”, adianta.

Nestes tempos em que o que vale é o sucesso a qualquer custo, a atriz destaca a humanidade do dramaturgo alemão e da cantora francesa. “É muito bom, nos dias de hoje, a gente ter esses arquétipos, pessoas que passaram por altos e baixos em suas carreiras, em suas vidas. Foram exilados, expulsos, oprimidos e marginalizados”, diz.

PRONÚNCIA Quando recebeu o convite para fazer A vida em vermelho, Letícia estava iniciando as gravações da novela Tempo de amar, na TV Globo. “Tirei de mim, do que tenho de repertório, o conhecimento de voz e corpo. O Nando me ajudou com a pronúncia do francês. Nosso pianista ia para minha casa e a gente ficava de madrugada tocando as músicas e aprendendo os trava-línguas de Piaf”, diz.

Durante o processo da montagem, ela teve um problema na panturrilha que a deixou imobilizada. Ficou inchada por causa dos medicamentos. No dia da estreia, Letícia perdeu a voz. “Me senti como a própria Piaf na turnê suicida”, diz, em referência a quando Piaf fez turnê com o rosto inchado, problema que teria sido causado pelo uso exagerado de medicamentos.

A parceria com o marido foi fundamental para que ela superasse os problemas de saúde. Letícia destaca a cumplicidade do casal na vida conjugal e em cena. “Nando é o melhor parceiro. Já tinha feito teatro com ele antes de a gente se casar. Depois de casados, a gente fez várias coisas juntos. A música nos aproxima inteiramente. A gente conversa muito musicalmente também”, conclui.

A VIDA EM VERMELHO: BRECHT & PIAF
De Aimar Labaki. Com Letícia Sabatella e Fernando Alves Pinto. Direção: Bruno Perillo. Sábado (9), às 21h, com bate-papo com os atores. Domingo (10), às 19h. Teatro Sesiminas. Rua Padre Marinho, 60, Santa Efigênia. Ingressos: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada). À venda na bilheteria do teatro e no site www.tudus.com.br. Informações: (31) 3241-7181.

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